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Após duas séries de publicação periódica e duas edições especiais, a quinta proposta da editora Goody no que toca à banda desenhada Disney do universo do Mickey e dos Patos é a série Disney BIG, subintitulada As melhores histórias de sempre! e de periodicidade trimestral.

O subtítulo é arrojado e foi emprestado da série mensal homónima italiana, criada em 2008, exatamente com o mesmo número de páginas. Este mês foi publicado o 64.º número, com o preço de capa de € 6,00.

Portugal não é o único país, além de Itália, com uma revista com este título. No final de 2008, o Brasil lançou também a sua revista Disney BIG com histórias já publicadas anteriormente naquele país, mas com um subtítulo mais discreto (Para levar sempre com você) e apenas 300 páginas (o que originaria a que a série lançada no Brasil em 2011 com um número de páginas idênticas às da italiana e portuguesa Disney BIG, fosse denominada Disney Jumbo; em 2012, surgiu então a Mega Disney, com 804 páginas e subintitulada A maior revista em quadrinhos Disney do mundo).

Algo que distingue a Disney BIG brasileira, bem como a Disney Jumbo e a Mega Disney, da Disney BIG italiana é que nas revistas brasileiras são publicados autores de diversos países, apresentando deste modo a republicação de histórias norte-americanas, europeias e brasileiras. Se é verdade que a principal revista Disney italiana, Topolino (o nome do Mickey naquele país), bem como a série Disney Comix italiana, publicam histórias de diferentes países, a Disney BIG italiana apenas republica histórias italianas, razão pelo que o subtítulo assume ainda um maior nível de presunção.

A origem das histórias é uma razão que não se coloca atualmente em Portugal. Ao contrário do que sempre aconteceu nas revistas Disney portuguesas, nas 46 revistas de BD Disney publicadas pela Goody até ao momento, todas as histórias são italianas. Quando o anúncio da série Disney BIG surgiu, houve várias leitores que exprimiram a sua contentação, ao acreditar que finalmente seriam atendidas as solicitações dos leitores mais antigos. Aliás, era isso o aparentemente prometido no press release da editora:

A revista que coleta histórias clássicas amadas pelos fãs, que ilustram décadas douradas dos comics da Disney. Os melhores escritores, os melhores desenhadores. BIG faz jus ao seu nome, juntando 512 páginas históricas que farão as delícias dos mais antigos leitores, mas também daqueles que se procuram iniciar no mundo Disney através das histórias mais memoráveis.

Ou assim parecia, porque era necessário continuar a lê-lo com atenção:

Nesta primeira edição, podem contar com a escrita de Rodolfo Cimino (que participou em quase 300 números Disney desde 1962), Jerry Siegel (criador de Super-Homem, personagem que celebra 75 anos com um filme estreado no cinema), as ilustrações de Romano Scarpa, Francesco Guerrini e Massimo De Vita, entre muitos outros génios da escrita e do desenho.

Todos os mestres citados eram italianos (com a exceção óbvia de Jerry Siegel, que, no entanto, foi argumentista de mais de centena e meia de histórias italianas). Muito dificilmente os leitores obteriam as histórias brasileiras que retêm na sua memória nem histórias dos almejados Carl Barks, Don Rosa, Floyd Gottfredson, Paul Murry, Tony Strobl, Al Taliaferro, Vitor Arriagada Rios (Vicar), Pat e Carol McGreal, entre muitos outros. E isto também significava que muito provavelmente  os personagens Disney menos utilizados pelos autores italianos nas suas histórias continuariam também ausentes das revistas portuguesas. Mas continuemos a ler o press release:

Descubram ou redescubram épicos de aventuras, com histórias verdadeiramente BIG, com o Tio Patinhas a liderar a procura do tesouro em “Tio Patinhas e o Tesouro dos Amurei” e o Donald a mostrar a sua perícia com motorizadas em “Donald em Mota de Sarilhos”, entre muitas outras!

Seriam estas as duas histórias que os leitores retêm na memória? Se há potencial numa procura do tesouro na companhia do Tio Patinhas, já o Donald numa motorizada… De qualquer modo, as dúvidas ficariam desfeitas na leitura da divulgação do conteúdo da revista.

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Confirmava-se assim que todas as histórias seriam italianas, que afinal nem todos os autores seriam os expoentes da criação Disney e que não haveriam grandes sagas – a história maior seria a do Donald com a sua moto ao longo de 61 páginas.

No entanto, se queixas houvesse a fazer as mesmas deviam ser dirigidas à Disney Italia e não à Goody pois a Disney BIG n.º 1 portuguesa é quase a edição integral da n.º 22 italiana, tendo apenas sido substituídas a 2.ª e 3.ª história devido à Goddy já as ter publicado respetivamente nas revistas Hiper Disney Edição Especial: Grandes Exploradores e Hiper Disney n.º 2.

Mas que avaliação se faz da revista? São ou não as melhores histórias de sempre? Provavelmente, não. E a resposta será provavelmente idêntica se reformularmos a pergunta com a introdução da variável italianas. No entanto, se a pergunta for se este é ou não um dos melhores volumes publicados pela Goody, a resposta é  afirmativa.

