Num formato generoso (31 x 23,5 cm) e com capa forrada a tela, a editora Abysmo presenteou-nos em novembro de 2011 com Sérgio Godinho e as 40 ilustrações. As quatro dezenas não são fruto do acaso. nesse ano, o cantautor português festejou os seus 40 anos de canções.

Se Godinho teve a tarefa hercúlea de decidir quais as canções que gostava de ver reapresentadas na obra, o editor João Paulo Cotrim selecionou que profissionais ilustrariam cada uma delas. Lado a lado, a obra propõe-nos a interpretação das canções de Godinho por diferentes gerações de designers e ilustradores, que utilizaram as mais diferentes técnicas, entre as quais o carvão e a colagem, bem como técnica mista, digital ou a utilização tecnológica de um iPhone.

Os 40 nomes dos ilustradores que a capa do livro nos vai permitindo antever não deixam dúvidas quanto às diferentes formações base e percursos profissionais dos convidados. Há nomes facilmente reconhecíveis pela comunidade bedéfila, bem como outros daqueles que acompanham a edição infantojuvenil ou o desenho editorial.

Eis a lista completa dos autores, por ordem alfabética: Alberto Faria, Alex Gozblau, André Carrilho, Ana Maria Biscaia, Afonso Cruz, André da Loba, André Letria, Bernardo Carvalho, Cristina Sampaio, Cristina Valadas, Daniel Lima, Esgar Acelerado, Filipe Abranches, Gémeo Luís, Gonçalo Pena, Henrique Cayatte, João Fazenda, João Lucas, João Maio Pinto, Jorge Colombo, Jorge Mateus, José Brandão, José Manuel Saraiva, Luís Lázaro, Luís Manuel Gaspar, Madalena Matoso, Manuel Cruz, Miguel Rocha, Nuno Saraiva, Pedro Brito, Pedro Nora, Pedro Proença, Pedro Zamith, Ricardo Cabral, Sara Maia, Susa Monteiro, Teresa Lima, Tiago Albuquerque, Tiago Manuel, Yara Kono.

Quanto ao camaleão Tiago Manuel é um repetente, dado já ter ilustrado um livro de poesia de Godinho, Por um Fio. Mas essa será uma conversa para outras núpcias.

Mais do que uma interpretação, está patente nas 40 ilustrações uma criação de novas narrativas, ainda mais livres do que Filipe Abranches (também ele presente nesta obra) experimentou no universo de Poe, como escrevi aqui. E existem diversas opções para apreciar a obra, ora ignorando as letras das canções ora fazendo o exercício de edificar a ponte entre a arte plástica e a poesia. Ou, não disponibilizada no livro, mas não tarefa impossível, apreciar a arte enquanto se ouve a música a que se refere. Impressionante também foi o cuidado extra de Cotrim em garantir uma unidade à obra em detrimento de um manta de retalhos.

Podem ver um pequeno vídeo criado pelo Canal 180, aquando da exposição das ilustrações na Escola Superior de Arte e Design de Matosinhos, com declarações do cantor, editor e um dos ilustradores:

E um olhar mais demorado no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra:

Apesar da boa qualidade do papel que compõe a obra, gostaria que fosse ainda um pouco menos transparente, para não me deixar adivinhar o que se segue no verso aquando da visualização da frente correspondente e vice-versa.

Independentemente desse pormenor, a obra recomenda-se, sem reservas.