A Âncora Editora tem vindo paulatinamente a editar várias obras da nona arte de autores portugueses sobre localidades, personalidades e/ou acontecimentos nacionais. Com data de julho de 2013 na ficha técnica, surgiu mais um álbum do prolífero José Ruy, desta feita dedicado a João de Deus:

Na contracapa consta um texto da autoria de António de Deus Ramos Ponces de Caravalho sobre o seu bisavô, João de Deus:

João de Deus foi um dos maiores vultos da cultura portuguesa do século XIX. O país deve-lhes, nas suas múltiplas facetas de poeta, pedagogo e humanista, as primeiras missões de alfabetização. O antigo Presidente da República Jorge Sampaio afirmou em discurso proferido no Museu João de Deus, em Lisboa, ter sido «o ilustre poeta João de Deus, autor da Cartilha Maternal, quem deu origem a um método de aprendizagem de grande difusão e mérito. A obra, associada à coerência política, tornaram-no a referência pedagógica do século XIX». Antero de Quental, por seu turno, escrevera, referindo-se ao poeta-pedagogo, ser este «o poeta mais original do seu tempo que fez da sua vida o seu melhor poema». Em 2013, a obra de João de Deus é detentora de 55 centros educativos, entre eles um museu, uma casa-museu e uma escola Superior de Educação, e multiplica-se em projetos de apoio aos mais desfavorecidos, dando seguimento ao perfil humanista do seu fundador.

A biografia em banda desenhada pode ser um dos géneros mais difíceis de realizar enquanto obra da nona arte, em especial se, como é o caso, se dispõe de um número reduzido de páginas para falar de uma vida, e se a iniciativa provém de terceiros e se pretende ir ao encontro das suas expectativas. Mas estamos a falar de um autor com 79 álbuns no currículo, 48 dos quais em banda desenhada, tendo ainda editado e dirigido a 2.ª série de O Mosquito, bem como colaborado em diversas publicações de BD, com direito a múltiplas homenagens e 25 prémios atribuídos. Deste modo, não será de estranhar que o autor ultrapasse com mestria muitas das armadilhas que uma obra deste género contém.

Com recurso a uma narrativa nem sempre linear, recorre a analepses com coerente representação gráfica, a qual se altera ainda para uma terceira versão aquando de episódios não vividos pelo protagonista mas contados pelo mesmo, como a Guerra de Troia. Curiosamente, a obra não se limita à vida de João de Deus, continuando a narrativa após a sua morte, concentrando-se, após o inevitável, nos seus descendentes e na obra que deixou e permanece viva.

A história de José Ruy (responsável pelo argumento, guião, desenho, legendação e cores digitais) cativa o leitor, sem o constante empilhar de datas e factos. Excetuam-se talvez as últimas vinhetas da página e meia final, dada a imperiosidade de finalizar a obra e não ser pretendido criar toda uma outra linha narrativa cativante acerca da neta Maria da Luz Ponces de Carvalho, tão próximo do final.

Na última folha do miolo do álbum, José Ruy apresenta a bibliografia consultada, que atinge mais de um quarteirão de obras, não deixando dúvidas quanto à seriedade da pesquisa realizada no que toca à vida e obra de João de Deus e a documentação gráfica da mesma e sua época. Registe-se como curiosidade que o autor assinou a obra no momento de conclusão, o que aconteceu apenas um mês antes da data constante da ficha técnica e 2 meses antes de se verificar a sua distribuição nas livrarias.

Eis algumas páginas de antevisão da obra, onde se pode apreciar a arte de José Ruy:

Saliente-se que o rigor na investigação e a qualidade desta série da Âncora Editora, do qual João de Deus – A Magia das Letras é o 26.º volume, têm tido sucesso suficiente para existirem quatro títulos com direito a 2.ª edição (da autoria de José Ruy ou José Pires), bem como um título que se encontra na 3.ª edição e outro que atingiu a 7.ª edição, ambos da autoria de José Ruy. Esperemos que a Âncora nos brinde em breve com mais obras.

nota: as imagens foram gentilmente cedidas pela editora em exclusivo, as quais se agradecem e ilustram o texto.