Por Rui Ferreira

Carlos Pedro meteu mãos à obra e avançou com um projecto a solo, onde para além do desenho elabora também o argumento. Neste momento, tem praticamente finalizado SOLOMON, o seu novo livro, que pretende levar até ao festival de Thoughtbubble em Leeds em Novembro deste ano.

O Carlos Pedro acedeu ao meu pedido e concedeu-nos uma entrevista onde fala deste seu novo projecto, mas também um pouco sobre si, sobre a sua carreira no mundo da BD e ainda nos dá algumas dicas. Aproveito para lhe agradecer a simpatia e disponibilidade, muito obrigado. Não percam já a seguir a entrevista e no final 6 previews do novo SOLOMON.

Este gosto pela Banda Desenhada, foi uma coisa que sempre desejas-te ou foi um interesse que foi crescendo aos poucos?
Eu desde que me lembro de ser gente que a banda desenhada está presente na minha vida. Comecei a ler aos 5 anos com a ajuda de banda desenhada – primeiro os “gibis” da Disney a depois a Turma da Mónica, só mais tarde quando já andava na primária é que surgiram os comics (também eles publicados pela Abril na altura). Todas as semanas chateava os meus pais por um livro novo, às vezes mais que um até. Até ao dia em que descobri que conseguia reproduzir os desenhos que estavam nesses livros se colocasse o livro ao lado da folha onde estava a desenhar. Passei a desenhar o Homem-Aranha e o Wolverine e todos os outros super-heróis que ia descobrindo e conforme fui envelhecendo a ideia de tornar isso a minha profissão foi tornando-se uma ambição.

O teu início na BD foi na Kingpin com a saga Super Pig em 2006. Como surgiu essa oportunidade? E que impacto teve no desenvolvimento do teu trabalho posterior?
Essa oportunidade apareceu de forma orgânica. Andava no secundário e tinha começado há pouco tempo a ler as edições americanas da Marvel e DC. Lembro-me de pensar: “Preciso de conhecer mais gente dentro do meio se quero mais tarde trabalhar nisto!”. Foi então que conheci o Mário Freitas, o dono da Kingpin books, no festival da Amadora há 12 anos, isto na fase em deixou a Fábrica da Cultura mas ainda não tinha passado para o Metro da Amadora. Tornei-me cliente e amigo dele e fui-lhe mostrando rabiscos meus até que em 2005 ele me falou de um projecto que tinha em mente: O Super Pig. Lançámos em 2006 o primeiro número e  o segundo em 2007. Em termos de impacto foi devastador. É completamente diferente desenhar livremente em cadernos sem ter em conta regras de passar a desenhar uma página inteira com todos detalhes e cuidados que esta necessita. Fazer um sketch ou desenhar uma cabeça de um Batman é simples, desenhar uma sequência de 5 painéis onde temos passagem de tempo, perspectiva, escala, detalhes diversos como texturas, linguagem corporal e outras quinhentas não é nada fácil. Para um rapaz de 18 ou 19 anos que nunca tinha feito isso na vida foi estrondoso ter uma obra publicada tal como foi absolutamente arrasador em termos de cansaço. Esse abrir de olhos foi algo extremamente importante para mim.

Entretanto tens tido alguns trabalhos fora do país, nomeadamente com self-publishers como a Freaktown Comics e mais recentemente com a Atypical Comics. Como está a ser a experiência?
A participação com a Freaktown deu-se primeiro em 2011. O Russell tinha uma ideia para um comicbook sobre Rollerderby. Eu conhecia-o através do fórum do Mark Millar – O Millarworld – e contactei-o. Precisava de um projecto novo, algo diferente do que tinha feito com o Super Pig. Ele gostou do meu traço e fechámos negócio. Em 2013 voltámos a trabalhar no terceiro número – ele para acelerar a produção contratou um segundo artista para o segundo número – e lançámos a colectânea dos três números em Leeds.

