Ainda não tinha escrito neste espaço sobre uma tragicomédia familiar intitulada Fun Home. Esta obra de Alison Bechdel foi a segunda grande novela gráfica publicada pela Contraponto, chancela da Bertrand, após Persépolis. Se Persépolis contava com o filme homónimo e uma publicação parcial no nosso país, Fun Home não gozava por cá do mesmo estatuto ou popularidade, apesar dos prémios obtidos além-fronteiras.

Por outro lado, um dos temas abordados na obra, tanto poderá atrair alguns leitores, como afastar outros tantos. Mas, não será assim com qualquer tema? Neste registo autobiográfico, a autora propõe-se a descobrir quem realmente foi o seu pai – um livro dedicado à mãe, inédito em Portugal, foi publicado o ano passado nos EUA – e que implicações isso tem na sua autodescoberta.

A simplicidade aparente da narrativa permite uma imersão imediata numa rede complexa de relações e acontecimentos, dimensionados física e psicologicamente, nas quais a escrita, literatura, diálogo, silêncio, aproximação, isolamento, descoberta, sexo ou morte  se vão sucedendo. Afinal, esta é a vida segundo Bechdel…

De certo modo, Fun Home é uma história de fantasmas, uma história sobre os mortos. O próprio título é um trocadilho com o negócio familiar, uma agência funerária (funerary home); este trocadilho ganha um duplo significado ao longo da narrativa, não só por as agências funerárias não serem locais divertidos, mas por a infância de Alison também não o ter sido.

Através desta obra, a autora exorciza os seus fantasmas, nomeadamente o mistério que rodeia a morte do seu pai e as dificuldades que teve em se assumir como lésbica. Obviamente, o livro não lhe providencia as respostas mas a literatura autobiográfica em banda desenhada transforma duplamente o eu em algo externo, não só através das palavras mas também das imagens, permitindo que analisemos os nossos problemas e virtudes de um ponto de vista externo. Ao dissolver a primeira pessoa e ao se identificar com o seu outro eu, a alegoria de si própria, a autora – e, por extensão, os leitores que imergem na obra – tem deste modo a oportunidade de se questionar quanto a quem é e quem pode ser, bem como quanto as palavras definem essas identidades.

Por outro lado, a obra é uma história sobre a paternidade, tal como é imediatamente definida na primeira página, enquanto a pequena Alison brinca com o seu pai ao “avião”, enquanto a autora Alison cita os jogos de Ícaro, figura mitológica grega intrinsecamente ligada ao seu pai, o construtor das asas que o libertaram do seu labirinto mas lhe causaram a morte por se aproximar demasiado do sol ante a alegre sensação que voar lhe proporcionava. No entanto, Alison rapidamente nos alerta para o facto de, na sua história, não ter sido ela quem se despenhou mas o pai, sendo mais tarde equacionado se a sua morte foi ou não suicídio. As duas últimas páginas regressam novamente a Ícaro, como se se completasse um círculo de um conjunto de histórias que se interligam e às quais se recorre sem percorrer uma linearidade absoluta.

A literatura é outro tema importante ao longo do livro. Curiosamente, a primeira vez que somos transportados para a biblioteca do seu pai, Bruce, o nosso ângulo de visão não nos permite ver os livros que a constituem, concentrando-se antes nos elementos materiais que definem uma certa reputação financeira e um gosto sofisticado por um certo estilo literário. Posteriormente, nomes como Henry James, William Faulkner, James Joyce, F. Scott Fitzgerald, Albert Camus e Ernest Hemingway são citados, tendo estes autores em comum preocupações em como se relaciona a consciência do indivíduo com o contrato social, o qual consideram hipócrita e inaplicável, face às duas Grandes Guerras do século XX. Se a biblioteca de Bruce se dedica à Literatura Moderna, Alison procura obras de autoras homossexuais, sendo citadas, entre outras, Sidonie-Gabrielle Colette, Radclyffe Hall, Virginia Woolf, Jane Rule, bem como o autor Clarence Arthur Tripp.

Se, a nível de escrita, Alison refere os seus problemas iniciais com a mesma, escrevendo em código sobre os assuntos íntimos, a alienação na escrita dilui-se no erotismo que confere à ilustração, havendo inclusivamente uma analogia entre a sua sexualidade e seu crescimento enquanto ilustradora. Mas, não tivesse sido Bechdel professora de inglês, as palavras são extremamente importantes para si e a onomatopeia da palavra “orgasmo” é um vero mapeamento sonoro de um sentimento que nos leva a outro significado. Aliás, são estes mapas que conferem segurança a Alison; não só foi isso que fez na biblioteca do pai como confessou que o que mais gostava n’ O Vento nos Salgueiros era do seu mapa.

Outro tema que atravessa a obra é a simulação. É assim que Alison define a sua casa de infância, como uma imitação; no entanto, também não deixa de reconhecer que era real, uma vez que era onde a família vivia. Por outro lado, o seu pai tenta disfarçar a sua homossexualidade. E, numa visão mais macro, a própria autora simula a realidade na sua obra, através da representação de fotografias que pretendem corroborar que o que o leitor se encontra a ler é a realidade.

É também com uma fotografia secreta, a qual ocupa duas páginas, que se oferece uma revisão do passado, um novo caminho para a história da sua vida. O plano e ângulo de visão escolhidos permitem identificação múltiplas, não só de Alison com o seu pai, mas do leitor com a autora Bechdel e do leitor com a personagem Alison e, por inerência, o seu pai, num momento crítico que se divide entre a apreciação da beleza da criação estética e a dor do momento em que se concluiu o que até então não seria possível, obrigando a redefinir a relação de Alison com o seu passado.

Como fui sugerindo, a homossexualidade da autora e do seu pai afastarão alguns leitores e atrairão outros. É pena. A sobriedade das reflexões de Bechdel revelam uma maturidade invulgar, sendo as opções sexuais apenas um dos ingredientes que não deveria ter um valor intrínseco que não o da constatação, apesar de serem fundamentais à obra. Curiosamente, a revelação da homossexualidade de Alison aos pais é realizada por escrito após uma definição totalmente cerebral – e não prática – da sua sexualidade. No entanto, este momento tão importante para Alison é contraposto com as revelações acerca do seu pai, infantilizando-a ao ponto de adotar a posição de feto no ventre materno com o fio de telefone a simbolizar o cordão umbilical que a liga à mãe / aos pais e sentido-se com uma mero peão noutro drama que afinal está a ser contado. O labirinto em que a própria Alison, tal como Ícaro em tempos, se encontra é representado pelo ponto de referência não-linear de conexão com diferentes momentos da sua vida, através da figura de estilo visual que é regressarmos uma e outra vez a esta sua posição fetal, como se Alison não encontrasse saídas e tivesse de retornar sempre ao mesmo ponto, antes de caminhar noutra direção.

Provavelmente, uma releitura da obra também será uma boa proposta aos leitores que já a leram. Se tiverem oportunidade de ler a obra com os tons de azul, ausentes na edição nacional, a mesma providenciará provavelmente outro tipo de experiência.

nota: republicação e revisão aumentada do artigo publicado no 100mural, em 13 de março de 2013, reorganizado após assistir a palestras do Prof. William Kuskin.