No dia 16 de maio, a Bertrand edita pela primeira vez em Portugal num único volume a obra Maus de Art Spiegelman.

Clique nas imagens para as visionar em toda a sua extensão:

A colheita de banda desenhada norte-americana de 1986 apresenta-nos 3 obras incontornáveis: Maus de Art Spiegelman, The Dark Knight Returns de Frank Miller (argumento e desenho), Klaus Janson (arte-final) e Lynn Varley (cor) e Watchmen de Alan Moore (argumento), Dave Gibbons (arte) e John Higgins (cor).

Maus foi editado nos EUA em dois tomos, tal como sucedeu em Portugal pela mão da editora Difel. Originalmente, A Survivor’s Tale: My Father Bleeds History (A História de um Sobrevivente) foi publicado em 1986 e And Here My Troubles Began (E Assim Começaram os Meus Problemas) em 1991. Em 1992, a obra seria galardoada com o importante Pulitzer Prize Special Award (especialmente importante porque se distingue dos prémios anterior e posteriormente ganhos, altamente conotados com a BD – Angoulême, Eisney, Harvey…). Este facto não será certamente estranho a que Spiegelman, inicialmente pertencente ao movimento dos underground comix, que viria a culminar na banda desenhada alternativa, fosse convidado pouco tempo após o Pulitzer para contribuir com a sua arte para The New Yorker, uma das mais conhecidas revistas literárias norte-americanas para o leitor comum, à qual Spiegleman trouxe uma nova sensibilidade artística. Mais curioso ainda será o facto de em 1993, a sua esposa e companheira do movimento underground, Françoise Mouly, se tornar a editora de arte da revista.

Mas derivamos… Sem dúvida que Maus pode ensinar-nos algo sobre literatura, sobre representação e/ou como realizar a leitura de livros. Algumas questões se levantam desde o início. Como é que Maus se tornou um livro? O que nos tem a dizer quanto a um livro ser uma poderosa tecnologia para representar o eu? Podemos assumir que o livro unifica o eu de um modo que é apelativo psicologicamente mas talvez não traduzindo a verdade psicológica? Se, por um lado, nós nos encontramos divididos dentro de nós, o livro representa-nos como um todo?

A forma como o livro se apresenta está intimamente ligada ao percurso do autor no movimento underground. Entre 1967 e 1969, Spiegelman ilustrou os Wacky Packages, uma série de cromos e autocolantes coloridos por Norman Saunders, que parodiavam bens de consumo. Rezam as lendas que após a leitura de Pela Estrada Fora (On the Road) de Jack Kerouac, Spiegelman mudou-se de Nova Iorque para São Francisco, onde se dedicou aos underground comix, desde 1972. Para esta breve análise, importará talvez referir a publicação Arcade: the Comic Revue (1975-1976), editada em parceria com Bill Griffith, onde perante um declínio do underground, se prometia ao leitor uma nova abordagem, sendo evidentes, para além da utilização experimental da página, as preocupações literárias e a tradução de novas preocupações e de uma nova consciência sobre os comics. Alguns dos autores presentes nesta antologia foram Jay Kinney, Robert Crumb e Justin Green, entre outros.

Outra publicação incontornável é Raw (Raw Books & Graphics), coeditada por Spiegelman com a esposa Françoise Mouly, cujo primeiro número foi lançado em julho de 1980 com o subtítulo The Graphix Magazine of Postponed Suicides e que tinha como alvo o leitor urbano sofisticado. Se no primeiro número Spiegelman contribuiu com um comic a cores em miniatura anexo intitulado Two-Fisted Painters, foi através do segundo número desta “revista gráfica” (desta feita subintitulada The Graphix Magazine for Damned Intellectuals) que se iniciou a publicação em capítulos de Maus. Spiegelman explica que é a primeira parte de um trabalho em contínuo projectado para 200 a 250 páginas e que os próximos capítulos serão aperiodicamente publicados na Raw, à medida que forem finalizados. Ao abrir-se o minicomic, encontra-se uma fotografia de Spiegelman em Auschwitz, deixando-nos antever um relato intimista com Spiegelman no centro da história.

Mas como é que uma obra inicialmente editada neste formato em 1980 vem a ser galardoada com um Pulitzer 12 anos depois? Parte desta questão, é respondida com o poder absoluto da história que é narrada. É uma história sobre o Holocausto. É uma história sobre imigração e uma memória do velho mundo, frequente e tremendamente intimista. É uma história sobre a comunidade. E também é uma história sobre a maturidade artística.

Em Maus, podemos encontrar duas grandes influências da banda desenhada. Uma será Binky Brown Meets the Holy Virgin Mary de Justin Green, publicado em 1972, um relato com a culpa e a confissão omnipresentes, que parece ultrapassar as limitações da BD de então e levanta questões sobre que formas pode a BD tomar. Outra influência mais óbvia, será a antologia Funny Aminals editada por Terry Zwigoff, publicada no mesmo ano, e para o qual Spiegelman e Green contribuíram. Trata-se de uma publicação que relembra o género de Krazy Kat (1913-1944) de George Herriman e à qual certamente não será estranho o trabalho que Carl Barks vinha a desenvolver nas décadas anteriores para a BD Disney editada pela Dell, o qual se baseava na premissa de que desenvolvia histórias sobre seres humanos que por acaso se assemelhavam a patos.

