rugas

Não tendo oportunidade de conhecer os meus avós paternos em vida, usufruí apenas de um avô e uma avó na minha infância e adolescência. Entre 1977 e 1988, visitei aperiodicamente o lar onde a minha avó vivia, pelo que a minha relação com estas instituições já remonta há várias décadas. No último Natal que a minha avó passou em casa dos meus pais, quis registar numa cassete audio a sua voz com aquela encantadora pronúncia algarvia, pedindo-lhe que contasse uma longa anedota – ou uma pequena estória divertida, como preferirem – que eu costumava ouvir na minha infância. Ela faleceu 3 meses depois e eu ainda guardo a cassete com todo o cuidado.

Mas divago. Voltemos aos lares de idosos. Profissionalmente, desenvolvi com outros colegas um programa de promoção de saúde mental em seniores que tem como objetivos a diminuição dos níveis de depressão geriátrica e do défice cognitivo, intitulado Mais Viver, o qual tem sido principalmente aplicado em centros de dia e lares de idosos.

Todas estes motivos seriam razões mais do que suficientes para estar curioso em ler o romance gráfico de Paco Roca denominada Rugas, multipremiada nas vizinhas Espanha e França, agora editada pela Bertrand – curiosamente, desta feita sem a chancela da Contraponto.

Os lares de idosos que presentemente visito são muito diferentes organizacional e estruturalmente daquele que conheci na minha meninice. Estranhei inicialmente o quão Roca conhecia os atuais lares de idosos. No final do livro, é-nos explicado que visitou e passou algum tempo a desenhar e entrevistar os residentes. Escreve e desenha, portanto, com conhecimento de causa e posso-vos garantir que muito pouco de ficção terá o lar retratado na obra.

Reconheci muitas situações que presenciei recentemente, como a frequente preferência pela palavra sénior em detrimento de idoso, as “aulas de ginástica” e as salas de televisão e afins.

Mas não foi nenhum destes o vero motivo que catalisou a leitura do livro. O protagonista da história tem Alzheimer. Esta doença degenerativa, a causa mais comum de demência, é incurável e os tratamentos realizados têm por fim retardar o défice cognitivo. Após os sintomas iniciais manifestados por esquecimentos, perda da noção do tempo e desorientação espacial, Emílio, o protagonista, começa a se esquecer de eventos recentes e de nomes, tem uma dificuldade progressiva na comunicação, necessita de auxílio a se vestir e evidencia alterações de comportamento. No estadio tardio, esta doença manifesta-se por uma dependência total e inatividade. Nessa fase, o autor optou por representar graficamente as páginas pelo branco, pela ausência.

Tal como Roca relata no final do livro, acredito que muitos de nós têm contacto com familiares e/ou amigos com diferentes estadios de demência. A maioria de nós não sabe lidar com esta situação, pois vamos vendo desaparecer aquilo que identificamos como sendo o outro, reconhecendo-lhe por vezes apenas o exterior. No final do livro, a minha mente divagou em duas direções. Num cantinho muito escondido da mente, quase se manifestou o receio de esse ser um possível fim…

Mas rapidamente me veio à memória o meu pai e o seu síndrome parkinsónico, que também já lhe começava a pregar bastantes partidas. Na última festa de anos que contei com a sua presença, perguntou-me “Não está aqui, no meio da sala, nenhum cão, pois não?”. Tranquilizei-o e respondi-lhe que não. Retrucou-me “O grande problema é que o vejo tão bem quanto a todas as outras pessoas que aqui estão.”

Pouco tempo depois, foi diagnosticada ao meu pai uma pneumonia. Era principalmente quando estava doente que a mente o traía. Internado, os seus últimos dias devem ter sido uma montanha russa de emoções, entre períodos serenos e bastante agitação onde escrevinhava num pequeno caderno, com uma letra quase irreconhecível, feita por alguém com uma caligrafia outrora irrepreensível, e onde relatava de forma desconexa uma conspiração entre médicos e enfermeiros para lhe fazerem mal, e onde expressava o seu medo de morrer. Esta agitação tornou as suas inquietações uma realidade. Já numa fase de franca recuperação da pneumonia, ficou agitado uma certa noite e foi sedado. Não aguentou. Não acordou.

Apaguei a luz da mesa de cabeceira com uma lágrima no olho.

nota: republicação revista do artigo publicado no 100mural, em 22 de março de 2013; a adaptação cinematográfica do livro, realizada por Ignacio Ferreras (2011), estreou nas salas portuguesas a 23 de maio de 2013.