A revista mensal Juiz Dredd Megazine chegou finalmente às bancas portuguesas. Editada pela brasileira Mythos, esta revista contém bandas desenhadas recentes e clássicas da britânica 2000 A.D., cuidadosamente selecionadas.

Realizámos uma pequena entrevista ao diretor executivo brasileiro Helcio de Carvalho e ao editor assistente português Pedro Bouça, a propósito da importação da revista brasileira para Portugal. No final, apresentamos 8 previews e uma descrição de todas as séries publicadas na revista.

Nuno Pereira de Sousa: Como surgiu a ideia de publicar periodicamente, e com um plano editorial consistente, 2000 A.D. no Brasil?
Pedro Bouça: Só posso responder da minha parte. Não sei se o pessoal da Mythos já estava a pensar nisso antes, mas, do meu lado, a ideia de publicar o material da 2000 AD surgiu, está claro, com o novo filme do Juiz Dredd. Eu fui convidado para fazer um podcast (o Quadrimcast) com uns amigos no Brasil sobre a personagem e aproveitei para ler (ou reler) boa parte do material do Juiz que eu já tinha em casa, o que me deu consciência da grande riqueza da personagem e de como ela tinha sido praticamente ignorada pelas editoras de BD de língua portuguesa durante todos esses anos. Desde que regressei a Portugal, há dez anos, que compro a 2000 AD. No Brasil é bem mais complicado adquirir a publicação… Então, contatei o pessoal da Mythos com quem eu já trabalhei no passado (como tradutor para publicações da Panini Brasil) e sugeri publicarem o material da 2000 AD. Não faço ideia se já estavam a pensar nisso antes ou não. Repare que a Mythos já havia publicado alguns crossovers do Dredd no passado, mas o que é certo é que o Helcio adorou a ideia e formamos logo um plano de publicação para a revista e o primeiro álbum (Origens). Pelo menos, é assim que eu me recordo da história.
Helcio de Carvalho: Nós sentimos que havia espaço para uma publicação do género, diferente de tudo o que vinha sendo publicado no Brasil. Foi uma aposta arriscada, mas que tem dado certo.

NPS: Quais os grandes desafios em colocar nas bancas uma revista mensal como Juiz Dredd Megazine?
HC: A montagem do puzzle das histórias (pois a maioria continua). Procuramos usar um mix de personagens fortes, diversificados, sempre, claro, liderados pelas aventuras do Dredd.

NPS: Sendo o catálogo da 2000 A.D. tão rico, que linhas orientadoras seguem para fazer a seleção do que publicar?
HC: Realmente não é fácil. Felizmente, nosso editor assistente, o Pedro Bouça, é um perito em 2000 AD e tem-nos auxiliado muito.
PB: Bem, a principal ideia, estabelecida desde o começo, foi tentar equilibrar a publicação de material de qualidade, tanto clássico quanto novo. Assim a revista combina tanto personagens já conhecidas no Brasil (como Dredd e Sláine), quanto séries clássicas inéditas (como Nikolai Dante) e séries recentes (como Área Cinzenta). É um ponto de orgulho que o próprio editor da 2000 AD, Matt Smith (não é o Doctor Who nem o desenhador clone do Mignola) tenha elogiado a escolha de histórias da revista aquando do seu lançamento! A publicação de nomes já consagrados no mercado brasileiro, como Alan Moore (o David Soares britânico), também foi levada em conta, é claro, para compensar o facto de um bom número de autores britânicos serem obscuros ou desconhecidos do público.

NPS: As expectativas da editora foram superadas?
HC: Foram alcançadas.

NPS: Do material publicado, qual foi o mais louvado pelos leitores?
PB: É difícil dizer, já que cada leitor parece ter a sua BD favorita. Pelo feedback recebido e a reação na internet, eu diria que foi o próprio Juiz Dredd. Mas todas as séries têm os seus adeptos! Vale a pena dizer que Área Cinzenta, uma série recente publicada no Brasil antes mesmo de ter conseguido sucesso no Reino Unido, teve um sucesso inesperado no país e é uma das mais populares com os leitores.
HC: Sim, um dos destaques é Área Cinzenta.

NPS: Alan Moore, Neil Gaiman, Dave Gibbons, Brian Bolland, Garth Ennis, Alan Grant, Dan Abnett, John Wagner, Simon Fraser, D’Israeli, Pat Mills e tantos outros… Acreditam que os leitores estão a construir uma visão diferente destes autores, bem como de uma das vertentes mais importantes da banda desenhada britânica?
HC: Com certeza. A revista tem mostrado trabalhos da maioria desses grandes autores, trabalhos até então desconhecidos no Brasil. A resposta tem sido muito positiva.
PB: Um dos objetivos é fazer o público brasileiro conhecer melhor o excelente trabalho desses autores. Alguns deles eram completos desconhecidos dos leitores, como Fraser, que é um dos desenhadores favoritos do público. Igualmente, a variedade de material apresentado na revista é muito mais ampla do que no habitual das revistas de BD publicadas no Brasil, normalmente centradas em material infanto-juvenil ou super-heróis. Tenho esperança de que a nossa publicação esteja a dar aos leitores uma visão mais ampla da ampla gama de bandas desenhadas existentes no Reino Unido. Transformar o que são hoje apenas leitores de super-heróis em leitores de BD.