Nos EUA, funny animals (denominado de Bande Dessinée animalière na Europa francófona) é inclusivamente um género de BD, caracterizado por retratar animais falantes ou antropomorfizados, com personalidades semelhantes às dos seres humanos.

O Funny Aminals de Zwigoff ia ser uma BD sobre direitos dos animais, mas Crumb ilustrou a capa e tornou-se uma afirmação dos underground comix. Spiegelman planeou contribuir com uma história sobre o Ku Klux Kan, mas acabou por se tornar numa história de 3 páginas de gatos e ratos sobre o Holocausto com o título Maus. A revista facilitou a Spigelman a abordagem do tema ao providenciar um género passível de explorar os horrores desconhecidos do Holocausto, dando voz a quem não a tem. Somente 8 anos depois, Maus chegaria à Raw.

Na ficha técnica do livro publicado em 1986, constam todos os minicomics. A abrir o livro, lê-se a frase de Adolf Hitler “The Jews are undoubtedly a race, but they are not human.” Em Maus, os judeus são ratos e os alemães são gatos. Toda a metáfora da obra é aqui elevada a um patamar mais abrangente, com a ironia omnipresente.

Característico deste género de BD, os animais são uma versão de nós próprios; afinal, este relato envolve pessoas reais. No entanto, não deixa de ser curioso se notar a ausência de Vladek Spiegelman dos créditos ou agradecimentos. Afinal, a história baseia-se nos relatos do pai de Art Spiegelman sobre a II Guerra Mundial. Tal só tem importância pela analogia com a temática da ausência do pai e pela ligação entre paternidade e criação. Aliás, será interessante evocar neste momento algumas palavras de Spiegelman proferidas em 2009: “I’m called the father of the modern graphic novel… ‘Graphic novel’ sounds more respectable, but I prefer ‘comics’ because it credits the medium. [‘Comics’] is a dumb word, but that’s what they are.”

E, deste modo, podemos ter vários campos de leitura quando desejamos abordar a questão da identidade neste livro: a) a utilização de animais ao invés de pessoas; b) a relação entre contar a história de Vladek Spiegelman e dar-lhe o crédito; c) as origens do romance gráfico (que, como se sabe, não nasceu com Spiegelman); d) as diferentes datas de nascimento que a obra foi tendo até ser unificada em livro com um ISBN.

À alínea b), gostaria apenas de acrescentar que o nome do pai foi considerado um descritor do livro na Library of Congress Information, provavelmente tendo em atenção o facto de, após o NY Times ter colocado Maus na lista de bestsellers de ficção, ter recebido uma carta do próprio Spiegelman a solicitar que o colocassem na não-ficção.

Ainda não começamos a abordar o seu argumento e já Maus nos levantou tantas questões. Maus solicita-nos que pensemos como os livros representam as pessoas, como eles unificam os muitos momentos da vida de uma pessoa numa história; não existe um momento de origem, um nascimento, mas muitos… E parece-nos impensável, nesta fase, não fazer uma analogia entre os livros e as pessoas – ambos são constituídos por muitos fragmentos diferentes.

Seria impossível abordarmos nesta breve análise todo o argumento da obra. Concentremo-nos portanto em algumas porções do livro que nos possam providenciar um mapa geral da obra.

“Prisioner on the hell planet” é uma BD publicada inicialmente na antologia Short Order Comix #1 editada pelo próprio Spiegelman em 1973. Em Maus, Vladek e a esposa Mala mencionam que Vladek descobriu e leu essa BD. Em Maus, o rato Artie segura essa BD e faz-nos crer que um exemplar dessa publicação está nas nossas mãos, que estamos a ler a representação de uma antiga BD, a qual é reimpressa dentro de Maus (como podemos confirmar na multifragmentada ficha técnica) – a nossa leitura ativa faz parte, de repente, da própria história.

“Prisioner on the hell planet” é uma história sobre a mãe (vs. o pai) de Spiegelman, uma história sobre o suicídio. Nela, encontramos o ser humano Art , o jovem de 20 anos com bigode que veste um traje dos campos de concentração, o que permite uma forte ligação com o tema principal de Maus.

Na primeira vinheta desta BD dentro da BD, temos uma lição de representação. O eu-rato segura um comix, que apresenta o eu-comix a segurar uma foto do eu-real e da mãe-real – o eu-real que se sente, ostensivamente, aprisionado pelos limites da fotografia e das vinhetas.

Nas vinhetas seguintes, Spiegelman retrata-se a emergir do metro e diz-nos ter estado institucionalizado num hospital de saúde mental. Ao criar a ficção da leitura, o autor quebra os limites da ficção do rato e o conceito dos animais antropomorfizados, ganhando a confiança do leitor e criando-lhe a impressão de que realmente sabe algo sobre o Mr. Art Spiegelman.

