Uma das exposições patentes no X Festival Internacional de BD de Beja será Comix4= (leia-se Comics for Equality), um projeto liderado pela organização italiana Africa e Mediterraneo e financiado pelo Programa de Direitos Fundamentais e Cidadania da União Europeia.

Este projeto tem como fim a promoção do desenvolvimento de uma sociedade europeia que tenha como base os direitos humanos fundamentais e atitudes e comportamentos contra a discriminação e a xenofobia. De modo a fomentar o diálogo intercultural contra o racismo na Europa , o projeto foca-se nos jovens enquanto público-alvo principal, utilizando como instrumento a banda desenhada elaborada pelos seus pares que tenham no seu passado algum historial ligado ao tema da migração.

Dos 41 autores presentes no catálogo, a maioria viveu a migração pelos motivos mais diversos (sejam eles eminentemente pragmáticos, como a migração dos progenitores, estudo, trabalho, ou revestidos de um cariz mais macro, como a incompatibilidade ideológica). Os restantes autores presentes representam a segunda geração, ou seja, os filhos dos migrantes, nascidos num país que não os dos progenitores. Ao todos, encontram-se representados 21 dos 28 países europeus.

A totalidade das BD apresentadas são inéditas, tendo sido agrupadas em três categorias distintas: estereótipos, histórias de migração e a luta contra o racismo. Portugal encontra-se representado em dois destes capítulos. No primeiro, Amanda Baeza, criada no Chile antes de regressar a Portugal com 9 anos de idade, descreve-nos ao longo de 5 páginas o quão complicada foi a sua integração no meio escolar, relembrando-nos o quão cruéis podem ser as crianças e o quão as suas crenças estão ligadas às que vigoram no seio da sua família. A nível gráfico, Baeza faz uma exploração tripartida da página que tem por base a analogia entre o ciclo reprodutivo dos cogumelos e a perpetuação dos estereótipos na sociedade,  sendo provavelmente o trabalho que melhor explora a disposição da prancha a nível de conceptualização.

Por seu turno, Nuno Abreu, cujo processo de migração desenvolveu o triângulo Espanha-Portugal-Reino Unido, apresenta-nos uma narrativa na categoria “a luta contra o racismo” onde assistimos a uma sucessão de estereótipos que levanta como questão final a perspetiva individual – manter-se-á o sentimento de superioridade nos que manifestam comportamentos xenófobos quando se vêm obrigados a migrar para países onde mais cedo ou mais tarde encontrarão alguém que não os considera iguais?

A mostra, rica no que toca à multiplicidade de estilos e técnicas, apresenta obras muito desiguais no que toca à conceção e à concretização dos trabalhos propostos. Quanto aos géneros, a autobiografia está frequentemente presente, mas não é exclusiva. A “Burocrazy” de Angela Wanjiku Njoroge tenta manifestar através da legendagem as múltiplas pronúncias (deveriam ser línguas?) presentes num departamento de imigração. Mari Ahokoivu revela-nos dominar perfeitamente a linguagem da BD. A linguagem gráfica é também o ponto forte de Pierluca Galvan e Camilo Collao, estando este último representado na capa. Hyon Yong “Damian” Pahk propõe o silêncio de modo a permitir que dialoguemos com nós próprios. Milivoj Kostic reutiliza com eficiência o conceito das opiniões dominantes. Carlos Gustavo Carmona Medina demonstra que, para que uma obra seja considerada uma banda desenhada, não tem de existir uma sequência gráfica entre as vinhetas, sendo suficiente ilustrar a sequência narrativa do texto, o qual, neste caso em concreto, é frequentemente dominante no que toca à dimensão espaço e quase sempre se revela de maior importância naquilo que está a ser transmitido…

Clique nas imagens para as visionar em toda a sua extensão e com dimensões mais generosas:

O livro pode ser lido gratuitamente aqui. Pode ainda ter acesso a um toolkit aqui, com várias atividades propostas para desenvolver os temas abordados nas BD.