O plano editorial da chancela Booksmile para setembro tinha como mote o regresso às aulas e a reaquisição de hábitos de leitura pelas crianças e jovens, pelo que do mesmo constavam 3 livros infantojuvenis. Já aqui abordei o primeiro tomo de Timmy Fiasco do autor de BD Stephen Pastis. Os restantes dois livros chegaram somente no início de outubro às livrarias.

Um deles foi o terceiro volume de Tom Gates, intitulado A Vida é Tão Fixe (ou nem por isso) de L. Pichon, ou seja Liz Pichon, autora britânica de livros infantis e juvenis de quem, além da presente série, se encontra publicado entre nós Os Três Terríveis Porquinhos.

Quando li o primeiro volume da série O Mundo Fantástico de Tom Gates, em 2012, foi a propósito de uma pesquisa relacionada com os livros publicados no nosso país sob a forma de diários. Apesar de na capa nacional estar expresso numa seta gigante “Lê o meu Diário e parte o coco a RIR” (no original, não há referência ao termo “diário” – READ it and go HA! HA! HA!”), a verdade é que o livro não estava estruturado como tal, com a ausência das entradas das datas. Aparentemente, não existia também uma divisão por capítulos, embora existam separações formais identificadas pelo leitor atento. No entanto, tinha realmente pontos comuns com os restantes livros de ficção publicados como diários juvenis, como estar narrado na primeira pessoa por um aluno e se pretender que se encarasse este como o autor dos desenhos que ilustravam o livro.

Se nas ilustrações, tal como noutros livros do género, imperava a utilização de um traço aparentemente simples, para dar crédito à ilusão pretendida – mas que numa análise minimamente atenta é percetível a formação em design gráfico da autora, onde por vezes se denota algumas influências dos anos 60 britânicos -, o que mais distinguia esta obra das demais era um arranjo gráfico que jamais se mantinha uniforme em cada página, nem em cada parágrafo, nem em cada linha, onde por vezes a ilustração, outras vezes o texto e ainda noutras vezes uma ou outra palavra eram preponderantes em relação aos restantes signos.

Tudo aquilo a que me referi nos parágrafos anteriores se tem mantido nos volumes seguintes, os quais têm vindo a aumentar de número de páginas de volume para volume, No entanto, as 408 páginas do terceiro volume, dificilmente afastarão os leitores mais resistentes à leitura em prosa, dada a profusão de imagens que o mesmo inclui.

Se no primeiro número, a editora nacional já nos dava conta na própria capa que o livro tinha sido vencedor do Roald Dahl Funny Prize – informando ser o mais importante prémio britânico de humor infantil, para os que não tivessem familiarizados com o mesmo – o  terceiro tomo já começa a ter dificuldade em suportar no grafismo tantos avisos, devido aos restantes prémios que a série tem vindo a acumular – Blue Peter Award para melhor história, Waterstones Children’s Book Prize 2012 para melhor livro de ficção para crianças dos 5 a 12 anos e Red House Cildren’s Book Award 2012 para melhor livro destinado a jovens leitores.

A fórmula narrativa de Tom Gates não será muito diferente de outros livros do género. Tom não é muito bom aluno – tem inclusivamente a fama de dar ótimas desculpas para não fazer os trabalhos de casa – e, apesar de seguirmos as suas aventuras e desventuras com humor, tal é realizado sem recurso a elementos fantásticos, de modo a tornar verosímil a história.

O ponto forte da série está precisamente no layout que, ao invés de anárquico, promove a harmonia e uma fluidez de leitura que permitirá finalizar celeremente um livro com mais de 400 páginas, transformando-o per se numa vitória a cada jovem leitor. Se é frequente as editoras insistirem em realizar antevisões online das primeiras páginas, o que nem sempre se revela o ideal, devido ao início das narrativas nem sempre estarem tão maduras quanto a restante obra, convido-os, de modo a ilustrar o que tenho vindo a descrever, a visualizar as primeiras 26 páginas do livro aqui, tendo particular atenção ao design.

Neste volume, a narrativa dedica-se ao aniversário de Tom, uma festa na escola, um concurso canino  e as habituais más relações de Tom com a irmã Delia, os embaraços promovidos pelos pais e as bizzarias dos avós. A banda musical de Tom e os amigos, os Zombies Caninos, não chega a realizar nenhum concerto, para alívio de Tom, que, no que toca à música que a banda produz, parece ter desenvolvido uma boa autocrítica.

Esta é outra das vantagens da série. Ao viverem as aventuras verosímeis de Tom, os leitores certamente não serão só influenciados pelas partidas que prega à irmã e ao colega que não suporta, o Marcus Meldrew, mas também ao gosto pela música e pela ilustração. E, se Tom não tem o grau de excelência no campo musical, os seus cadernos estão repletos de ilustrações, sendo evidente o seu gosto por esta arte.

Reside aqui o trunfo da série ao promover a prática do rabisco, do esboço, do desenho ocasional, bem como do planeado. Neste volume, a autora reforça a promoção com novas propostas, incluindo composições mistas de desenho e objetos reais – mais concretamente fruta – para estimular a criatividade e superar o comum sentimento de aborrecimento nestas idades aquando das ilustrações de natureza morta. No blog do Tom Gates, disponível aqui em inglês, encontrarão outros exemplos, desta feita com bananas em vez de citrinos. A representação tridimensional está também presente nos bonecos de neve sugeridos no blog ou – apesar do grafismo bidimensional – na arte de ilustrar torradas explicada no livro.

A série Tom Gates permite, deste modo, uma introdução informal ao gosto e à prática da ilustração. Ou, se esse nível de leitura não for apreendido, a estórias que as crianças acharão divertidas.

nota: as imagens foram gentilmente cedidas pela editora, as quais se agradecem e ilustram o texto.

SOBRE O AUTOR |

Nuno Pereira de SousaAdministrador
Fundador e administrador do site, com formação em banda desenhada. Consultor editorial freelance e autor de livros e artigos em diferentes publicações.