Esta BD de 4 páginas tem como tema a quebra de confiança entre uma mãe e um filho, a qual é duplicada pelo leitor, que sente uma quebra de confiança quanto à temática(s?) do livro, e nos faz refletir sobre a fotografia que retrata uma feliz criança em Trojan Lake, um nome que evoca o engano e a traição através de um certo cavalo de madeira.

No final de “Prisioner on the hell planet” é expressa essa dolorosa lembrança de Art quanto à quebra de confiança de Anja, sua mãe; o seu suicídio aprisionou-o numa tira de prisões, estando presentes na última vinheta uma grelha de eus individuais.

Esta quebra de confiança está também expressa na temática major de Maus, o Holocausto. Os judeus na Alemanha Nazi não conseguiam acreditar que a sua comunidade se tinha virado contra si e este sentimento profundo de traição é um passado herdado por Art.

Através desta BD de 4 páginas, o autor também nos faz aperceber que podemos julgar que conhecemos Artie da quase centena de páginas anteriores mas que afinal não conhecemos. É uma confissão inspirada pelo trabalho supramencionado de Justin Green, onde, a um outro nível, o confessor admite não se conhecer a si próprio; ele emerge da escuridão no painel central da primeira página de “Prisioner on the hell planet”, representada pelo traço pesado e epitomada pelo buraco negro para o subsolo – ele emerge para um eu rodeado pela escuridão.

E, no final de “Prisioner on the hell planet”, empatizamos com esta personagem – devido à sua complexidade e profundas camadas – o suficiente para também nos sentirmos traídos.

Mas avancemos. Maus representa as pessoas através de uma estrutura recursiva, algo que se define por repetidamente regressar a si próprio. Nas primeiras páginas do livro, está representada uma fotografia de uma jovem rata Anja. No segundo tomo de Maus, existem várias fotografias de ratos que representam pessoas mortas. Mas, curiosamente, o segundo tomo inicia com uma fotografia real de Richieu, irmão de Art, que foi morto antes de Art nascer, assassinado para que não fosse remetido para um campo de concentração. Maus tem a preocupação de representar as pessoas, de alguma forma invocando os mortos do passado, como se as fotografias recuperassem as pessoas perdidas e nos transmitisse o princípio de uma verdade honesta e de uma pesquisa meticulosa.

Mas o fotorrealismo não é realmente real. A fotografia de Vladek na antepenúltima página do segundo tomo é um artifício. Trata-se de um souvenir encenado, fotografado após ter sobrevivido aos campos de concentração. Vlaked não pareceria realmente assim quando o obrigavam a trajar daquele modo. E isso relembra-nos que a BD (auto)biográfica – tal como a fotografia – é uma animação suspensa que não é necessariamente precisa na sua representação dos mortos (e dos vivos).

Na última página do primeiro tomo, Artie, que tem estado a procurar os diários de Anja para perceber a sua perspetiva, descobre que Vladek os queimou. Isto é um facto especialmente significativo se nos recordarmos que Vadlek é muito apegado às coisas (anteriormente, Mala tinha-o inclusivamente acusado de tal). E Artie fica furioso com esta revelação. A perda dos diários equivale à perda da mãe e a acusação de assassinato proferida em “Prisioner on the hell planet” é novamente pronunciada. No mundo de Artie, os livros são pessoas e contêm a verdade. E em Maus está mais do que uma vez expressa a traição dos pais e a do próprio Art.

Se, para além de toda a temática do Holocausto, Maus tem algo para nos ensinar é que devemos ler os livros como pessoas – entrar neles e descobrir as partes que contêm um profundo significado para unificá-las naquilo que compreendemos ser o todo, e que será diferente na primeira, na segunda e na terceira leitura.

À questão sobre o que significa criar livros colocada pelos ratos Art e François no início do tomo II, assistimos a um importante diálogo onde a certo momento se responde com a elusiva simplicidade de manter o relato honesto. Mas jamais esqueceremos o lamento de Artie sobre o processo de representação. Pode-se proferir a verdade enquanto se constrói uma persona que vai para além de nós?

Eis a sinopse da editora:
Maus – A História de um Sobrevivente é um romance gráfico escrito e desenhado pelo norte-americano Art Spiegelman que narra a luta do pai, um judeu polaco, para sobreviver ao Holocausto. O livro foi publicado «originalmente» em duas partes, e mais tarde reeditado num só volume. Nas tiras, os judeus são ratos (maus em alemão), os alemães, gatos; os polacos porcos e os americanos cães. O uso de antropomorfismo reflete espírito do livro: um relato incisivo e perturbador, que evidencia a brutalidade da catástrofe do Holocausto.

Género: Banda Desenhada
Tradutor: Joana Neves
Formato: 15×23,5cm
N.º de páginas: 296
Data de lançamento: 16 de maio
PVP: 17,70€

nota1: para esta reflexão sobre a obra, foram utilizados alguns apontamentos que realizei em aulas do Prof. William Kuskin.
nota2: as imagens foram gentilmente cedidas pela editora, as quais se agradecem e ilustram o texto.