NPS: Falem-nos um pouco das nomeações para prémios que a revista obteve.
HC: Foi um motivo de grande orgulho para nós, um reconhecimento pela coragem e pelo trabalho que temos feito.
PB: Foi uma grande honra a revista ser nomeada para o prémio de melhor publicação mix no Troféu HQ Mix. A concorrência é bastante forte, o que faz a simples nomeação já ser um mérito considerável, fruto do grande esforço de todos os envolvidos na produção da revista. Vamos continuar a trabalhar para nos mostrarmos à altura do prémio e, quem sabe, conseguir uma vitória.

NPS: Serão exportadas para Portugal todas as revistas especiais de 2000 A.D?
HC: Já estão sendo.

NPS: Na vossa opinião, porque a revista vai agradar aos leitores portugueses?
HC: Porque, assim como os brasileiros, os leitores portugueses têm muito bom gosto, especialmente no que se refere à banda desenhada.
PB: Penso que o público português será bastante recetivo à revista, que afinal tem mais afinidade com o tipo de BD europeia consagrada no país, apesar do parentesco óbvio com os comics americanos. Se ela agradar os apreciadores dessas duas “escolas” de banda desenhada, o sucesso no país será certo!

NPS: Helcio, na entrevista que me concedeu em 2005, afirmou ter planos para lançar títulos especialmente para o mercado português. Nove anos depois, é uma ideia abandonada?
HC: Tínhamos muitos planos, mas infelizmente a crise mundial e os problemas de distribuição em Portugal fizeram-nos  repensar. Se esse cenário se alterar, com certeza retomaremos a ideia.

NPS: Tinham também nos vossos planos adquirir os direitos de séries que pudessem ser lançadas em Brasil e em Portugal, sem restrições. No entanto, já há muito tempo que às bancas portuguesas só chegam revistas bonellianas. O Juiz Dredd é um passo para uma linha de distribuição mais abrangente em Portugal?
HC; Nós temos planos de enviar alguns títulos para Portugal, além de Bonelli e Dredd. Estamos negociando com as editoras.

NPS: Quando chegará a Portugal a minissérie Cassidy & Demian da Bonelli?
HC: Num futuro bem próximo.

NPS: Dampyr e Dylan Dog eram revistas que tinham relativamente boas vendas em Portugal. Encontra-se nos vossos planos publicar mais histórias destas personagens?
HC: Infelizmente, não. O público desses títulos é muito restrito, o que acaba inviabilizando as publicações.

NPS: Continua a não existir um modo de evitar o atraso entre a publicação das revistas no Brasil e a distribuição em Portugal?
HC: A distribuição em Portugal é algo bastante complexo. Creio que isso está melhorando, mas continua longe do ideal.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão e com dimensões mais generosas:

Eis a sinopse da editora:
A JUSTIÇA ESTÁ DE VOLTA ÀS BANCAS! Mythos lança Juiz Dredd Megazine e resgata o melhor do quadrinho britânico. Imagine uma publicação que reúna mensalmente autores do calibre de Alan Moore, Dave Gibbons, Brian Bolland, Pat Mills, Dan Abnett, John Wagner, Carlos Ezquerra e outros expoentes das HQs, trazendo o melhor da produção em quadrinhos inglesa nos últimos 20 anos. Essa é a proposta de Juiz Dredd Megazine, nova revista mensal da Mythos Editora. Encabeçada pelo truculento e implacável Juiz Dredd — ausente das bancas brasileiras desde 2004 —, a publicação reúne histórias lançadas nas tradicionais revistas britânicas 2000 AD e Judge Dredd Megazine, e mescla personagens já conhecidos do público brasileiro, como o guerreiro bárbaro Sláine, a séries inéditas, como Área Cinzenta, Nikolai Dante, Áquila, Distorções Temporais e outras.

Com 68 páginas em papel couchê e formato magazine, Juiz Dredd Megazine surge como uma opção aos tradicionais quadrinhos de super-heróis americanos, enveredando pela ficção científica e pela fantasia, com enredos criativos, muita ação e pitadas do sutil humor britânico.

AS SÉRIES
Conheça um pouco mais sobre as séries de Juiz Dredd Megazine:

Juiz Dredd: No futuro não muito distante, uma guerra nuclear destruiu a maior parte do planeta. Restaram apenas algumas megalópoles protegidas por redes de defesa antimíssil — as megacidades. A maior delas é Mega-City Um, aglomerado urbano que ocupa a antiga costa leste dos Estados Unidos. A superpopulação é brutal e a maior parte dos habitantes não tem outra opção além de viver em enormes condomínios verticais, cuja elevada concentração populacional não ajuda a reduzir as tensões, agravadas pelo desemprego elevadíssimo de quase 90% (a grande maioria dos trabalhos em Mega-City é feita por robôs). Depois da guerra, Mega-City abandonou de vez o sistema democrático e passou a ser governada pelo Departamento de Justiça, formado por juízes que acumulam a função de juiz, júri e executor — um sistema de justiça imediata criado para combater a criminalidade fora de controle das megacidades. O mais famoso juiz de Mega-City Um é Joseph Dredd, um clone do antigo juiz-chefe do Departamento de Justiça, Eustace Fargo, criador do conceito de justiça imediata. Treinado desde o nascimento para ser o magistrado perfeito, há décadas Dredd protege Mega-City Um de criminosos como o demônio extradimensional Juiz Morte, o ciborgue psicopata Máquina Malvada e até seu próprio “irmão” clone, Rico Dredd. São quase cinquenta anos de carreira nas ruas de Mega-City. Dredd tem conseguido superar as limitações da idade com a ajuda de sua incomparável determinação (e da tecnologia médica avançada de Mega-City, claro). Cronologicamente, estamos no ano 2126 e, apesar de todos os percalços, a lei dos juízes ainda governa Mega-City Um. E DREDD É A LEI!

Sláine: Séculos antes da conquista romana e do surgimento do cristianismo, a região que constitui hoje a Europa ocidental era habitada pelos celtas, uma sociedade tribal que dominou a maior parte do continente até a chegada dos romanos. De uma dessas tribos, a Sessair, surgiu Sláine, guerreiro do Ramo Vermelho destinado a se tornar o primeiro grande rei da Irlanda. Expulso de sua tribo por ter ousado dormir com a mulher do líder, Sláine vaga por Tir Nan Og (a Terra dos Jovens, lar dos celtas) na companhia de Ukko, um anão de moralidade duvidosa. Juntos, os dois armam uma infinidade de esquemas para ganhar dinheiro enquanto Sláine planeja o retorno à sua tribo.

Área Cinzenta: No futuro não muito distante, o primeiro contato da humanidade com uma espécie alienígena acabou em tragédia quando um nanovírus utilizado pelos extraterrestres para se comunicar com outras espécies revelou-se inesperadamente letal para a raça humana. Muitos morreram, enquanto outros sofreram mutações genéticas. Esse incidente ficou conhecido como “A Saudação” (porque a intenção dos alienígenas era simplesmente saudar a humanidade e recebê-la entre as outras civilizações da galáxia) e os mutantes gerados por ele são chamados de “saudados”. A Saudação motivou a humanidade a proteger melhor suas fronteiras. Uma rede de satélites de defesa foi colocada no espaço para impedir incursões alienígenas ilegais, e os visitantes legais (oficialmente chamados de “exoterrestres” ou simplesmente “exos”) são submetidos a diversos exames antes de pisar no planeta e deixados de quarentena em um local conhecido como Zona Global de Exossegregação,popularmente chamado de “Área Cinzenta”. O lugar rapidamente se tornou um gueto alienígena, onde a ordem precisa ser mantida pelas forças de elite da Divisão de Exotransferência Controlada, ou ETC. A série acompanha uma das equipes da ETC comandada pelo autoritário capitão Janzen.

Nikolai Dante: No distante século 27, a Rússia é novamente um império, governada com mão de ferro pelo czar Vladimir, o Conquistador, que estendeu seu domínio sobre a maior parte do planeta — e até mesmo sobre outros planetas! Essa dominação, porém, não tornou mais fácil a vida dos cidadãos, ainda empobrecidos e assolados pelo crime. Um dos criminosos russos de maior destaque é o ladrão e trambiqueiro Nikolai Dante, filho da temível pirata Katarina Dante, que o abandonou na infância. Seu pai é desconhecido. Obrigado a sobreviver nas ruas, Dante desenvolveu grandes habilidades de ladrão, lutador e sedutor. Mas um encontro com a filha e herdeira do czar, Eugenia Vladimirovna Makarova (ou Jena Makarov, para os amigos, o que Dante certamente não é…), mudará para sempre a sua vida!

Histórias curtas: Ao contrário das HQs americanas, que geralmente trazem apenas uma história por edição, a 2000 AD costuma trazer várias (por norma, capítulos de histórias) em cada número. Com sua periodicidade semanal, é comum haver necessidade de cobrir espaços na revista por atrasos na entrega de alguma série. Também é preciso publicar novos autores, já que há um risco muito grande em se contratar um novato para fazer uma série longa sem saber se ele será capaz de manter a qualidade — e periodicidade — em seu trabalho. Para unir o útil ao agradável, a 2000 AD publica um grande número de histórias curtas trazendo as mais diversas temáticas (choques futuristas, distorções temporais, contos robóticos, etc.). Um dos autores que fez muitas dessas histórias foi Alan Moore, então em início de carreira nos quadrinhos. Esse material é completamente inédito em português e merece ser visto pelo público brasileiro. Além de Moore, há várias outras histórias curtas de grandes autores britânicos no acervo da 2000 AD, que poderemos publicar no futuro.

Juiz Dredd Megazine
68 páginas
Formato 20,5 x 27,5 cm