Este ano vi que a Atypical Comics tinha ficado sem artista para o seu título “Keeper”, escrito pelo Geoffrey Wessel. Entrei em contacto com ele, discutimos a coisa e tornei-me o artista para o terceiro número lançado este ano. Ele mostrou desejo de eu continuar a série e por mim espero continuar a trabalhar na continuação da história. A experiência tem sido positiva. Quando se quer trabalhar em algo e evoluir tem de se procurar isso mesmo: mais colaborações, colocar horas de trabalho na mesa, praticar e com alguma sorte novos projectos e remuneração vão aparecendo.

Se pudesses escolher uma editora e um argumentista estrangeiros para um trabalho quais seriam as tuas escolhas?
O puto em mim diria automaticamente Superman e Grant Morrison. Mas a realidade é que nada do que eu conseguisse desenhar iria chegar à sombra do All-Star Superman por isso… O artista em mim hoje em dia tem o desejo de conseguir um projecto que seja orgânico e com alguma liberdade criativa. Acho que a Image ou a Boom são de longe as editoras a apostar nesse campo. Via-me a trabalhar sem problemas com alguém como o Jason Aaron ou o Jonathan Hickman em algo que pudéssemos discutir livremente, atirar barro à parede e criar algo que fervilhasse com imaginação.

Que outros autores e desenhadores segues com mais atenção? Ou que mais te influenciam?
Tudo o que tenha Grant Morrison na capa eu compro, ou se não comprei ainda está na minha lista. De resto gosto muito da obra de Naoki Urasawa, Warren Ellis, Jason Aaron, Jonathan Hickman, Mark Waid, Matt Fraction, Matt Kindt, Jeff Lemire, Brian Vaughan. Em termos de artistas gosto muito de Frank Quitely (o melhor artista da actualidade na indústria na minha opinião), Stuart Immonen, Cameron Stewart, Becky Cloonan, Sean Murphy, Chris Samnee, alguns artistas japoneses como Obata Takeshi, Yusuke Murata ou o próprio Urasawa.

Quanto a este teu novo projecto Solomon, do que trata a história e de onde surgiu a ideia?
Eu sempre a descrevi através de um “elevator pitch”: Uma mistura entre o “The Cat Returns” do studio ghibli com o horror de H.P. Lovecraft.Sem querer dar muito do enredo diria que é uma história sobre decisões e enfrentar a vida de frente mesmo quando nos vimos cercados de situações estranhas e inóspitas. Como é que esta surgiu… Bem da forma naturam como se formam as ideias. Uma pitada de curiosidade, outra de auto questionamento, umas quantas influências de materiais diversos de várias alturas da minha vida, mete-se tudo na liquidificadora mental e processa-se.

Qual a razão de assumires este projecto individualmente, tanto o desenho como também a escrita?
Após terminar o Keeper decidi que era a altura de me desafiar e tentar atingir outro nível em termos criativos. Adquiri uma cintiq e dediquei-me a explorar o potencial que essa ferramenta traria para a minha arte e decidi que estava na altura de dar esse passo . Nunca tinha escrito nada, confesso que não me considero um escritor, sou um storyteller visual a 100%. Como tal foquei-me em produzir algo que fosse coerente e emocional para mim. Originalmente o plano era ir a Leeds com alguns prints e portfolio para mostrar mas isso seria uma repetição do ano passado e não uma evolução. Achei que estava na altura de fazer algo completamente meu acarretando os riscos e os privilégios que isso traz. O objectivo com este livro era testar-me, puxar os limites do que consigo desenhar, puxar por mim para atingir um novo patamar no que consigo fazer enquanto artista.

Como será a publicação deste trabalho? Já está alguma coisa definida? A mostra que pretendes fazer no festival Thoughtbubble também poderá influenciar esse aspecto?
Para já a publicação está inteiramente a meu cargo. Irei fazer uma tiragem pequena para venda e distribuição durante o evento e mais tarde, ainda este ano se tudo correr como previsto, terei uma versão digital tanto em inglês como em português.

