A loose trilogy de Maurice Sendak já tinha tido o primeiro volume publicado entre nós, o incontornável Onde Vivem os Monstros, sobre o qual tinha escrito noutro local na altura em que Sendak nos deixou:
Maurice Sendak faleceu no passado dia 8 de maio de 2012. E, à hora da sua morte, a influência da sua obra estava na minha mesa de cabeceira. Na verdade, tenho de confessar que o meu primeiro contacto com Sendak já tinha ocorrido por intermédia obra. Refiro-me ao bonito filme O Sítio das Coisas Selvagens de Spike Jonze. Foi o suficiente para que quisesse ler o livro infantil ilustrado em que foi baseado, em português denominado Onde Vivem os Monstros, escrito e ilustrado por Sendak em 1963. Apesar de na altura da sua publicação, a temática e as ilustrações terem sido recebidas com alguma apreensão por parte dos pais, o livro é um best seller mundial. No nosso país, editado pela Kalandraka,  foi inclusivamente recomendando pelo Plano Nacional de Leitura (PNL) para o 1º ano de escolaridade.
Se o filme de Jonze divergia obrigatoriamente do original, o videojogo baseado na adaptação ao grande écran, desenvolvido pela Griptonite Games e editado pela Warner Bros., tinha também direito a uma grande divergência e, apesar de ter recebido críticas medianas pela imprensa especializada, proporcionou bons momentos familiares com o meu filho.
E divergência parece ser a palavra-chave. O autor do livro baseado no filme, Dave Eggers, confessa que o livro acabou por assumir vida própria, transformando-se num produto híbrido entre o original de Sendak, a adaptação de Jonze e a visão do próprio Eggers. Publicado pela Quetzal, o livro inspirado num filme inspirado num livro,
 com título homónimo ao filme, foi também recomendado pelo PNL, desta vez para o 3º ciclo de escolaridade.
«Max é um rapaz que está a crescer e a entrar num mundo que não consegue controlar. O pai foi-se embora; a mãe passa cada vez mais tempo com o namorado; e a irmã está a chegar à adolescência. Ele, por seu turno, refugia-se no interior do seu fato de lobo e entrega-se aos acessos de braveza de que é frequentemente acometido. Um dia, fugindo de uma discussão em casa, encontra um barco e, navegando nele, descobre uma ilha habitada por criaturas selvagens e monstruosas, de que se tornará rei.»

Era este o livro que estava na minha mesa de cabeceira quando Sendak partiu… Resta-nos uivar…

Mas regressemos à loose trilogy de Sendak, onde estão espelhados os medos primários das crianças e como elas aprendem a lidar com os seus sentimentos. O novo livro editado este mês pela Kalandraka, Na Cozinha da Noite, o segundo da supramencionada trilogia, foi originalmente publicado em 1970, 7 anos depois de Onde Vivem os Monstros.

Rezam as lendas que quando Sendak tinha 11 anos, na Feira de Nova Iorque, maravilhou-se frente à montra da pastelaria Sunshine Bakers, cujo lema era “nós forneamos para ti enquanto dormes” e que este livro seria uma resposta a essa recordação de infância, numa altura em que, em plena vida adulta, já teria idade para ficar acordado durante a noite e saber o que se passa “na cozinha da noite”. Uma viagem à memória emocional da infância.

Neste livro de banda desenhada, Sendak faz a devida homenagem a Little Nemo de Winsor McCay, numa narrativa igualmente onírica e repleta de referências à cultura popular, como a presença de Oliver Hardy (famoso pela personagem Bucha do duo Bucha e Estica), transformado não num mas em três padeiros da noite.

Convém relembrar que Winsor McCay (1867-1934) foi um dos grandes mestres norte-americanos de banda desenhada, conhecido pelo seu Little Nemo in Slumberland, que estreou em 1905 nas páginas de Time News Herald, rebatizado In the Land of Wonderful Dreams quando publicado no New York American. As dimensões da prancha eram as correspondentes ao denominado no jornalismo por formato standard ou broadsheet com a suas generosas 22 polegadas (cerca de 560 mm) de altura, tamanho com que foi a obra coligida em dois volumes pela Sunday Press em 2005 e 2008. Maurice Sendak refere-se a Little Nemo como «um catálogo de pesadelos, uma profusão de imagens extremamente fantasiosas apresentadas através de uma definição tão explícita que o sonho é capturado em toda a sua exatidão surrealista».

Na Cozinha da Noite, explora não só a temática de Little Nemo como também o grafismo do mesmo, não só na ilustração mas também nas técnicas utilizadas por McCay, como a disposição da grelha, fazendo o leitor se olvidar das limitações que os 215 mm de altura do presente livro impõem.

Apesar dos prémios recebidos (Caldecott Honor Book, New York Outstanding Book of the Year, School Library Journal Best Book, New York Times Best Illustrated Book, Ala Notable Children’s Book, Library of Congress Children’s Book), Na Cozinha da Noite foi na altura censurada em bibliotecas públicas e escolares norte-americanas devido ao menino protagonista da história ser representado nu em algumas das suas páginas.

Eis a sinopse da editora:
Já ouviste falar do Miguel e da noite em que ele ouviu um estrondo e gritou: Todos calados, aí em baixo! E caiu no escuro e livrou-se das roupas, passando pela lua, a mãe e o pai, dormindo apertados, em direção à luz da cozinha da noite?

Aguarda-se a publicação em português do último livro da trilogia de Sendak, Outside Over There (1981).

nota: as imagens foram gentilmente cedidas pela editora, as quais se agradecem e ilustram o texto.