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As primeiras 4 histórias foram agrupadas com o subtítulo “Terras distantes”:

Tio Patinhas e o tesouro dos Amurei (1975)
Texto: Rodolfo Cimino
Desenhos: Romano Scarpa
Arte-final: Sandro Del Conte

Tio Patinhas, o gelo azul e o canto das sereias (2004)
Texto: Rodolfo Cimino
Desenhos: Luciano Milano

Indiana Pateta e o desaparecimento das negritas (2000)
Texto: Bruno Sarda
Desenhos: Nicola Tosolini

Tio Patinhas e a maldição do feiticeiro (1977)
Texto: Jerry Siegel
Desenhos: Giuseppe Perego

São 4 propostas interessantes, das quais destaco os argumentos do mestre Cimino, bem como a arte do lendário Scarpa e de Milano e Tosolini. A aventura do Indiana Pateta dá-nos a rara oportunidade de ver o Mickey neste volume, que em nenhum momento o coloca como protagonista.

alegreO segundo tema, “Histórias motorizadas” é deveras menos apelativo:

Donald em mota de sarilhos (2000)
Texto: Carlo Gentina
Desenho: Francesco Guerrini

Donald e o motor… alegre (1970)
Texto: Rodolfo Cimino
Desenho: Giorgio Cavazzano

Tio Patinhas e os automóveis de corda (1974)
Texto: Gian Giacomo Dalmasso
Desenhos: Pier Lorenzo De Vita

A arte do incontornável Cavazzano captou por completo a nossa atenção. A nível de argumento, destaco o trabalho de Dalmasso. Guerrini é o responsável pela arte “menos limpa” do volume.

Segue-se o grupo “Um mordomo para todo o serviço”:

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Batista e o modelo demasiado fiel (1996)
Texto: Manuela Marinato
Desenhos: Giorgio Cavazzano

Tio Patinhas e as demissões do Batista (1997)
Texto: Rodolfo Cimino
Desenhos: Guido Scala

Tio Patinhas e Batista, o homem de negócios (1999)
Texto: Nino Russo
Desenhos: Maurizio Amendola

Todas as histórias são um regalo a nível da arte italiana dos anos 90, sendo interessante constatar a evolução do estilo de Cavazzano.

O penúltimo conjunto de histórias designa-se “Bruxas e feitiços”:

Maga & Vanda S.P.M. (Sociedade pela magia) (1993)
Texto: Bruno Concina
Desenhos: Paolo Ongaro

Maga Patalójika e o leque da beleza (1991)
Texto: Rodolfo Cimino
Desenhos: Comicup Studio

Pateta mágico: a bruxa Vanda volta a tentar (1997)
Texto: Nino Russo
Desenhos: Maria Luisa Uggetti

Tio Patinhas e o feitiço do solstício (1986)
Texto: Giorgio Bordini
Desenhos: Giorgio Bordini

Concino conseguiu que eu apreciasse pela primeira vez uma história da série em que a Bruxa Vanda tenta convencer o Pateta que é uma bruxa, sem resultados. Utilizou um subterfúgio bastante comum na banda desenhada de super-heróis de outras eras – os vilões trocam de opositores. Deste modo, enquanto a Vanda tenta roubar a moedinha número um do Patinhas, a Maga interage com o Pateta. E destaco novamente o argumento de Cimino. Quanto à arte, Ongaro merece as honras em conjunto com o estúdio de arte barcelonês Comicup.

Por fim, “Um desafio puxa outro”:

Tio Patinhas e a disputa dupla (1965)
Texto: Rodolfo Cimino
Desenhos: Giorgio Bordini

Donald, Gastão e o desafio desleal (1995)
Texto: Fabio Michelini
Desenhos: Alessandro Barbucci

Tio Patinhas e o duelo aéreo (1975)
Texto: Jerry Siegel
Desenhos: Massimo De Vita

Donald e a tripla competição (1964)
Texto: Giampaolo Barosso
Desenhos: Luciano Gatto

Finalmente, temos oportunidade de apreciar o trabalho do mestre Vita. As soluções encontradas pelo veterano Gatto nesta história de 1964 merecem também muita atenção.

Em suma, trata-se do volume Disney mais equilibrado a nível de qualidade de argumento e arte editado pela Goody até ao momento. O que nos faz inquirir porque razão a Disney Comix e a Hiper Disney padecem de uma não tão interessante seleção de histórias…

Quanto aos restantes grandes nomes italianos da BD Disney ausentes ou a sagas maiores, certamente será uma questão de tempo até surgirem na série.

No que toca à publicação de histórias com origem noutros países, isso obrigaria provavelmente a uma alteração do projeto e reformulação da política editorial da Goody. O tempo dirá…

Em nota da rodapé, elogia-se a informação adicional no índice mas realizam-se duas ressalvas: a) a informação do país de origem em cada uma das histórias é repetitiva, dado todas as histórias serem italianas; b) a informação sobre a existência de publicação anterior ou não em Portugal não será muito exata, dada a catalogação da BD Disney editada em Portugal estar extremamente incompleta.