No dia 31 de agosto, Geraldes Lino escreveu no seu blog Divulgando Banda Desenhada um curto texto, onde (re)apresentava uma BD portuguesa, publicada originalmente no 10.º número da extinta revista de banda desenhada Visão. Tendo eu acabado de fazer um diagnóstico da BD disponibilizada em agosto nas bancas portuguesas em revistas e livros da especialidade e tendo concluído a minha análise ao sublinhar a (quase) ausência de autores nacionais naqueles, comentei o post de Geraldes Lino com o texto que parcialmente transcrevo:

(…) ao ler este teu post, lembrei-me do que recentemente escrevi no meu espaço BD sobre a ausência dos autores portugueses nas bancas em revistas especializadas em BD. Os fanzines/prozines, cada vez mais digitais, são a alternativa mais viável, na tua opinião?(…)

Os comentários em espaços alheios têm um problema que o autor Santos Costa bem descreveu num comentário que realizou num outro post do blog supracitado:

Muitas vezes – e isso acontece-me, mormente nestas pequenas caixas de comentários – escrevemos ao correr do pensamento, esquecendo-nos que os dedos não têm olhos e não revêem sem o comando do cérebro.

Ora, naquele meu singelo comentário, eu realizava uma referência às revistas disponibilizadas em bancas e fazia interrogações sobre o futuro dos fanzines em formato papel. Não contente em não ter explicado a associação mental que realizei entre estes dois tópicos, utilizei ainda o termo viável sem ter qualquer intenção de pretender com o mesmo abordar a viabilidade financeira a jusante da publicação, mas sim a montante da mesma. E convenhamos, apesar da minha inquietude com o tema no momento, não seria naquele reduzido espaço da caixa de comentários que se traçaria uma fundamentação devidamente alicerçada quanto ao eventual futuro dos fanzines em Portugal ou uma reflexão sobre o sucesso de uma improvável revista distribuída em banca com autores portugueses em exclusividade ou não.

Mas para bom entendedor, meia-palavra basta e o Geraldes Lino teve a amabilidade de responder na caixa de comentários:

(…) É um tema que daria para longo texto. Sucintamente, a minha opinião é a seguinte: já acabou a época das revistas de BD em papel, que se publicavam durante anos. Tens exemplos relativamente recentes em Portugal que confirmam o que estou a afirmar – “Jornal da BD”, “Selecções BD”, ou uma mais antiga e bem famosa, a “Tintin” na edição portuguesa. Mas o fenómeno não é exclusivamente português: a “Tintin” belga também acabou (a “Spirou” resiste, uma excepção à regra); em França fecharam a notável “A Suivre” e outras; em Espanha desapareceu a “Cimoc” e outras; em Itália acabou a “Corto”, e outras. Porquê? Bem, a culpa inicial foi das próprias editoras, que flagrantemente começaram a apostar mais nos álbuns. A seguir veio a internet dar espaço gratuito aos autores para publicarem as suas bandas desenhadas (as “webcomics”), e os bedéfilos passaram a tê-las também grátis. Assim, em estilo de “a vol d’oiseau”, aqui tens a minha opinião sobre o assunto. (…)

Faltou-me responder à última parte: já são escassos os fanzines em papel (prozines em papel – ou seja, editados por profissionais da BD – só conheço quatro). Em contrapartida, cada vez mais aparecem os “webzines” (ou “e-zines”). Não me parece curial que prevaleçam as edições em papel. Hoje em dia elas estão a ser substituídas pelas publicações virtuais, em que a BD surge com óptima apresentação. Nada a opor. Então e como é que os autores ganham a vida? Ora aí está mais um problema candente a pedir opiniões. (…)

Sem dúvida que, tal como pacientemente Geraldes Lino nos diz no início da sua gentil resposta, discutirmos o fim das revistas de BD em papel, um tema que me é caro, é para ser feito no espaço e com tempo adequado.

Mas algo nas suas declarações me fazia espécie no que toca ao desaparecimento das revistas franco-belgas e italiana citadas. Em agosto, aquando da minha peregrinação por cerca de uma vintena de estabelecimentos de venda de revistas de BD, em 4 cidades portuguesas diferentes, tinha observado cerca de meia-dúzia de revistas de BD franco-belgas à venda (quanto a italianas, somente vislumbrei vários números do Topolino).

