O que fariam se o filho do(a) vosso(a) chefe se sentasse no vosso colo e dissesse que cheiravam como o pai (ou mãe) dele? Confrontada com este bizarro acontecimento, Simone Lia produziu uma novela gráfica intitulada Fluffy, na qual um pequeno coelho – com um desenvolvimento semelhante a uma criança de 5 anos – habita com o ansioso Michael e acredita que ele é o seu pai.

Na verdade, Fluffy está num processo de negação. Ele tenta utilizar todas as parecenças físicas e outras oportunidades como os derradeiros argumentos para provar o seu ponto de vista – que não é um coelho e que é filho de Michael. Mas, por fim, lá chegará a aceitação. Sim, apesar de termos nesta estória um coelho que tem comportamentos muitos próximos dos do ser humano, ele não é o filho do humano Michael.

O estilo delicodoce de Lia é inconfundível, assim como o contraste gráfico com a honestidade das narrativas com que nos presenteia. A pílula pode ser arredondada na forma mas o seu conteúdo não é dourado. Assim, encontramos em Fluffy uma série de questões não respondidas, amor não correspondido – com a educadora de infância de Fluffy – e desespero, mas também aventura e felicidade. Não é assim a vida tal como a conhecemos?

Passado entre o Reino Unido e a Sicília, a autora acrescenta ainda a esta obra a religião, monoparentalidade e disfunção familiar neste drama repleto de tensão psicológica, que combina magistralmente com outros momentos cómicos e (não) românticos.

O curioso é que a leitura deste livro foi-me indicada como um excelente exemplo de uma novela gráfica destinada a crianças. No que toca ao público-alvo, a indicação não poderia estar mais errada…

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Fluffy – Lia Simone
Jonathan Cape, 2007
188 páginas
ISBN 978–0-224-08924-1 (miolo: 9780224080484)

nota: republicação revista do artigo publicado em 100mural, em 16 de dezembro de 2012.