Não é frequente os autores brasileiros de banda desenhada (ou, melhor, de HQ – Histórias em Quadrinhos) serem publicados em Portugal. Algumas razões hipotéticas para que tal aconteça são a partilha da língua e o desconhecimento / interesse / acessibilidade dos leitores portugueses quanto à BD produzida além-mar.

Atrevo-me a dizer que poucos deverão ser os bedéfilos portugueses que nunca terão lido BD brasileira, consciente ou inconscientemente. Bastará citar a Maurício de Sousa Editora e as antigas revistas de BD Disney com histórias brasileiras (seja da era da importação das revistas da brasileira Abril, seja da edição portuguesa desde a Editora Morumbi à Edimpresa) para todos concordarem comigo.

Aliás, a importação quer de umas quer de outras, facilitada pela língua comum, evita (ou evitava, nas revistas Disney da Abril) os riscos inerentes a edições portuguesas das obras.

Atualmente, a maioria dos portugueses terá acesso, em bancas selecionadas, às revistas importadas da Maurício de Sousa Editora. E o que chega às livrarias? Finda a importação de títulos de autores brasileiros pela Devir, editados pela sua congénere brasileira, a maioria das livrarias não tem obras de autores brasileiros de BD nas suas prateleiras. Não que seja impossível encontrá-los nas mesmas, uma vez que há um reduzido número de livrarias que importa algumas obras. Mas estas iniciativas são isoladas, com poucos títulos disponíveis, cada um frequentemente representado por apenas 1 ou 2 unidades.

No entanto, a internet tem mudado o paradigma. É verdade que com o desaparecimento do portal BDesenhada.com, não existe em Portugal um portal que diariamente coloque notícias selecionadas sobre os lançamentos de BD à volta do mundo, mas com tempo e a consulta de vários sites de referência internacionais, uns mais dedicados à BD comercial, outros à dita BD alternativa por oposição àquela, conseguem-se obter informações sobre os lançamentos que ocorrem globalmente.

Não conhecendo eu o perfil do internauta português bedéfilo, assumo que tenho o preconceito que a maioria que consulta sites brasileiros sobre BD, o fará para obter informações sobre BD originalmente publicada pelas principais editoras norte-americanas e afins, e não para conhecer as novidades referentes à BD brasileira, ver antevisões destas obras ou ler integralmente as mesmas quando disponibilizadas gratuitamente pelos autores e/ou editora. Haverá ainda um grupo específico que procurará as revistas brasileiras da sua infância e juventude, bem como outras, em sites brasileiros que disponibilizam digitalizações ilegais das mesmas. Mas, sublinho novamente, que são meras suposições minhas.

Se é verdade que nos últimos 20 anos, os portugueses passaram a ter uma noção mais real – e menos fantasiosa ou deslocada no tempo – do que é o Brasil atual, não só devido à internet, mas também aos canais televisivos brasileiros distribuídos por cabo com programas de informação, ao (reduzido) número de filmes distribuídos internacionalmente e ao turismo massivo àquele país, há ainda uma dualidade entre a idealização que temos do Brasil e o que é o Brasil. Provavelmente, os brasileiros estranharão as seleções de música em formato CD disponíveis nas nossas lojas, não se revendo nos mesmos, bem como considerarão demasiado redutor o número e género de autores nas prateleiras das livrarias. É algo inevitável, que o mundo digital permite contrariar.

Concentrando-me no Morro da Favela de André Diniz, a 23.ª publicação da chancela Polvo da Rui Brito Edições, o cenário é o Rio de Janeiro, cidade eleita por muitos turistas portugueses. Mas quantos conhecerão a realidade retratada no livro? A resposta mais provável não seria “poucos” mas sim “nenhum”. Como escreve André Diniz, o autor carioca, na introdução, só aos 33 anos entrou pela primeira vez numa favela. E isso aconteceu porque conheceu o fotógrafo Maurício Hora, habitante do Morro da Providência (ou Morro da Favela). Ou seja, se a pergunta fosse colocada aos cariocas que não habitam em favelas, a resposta seria semelhante.

Vivi uma situação semelhante a propósito da sensação de insegurança dos habitantes. Numa estadia em São Paulo, perante um roteiro turístico na zona histórica da cidade que uma amiga preparou, alguns amigos dela, nados e criados na cidade, juntaram-se à excursão por nunca terem visitado algumas das áreas do percurso devido a terem receio de serem assaltados ou algo pior.

Numa saída noturna no Rio de Janeiro, o grupos de amigos distraiu-se com as horas, vendo-nos numa situação caricata – não dispúnhamos de carro e na discoteca onde nos encontrávamos garantiram-nos que nenhum táxi ali viria àquela hora. E não veio. Fomos com um segurança da discoteca, após a mesma encerrar, até à paragem de autocarros que circulavam de madrugada, de hora a hora ou com menor periodicidade. O nosso guarda-costas improvisado desempenhou apenas parcialmente as suas funções pois o seu ônibus chegou antes do nosso. Já no primeiro dos autocarros em que teríamos de viajar nessa noite, notámos uns buracos em duas janelas. Interrogada a cobradora, explicou-nos que o percurso daquela linha passava perto de uma favela e que, dois dias antes, tinha havido uma troca de tiros e, provavelmente sem intenção, tinham acertado no autocarro.

