A presença de revistas (e livros) de banda desenhada nas bancas nacionais tem-se alterado ao longos das décadas. Momentos de quase ubiquidade alternaram com outros de distribuição selecionada. Épocas em que importações e produtos nacionais estavam igualmente presentes sucederam ou foram sucedidas por outras em que ora o número de títulos importados em banca ora o número de publicação nacionais liderava o mercado. A oferta de temas também tem sofrido alterações, por vezes mais eclética, noutras vezes mais especializada. E o público-alvo da BD disponibilizada nas bancas também se tem modificado, com momentos onde impera a abrangência e outros a segmentação por faixas etárias e/ou sexo. A existência ou inexistência do formato de livro de BD nas bancas, em detrimento do formato revista, é ainda mais uma variável a acrescentar a esta questão.

E, atente-se, que estamos apenas a referir-nos a revistas (e livros) específicos de BD, sem ter em consideração aqueles que sem o ser, também a ostentam, de forma periódica ou aperiódica.

Com muitos ou poucos estudos de mercado, com mais ou menos atenção ao número de vendas, com grandes ou fracas apostas com base no contexto e na oportunidade, as editoras têm vindo a apostar de uma forma mais assertiva ou experimental nas bancas como ponto de venda dos seus livros e revistas de BD, sendo por vezes complementada pela disponibilização dos mesmos em livrarias de uma forma mais global ou mais selecionada.

Durante o mês de agosto deste ano, foram disponibilizados em banca 29 novas revistas e livros de BD preparados para o público português. A nível de importações brasileiras (e, neste artigo, apenas se consideram as provenientes desse país, dado as de outro países – como, por exemplo, França – terem uma distribuição extremamente mais limitada), o número foi de 49. Nestes dados, não foram consideradas as redistribuições (as revistas Disney Comix agrupadas em caixas arquivadoras e 3 revistas importadas da editora Mythos com material da Bonelli Comics). Consideraram-se contudo os livros que, apesar de disponibilizados nas bancas, também o foram por outros meios, tendo sido ou não as bancas a grande aposta da editora na sua distribuição (refiro-me, em concreto, a um manga da Devir e ao álbum editado pela Motorpress).

Das edições nacionais periódicas disponibilizadas nas bancas, não inseridas em iniciativas autolimitadas, as 9 são de banda desenhada infantil, licenciada pela Disney (via Goody ou Zero a Oito) ou pela Rainbow. Registe-se que, com a exceção do conteúdo norte-americano da revista Phineas e Ferb, todo o restante é italiano.

Os 17 títulos periódicos nacionais autolimitados resultam de projetos publicados com jornais (As Aventuras Mais Divertidas da Mônica, Marsupilami, Super-Heróis DC Comics) [13 publicações] ou em nome próprio (Comics Star Wars) [4 publicações].

As restantes revistas ou livros nacionais são iniciativas únicas (Aviões), publicações extremamente espaçadas no tempo lançadas no mês anterior mas distribuídas nas bancas em agosto (As Odisseias de um Motard) ou edições de principal distribuição em livraria com uma presença mais limitada em bancas (Naruto).

As revistas importadas do Brasil em agosto ascenderam a 49 títulos. Um dos responsáveis por este aumento foi um imprevisto, mais concretamente um problema que ocorreu com um desalfandegamento das revistas Mythos em julho, o que originou a duplicação dos números de revistas distribuídas por aquela editora. Deste modo, nas bancas portuguesas tiveram à venda 16 revistas diferentes (além de outras 3 em redistribuição). Mais importante, como referência futura, será o facto de 3 personagens – Julia Kendall, Mágico Vento e Zagor – regressarem às bancas portuguesas, após uma pausa de 14 meses, graças às boas vendas das revistas texianas congéneres.

Os restantes 33 títulos brasileiros são importações da Panini Brasil, sob licença da Maurício de Sousa Editora (22 revistas), DC Comics (6 revistas) e Marvel Comics (5 revistas). Parece-me importante sublinhar que, ao contrário do que sucedeu noutros momentos da história da banda desenhada importada, no que toca à Marvel e à DC, não são importados todos os títulos mensais e bimestrais que a Panini publica no Brasil, estando restringida a importação a 12 títulos (neste mês, com uma revista Marvel a não ser distribuída por se tratar de um título bimestral).

Apesar da presença de 78 revistas e livros de BD em quiosques no mês de agosto sugerir uma importante vitalidade da banda desenhada nos quiosques (número que ascenderia a 93 publicações, se se englobasse as redistribuições nesta análise), eis algumas considerações:
a) a maioria das publicações são importações de revistas periódicas brasileiras e está dependente, portanto, do sucesso comercial dos títulos naquele país;
b) o empenho das editoras brasileiras em exportar para Portugal as suas revistas, bem como as vendas das suas revistas no Brasil, não são condições sine qua non para as mesmas serem distribuídas em Portugal (as revistas não Tex da Bonelli Comics via Mythos regressaram aos quiosques portugueses em agosto, devido à VASP aceder em distribuí-las graças às vendas nacionais de Tex);
c) a maioria das publicações nacionais à venda em quiosques são projetos autolimitados distribuídos em conjunto com periódicos;
d) o número de revistas periódicas nacionais não autolimitadas à venda é de apenas 9;
e) dos títulos a que se refere a alínea anterior, apenas 2 (Carros e Winx) não são recentes, tendo todos os outros menos de 9 meses de existência.

Quanto ao público-alvo da BD presente nos quiosques, a maioria dirige-se ao público infantil. O público juvenil será o segundo a estar representado na oferta, enquanto que o público-alvo adulto será o menos contemplado.

A nível da origem da BD, a maioria é brasileira (26 publicações), italiana (24 publicações) e norte-americana (22 publicações). A presença belga deve-se à série Marsupilami (4 publicações).  O manga surge graças à Devir ter também remetido exemplares de Naruto 1 para os quiosques. A única origem portuguesa é uma vera excepção e deve-se à sexta compilação de As Odisseias de um Motard, BD que é originalmente publicada na revista mensal Motociclismo.

Se a Maurício de Sousa Editora tem o exclusivo da BD brasileira, a italiana tem origem nos Bonelli Comics (16 publicações), na Disney Itália (8 publicações), e na Rainbow (1 publicação). Quanto à BD norte-americana, reparte-se por DC Comics (11 publicações), Marvel (5 publicações), Dark Horse (4 publicações) e Disney (1 publicação).

Verifica-se também que, com exceção dos projetos autolimitados, as revistas periódicas são apenas editadas por duas editoras, Goody e Zero a Oito, tendo como público-alvo o infantil. Aliás, não tivesse a Goody iniciado em dezembro do ano passado o projeto de publicar revistas Disney com o universo do Mickey e dos Patos e existiram apenas a revista Carros, Winx e Phineas e Ferb nas bancas.

Quanto à banda desenhada de autores portugueses nas bancas, a mesma está presente diariamente. A razão de estar oculta neste artigo (com a exceção de As Odisseias de um Motard 6) prende-se com o facto de não ter sido abordada a BD impressa nas páginas de jornais e revistas. São estes os veículos exclusivos para os autores portugueses chegarem aos quiosques. Revistas de BD periódicas exclusivamente com autores portugueses ou onde aqueles são publicados em conjunto com autores de outros países que tenham como alvo os quiosques já não se produzem há algum tempo (salvo erro, uma das últimas iniciativas foi a HL Comix de Derradé há 7 anos, que não atingiu o terceiro número). Aliás, atualmente, a presença de autores portugueses nos quiosques em revistas de BD, resulta frequentemente em notícia, dado ser um caminho tortuoso e não planeado, como no caso do trabalho ser publicado originalmente pelas editoras norte-americanas mainstream, que, por acaso, foi republicado em revista brasileira, que, por acaso, foi importada para Portugal. Mas esse já seria outro tema…