Obsolete é a banda desenhada que o dinamarquês Mikkel Sommer publicou em 2011 na editora britânica Nobrow Press. Esta pequena editora independente, alcançou uma excelente reputação internacional num espaço de 5 anos, não só devido ao conteúdo dos seus livros mas também a uma metodologia de impressão idossincrática e uma preocupação extrema com a qualidade do produto final – o livro / a revista – através de uma seleção criteriosa dos materiais utilizados. Obsolete teve o seu lançamento inserido na série 17×23, um projeto da editora que tem como objetivo editar de um modo económico novelas gráficas num formato 17 x 23 cm e com um número limitado de páginas (a obra em causa tem 24) de jovens autores talentosos, almejando estar a proporcionar um passo para projetos mais ambiciosos.

Nesta obra, dois ex-soldados norte-americanos, negligenciados pelo governo, sem memórias heróicas nem o amor de uma família para quem retornar, procuram conforto no álcool, nas drogas e no hedonismo niilista. Constantemente assombrados por pesadelos dos seus passados recentes tumultuosos, eles lutam desesperadamente para se manter na nossa realidade. Diante de um banco em Utah, armados e emocionalmente anestesiados, eles saem de dentro de um Ford Maverick. Durante o que parece ser uma fração de segundo, no meio do seu ato final de autoaniquilação, um deles vê algo que nunca tinha vislumbrado; um despertar?

Eis as primeiras páginas da BD:

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Se o argumento pode ser interessante, o que mais me atrai na obra é a sua apresentação gráfica e o modo como foi construída a narrativa. Existem momentos onde o autor evoca a repetição ao longo do livro, presente, por exemplo, sob a forma do globo ocular ou das machas de tinta que este capta nos Testes de Rorschach, parecendo querer transmitir ao leitor indícios de que aqueles indivíduos não estão aptos a permanecerem nas suas funções.

Por outro lado, dentro do caos aparente que governa a vida dos dois soldados, o autor parece querer edificar alguns pilares de ordem, não só reconstruindo constantemente a disposição das vinhetas na prancha, mas também criando pontos de simetria, extremamente visíveis quando a meio da narrativa os soldados abandonam o carro, mas também por comparação das duas vinhetas iniciais  com as duas finais da obra, no encerramento do ciclo.

O silêncio parece ser uma outra personagem extremamente importante ao longo do livro. Apesar de existirem alguns diálogos, eles não abundam na obra e reduzem-se ao estritamente necessário. Inclusivamente, as sirenes da polícia, apesar de vocalizadas, dispensam as onomatopeias, sendo apenas representadas graficamente.

A nível das transições das vinhetas, a narrativa utiliza com alguma frequência a quinta categoria da classificação de McCloud, a de ponto de vista (de um lugar, ideia ou humor para outro), criando não só uma forte noção do local como do humor do protagonista.

Obsoleto?

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Permanece então a questão – o que é obsoleto nesta BD? Não será certamente a técnica, como vimos. Não será também o formato de revista agrafada, adequado a vôos iniciais. Não nos parece também que seja a temática ou o género. Restam-nos as particularidades da narrativa. Será a vida do protagonista, a sua mera existência? Será o seu contributo ao país e ao mundo? Será a sua vivência após ser afastado das suas funções? Atrevo-me a dizer que será tudo isso… e algo mais, que deixaremos ser o leitor a descobrir!