No Rio, já andei centenas de vezes em transportes públicos, como o ônibus e o trem, para além do metro. Mas muitos amigos cariocas dizem-me com algum orgulho evocador de status que nunca o fizeram, seja em todos os tipos de transporte público, seja só nalguns. Alguns fazem mesmo um olhar de descrédito, interrogando se estou a brincar e citam frequentemente a insegurança, a qual tem também melhorado ou piorado consoante as décadas (já houve locais no Rio que não visitei em certo ano por os amigos não os considerarem seguros e noutros sim por já acreditarem que não se correria riscos naquela altura).

Peculiar foi também uma situação em Fortaleza. Fui passeando pela orla marítima da cidade, que a certa altura eu sabia que seria interrompida para ser recomeçada poucos quilómetros depois. Aventurei-me então pelo passeio da estrada que ligava as duas praias, mas notei uma variação brusca no ambiente, que me pareceu menos seguro, e resolvi parar no primeiro ponto de ônibus. Muitos carros apitavam quando passavam por mim, o que me estava a intrigar. Um condutor teve a bondade de reduzir a velocidade e gritar para eu sair dali, que os habitantes do morro – apontando para a favela nas minhas costas, que me parecia um pouco distante, lá no cimo – viriam a correr pelo monte abaixo e me capturar. Garanto-vos que apesar das buzinadelas e aviso oral do condutor supramencionado nenhum carro parou para me oferecer boleia para longe daquele local (o que, retrospetivamente, foi bom, porque provavelmente teria aceite a boleia de um estranho, dada a sensação de insegurança que a situação me estava a causar). No entanto, após os primeiros passos para regressar à praia de onde tinha vindo, surgiu o autocarro e tudo se resolveu.

Todos estes exemplos, evocam a minha relação com a sensação de insegurança no Brasil e com a qual aprendi a conviver – espero que bem – ao longo dos meus 20 anos de visitas àquele país. E, para além destes episódios, raramente se manifestou em mim ou em quem me acompanhava, autóctone ou não.

Maurício Hora não é imune a esta sensação. Como descreve o fotógrafo favelado, apesar de não ter receio de ser assaltado dentro da favela onde mora – afirmando que o pessoal do tráfico mata quem rouba os próprios habitantes – tem medo de ser assaltado fora da sua favela – ou não andasse munido de uma máquina fotográfica. Por outro lado, ele sabe o que pode, o que não pode e aquilo que necessita de solicitar autorização para fotografar na sua favela.

O autor, através da biografia de Maurício Hora tem a rara oportunidade de retratar a favela pelos olhos de um dos seus moradores. Recorrendo a uma narrativa linear e a um contraste limitado ao preto e branco, a arte de André Diniz surpreendentemente mantém a acessibilidade a vários tipos de leitores, não afastando os que não se interessam por personagens demasiado estilizados. A obra, no Brasil publicada pela Barba Negra, teve direito a dois prémios HQMix 2012 – Melhor Edição Especial Nacional e Melhor Roteirista Nacional.

Eis um vídeo de apresentação da obra, com a arte de André Diniz e a animação de Wesley Rodrigues, com banda sonora de Pedro Milman:

Como complemento, apresentam-se no final 9 fotografias a cores de Maurício Hora, contrapostas por 5 fotos antigas da favela captadas a preto e branco por Augusto Malta. Apesar da interessante iniciativa, deixa uma sensação de  insatisfação com o número de fotografias apresentado, merecendo um maior desenvolvimento em eventual registo próprio.

A edição portuguesa. publicada em fevereiro de 2013, teve direito a cinco novidades relativas à edição original, como uma capa distinta, um prefácio onde o autor relata um curioso episódio com Paulo Monteiro (por coincidência, existe também uma referência a Nova Olinda nos excertos do diário de trabalho de Paulo Monteiro na obra O Amor Infinito que te tenho e outras histórias) e sete ilustrações de autores brasileiros com base na obra, nomeadamente José Aguiar, Will, Marcelo Costa, Pablo Mayer, Magno Costa, Ricardo Manhaes e Laudo Ferreira. A versão editada em Portugal tem também alguns desenhos novos (na própria BD) e o texto foi revisto e acrescentado. Este facto torna a edição portuguesa extremamente apetecível para colecionadores, independentemente da sua nacionalidade.

Por fim, regresso à primeira folha do livro, onde é explicada a origem da designação favela. Nesse texto, evocam-se acontecimentos da História do Brasil desconhecidos para a maioria dos portugueses, como a Guerra de Canudos. Para os que apreciam obras de ficção baseadas em eventos históricos, existe uma grande obra literária que merece ser lida e relida, A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa.