A editora Pato Lógico prossegue a série Imagens que Contam (tendo-me já referido aos anteriores Bestial de André da Loba e Sombras de Marta Monteiro) com um livro da autoria de Afonso Cruz, denominado Capital.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão e com dimensões mais generosas:

A premissa da colecção mantém-se – liberdade total ao autor para utilizar 32 páginas, exclusivamente com imagens, ou seja, sem palavras. Quando se imprime a uma obra deste tipo uma história, estamos perante uma narrativa gráfica, concordem os académicos ou não, conforme explorámos a propósito de Sombras, em considerá-la banda desenhada.

Neste livro, após um menino receber um porquinho-mealheiro, Cruz atrai-nos com uma viagem à infância e juventude, repleta de traços arredondados e tons mornos, acompanhados de amor e ternura. À medida que vamos crescendo com a personagem, não faltam os ursos de peluche, os desenhos de infância, os passeios no parque com passarinhos a serem alimentados, os jogos de futebol e o enamorarmo-nos. Aquilo que desconhecemos é que, enquanto nos vamos identificando com aquele menino / adolescente / jovem adulto, o autor vai cerrando uma mão e mirando o nosso estômago, certo de que não irá permitir ao leitor nenhum tipo de escapismo.

Quando damos conta, o protagonista enverga vestes semelhantes à da bizarra personagem que lhe ofertou o porquinho de louça, à qual provavelmente não demos demasiada importância, apressados em virar a página. No entanto, Cruz já nos obrigou a desacelerar o ritmo de leitura, quando o horror se instala. A identificação do protagonista com aquele personagem inicial não se restringe ao fato, estando também presente o charuto e o escurecimento da tez, sinal de vamos sendo poluídos pelo ambiente que ajudamos a construir.

O porquinho com ranhura nas costas para ser alimentado com capital tornou-se um animal obeso, com lucros fabulosos e uma ânsia imparável, começando por comer as pernas aos mais idosos para devorar toda a sociedade, incluindo grávidas e crianças anónimas mas também os amigos. Instalada esta máquina devoradora, conseguirá o protagonista controlá-la o suficiente para que não destrua a sua família, para que não o destrua a si próprio, para que não destrua o planeta (e arredores)?

Atendendo à contingência económica que vivemos, Capital é uma obra incontornável. Resta saber o que cada leitor fará após a sua leitura.

notas: as imagens foram gentilmente cedidas pela editora as quais se agradecem e ilustram o texto.