Surgiu-me então a ideia de construir um pequeno texto neste espaço onde informasse quais as revistas de BD franco-belgas distribuídos em quiosques selecionados do nosso país.

Confesso que, apesar de ter colecionado várias títulos destas revistas, há alguns anos que não só não as compro como não tenho acompanhado particularmente quais têm findado ou não a sua existência, exceto em ocasiões em que, por puro acaso, descobri tal alusão.

Por outro lado, várias das revistas que vi à venda em agosto tinham números realmente ou relativamente baixos, pelo que me questionei se a inexistência dos grandes títulos de outrora não teria criado espaço para novas publicações… Afinal, em agosto e setembro foram editadas ou está prevista a edição de 3 novas revistas – La Revue Dessinée (LRD SAS), Papier (Delcourt) e  Lol! (Glénat/Panini Kids). Sublinhe-se que todo este exercício tinha simplesmente como propósito verificar se ainda existia ou não um número razoável de revistas de BD em papel naqueles dois países que era importada para Portugal, não pretendendo me concentrar numa análise da sua tiragem atual e de outros tempos nem numa meta-análise de artigos académicos sobre a temática.

Não quis fazer distinções entre os diferentes tipos de revistas especializadas em BD, ou seja, entre aquelas somente com BD, as revistas sobre BD e as revistas que contêm um pouco das outras duas e sem limites bem-definidos com aquelas. Mentalmente, comecei a listar as que recordava ter visto à venda:
– dBD
– Lanfeust Mag;
– Casemate;
– L’Immanquable;
– Fluide glacial;
– L’Écho des savanes;
– Psikopat;
– M-BD.

De seguida, pesquisei se tinham sobrevivido outras que tinha comprado num passado relativamente recente:

– Suprême dimension (extinta em 2007);
– BoDoï (deixou de ser publicada em papel em 2008, transformando-se numa revista online);
Zoo (na verdade, a esta revista em papel nunca tive acesso – continua a ser publicada e cedida gratuitamente – mas consultava a sua versão online, que se mantém).

Com o presente texto já adiantado, estava na altura de fazer referência às principais revistas franco-belgas desaparecidas, de modo a contextualizar o mesmo.

Durante este processo, contudo, encontrei um texto de Luiz Beira e Carlos Rico (com quem partilho a autoria de uma entrevista, em conjunto com o José Carlos Francisco, ao italiano Fabio Civitelli, datada de 2007) no seu BDBD – Blogue De Banda Desenhada (curiosamente, utilizei no passado a sigla bdbd num projeto distinto que acabou por não se concretizar), datado de dezembro de 2012 e com um propósito muito similar ao do presente. Quase todas os títulos que eu tinha encontrado à venda nos quiosques em agosto, já o estavam em dezembro. E também eles não tinha encontrado o hebdomadário Spirou em terras lusas. É um texto cuja leitura recomendo em complemento deste, pois cita muitas outras revistas portuguesas e franco-belgas de renome entretanto desaparecidas.

Tendo encontrado o post de Beira e Rico, quase abandonei a ideia de publicar aquele que se encontram a ler. Mas decidi dar-lhe uma outra perspectiva, de modo aos leitores poderem presenciar até certo ponto os bastidores das ideias para textos que aqui se apresentam e as demandas efectuadas para efetivá-los.

Por outro lado, é sempre divertido afirmar que a culpa deste post é do Geraldes Lino, ou não tivesse ele sido o mote que o originou. Este será o primeiro texto dedicado a esse subtópico, mas garanto que este mês mais haverá, pelo que poderá pesquisar outros textos em que a culpa é do Geraldes Lino nesta etiqueta.

De modo a concluir este texto, não me parece ser arriscado afirmar que se encontram mensalmente à venda em determinadas bancas portuguesas, pelo menos, oito títulos franco-belgas com e/ou sobre BD. Apresentam-se as capas mais recentes de cada título:

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nota: apresentamos as antecipadas desculpas em não ter solicitado autorização a Santos Costa para citar o seu comentário, na esperança que não condene tal ousadia da nossa parte.