Paralelamente à BD, tens também continuado a colaborar com a Kingpin no design dos cartazes do festival Anicomics. Consegues imaginar-te noutras áreas da ilustração ou a BD é mesmo o caminho a seguir?
Com certeza. Eu adoro design gráfico e ilustração e embora não seja a minha formação académica de raiz é algo que tento acompanhar, explorar e desenvolver por iniciativa própria.

Há alguma série de BD que queiras destacar ou aconselhar aos nossos leitores?
Vou fazer uma mistura: 3 séries que me marcaram e três actuais que acho que deveriam seguir. Mencionei o Morrison como o meu escritor favorito. Dele aponto duas obras que me marcaram profundamente: New X-Men e All Star-SupermanNew X-Men foi o meu início a sério nas edições americanas. Acompanhou a minha fase de transição da adolescência para a vida adulta e é de longe a melhor fase de sempre dos mutantes da Marvel e sim eu defenderei esta minha declaração contra todos os argumentos dos fãs da era do Claremont. All-Star Superman é a melhor história do Superman de sempre. Existe All-Star Superman e existem todas as outras histórias da personagem. É uma exploração incrível sobre a personagem e o que a faz ser fantástica, a arte é fenomenal, o número de ideias que nos é atirada é absurda e é a meu ver provavelmente a melhor história de banda desenhada que já li na vida. Para finalizar destaco A morte de Gwen Stacy – Amazing Spider-Man #121 e #122. Sei que pode parecer estranho mas eu li A Morte de Gwen Stacy quando tinha uns… 8 anos salvo erro. Foi absolutamente devastador. Na altura as histórias antigas eram editadas na Teia do Aranha da Abril e eu lembro-me perfeitamente de ler essa história e pensar que aquilo não podia estar a acontecer. O Homem-Aranha não a tinha conseguido salvar e isso para mim era impossível porque ele é o Homem-Aranha e ela era a namorada dele e nada daquilo fazia sentido para mim. Como é que ela tinha morrido?! Lembro-me da surpresa e do horror e da arte soberba do Gil Kane a mostrar a luta na ponte e mais tarde a morte do Duende Verde e os momentos finais de desespero do Peter Parker e a cena da Mary Jane fechar a porta e ficar com ele. Ainda hoje me arrepia. Em termos de livros que deveriam estar a ler, três recomendações rápidas: East of West de Jonathan Hickman e Nick Dragotta é um fabuloso épico de sci-fi/western numa América distópica que a meu ver é a melhor coisa que ambos já produziram a solo ou em conjunto. Saga de Brian Vaughan e Fiona Staples, embora não acredite que haja muita gente que não esteja a ler este título. A história de uma família que foge da guerra entre os seus povos, numa nave que é uma árvore, para criar a sua filha, com a ajuda de um fantasma teenager cor de rosa. Tudo na frase anterior é maravilhoso e toda a gente devia estar a ler isto. Southern Bastards de Jason Aaron e Jason Latour conta a história de uma cidade do sul dos estados unidos e de um velho que retorna para a ver completamente corrompida. Imaginem uma mistura entre o Gran Torino do Clint Eastwood com um filme dos Irmãos Coen. E violência. Muita e gloriosamente desenhada.

Previews de Solomon

Carlos Pedro

Carlos Pedro nasceu em Lisboa, Portugal em 1986. É ilustrador freelancer desde 2012, mas publica BD desde 2006. Formou-se em estudos arquitectónicos pelo IST e lê bd desde pequeno. Gosto de boa comida, boa bebida e mulheres bonitas.
Alguns dos seus trabalhos em Banda Desenhada incluem: Super Pig da editora Kingpin Books, Keeper da editora Atypical, e é o actual desenhador da série Fast And Frightening da editora Freaktown Comics.
Podem ver mais dos seus trabalhos no seu site oficial ou segui-lo pelo facebook, thumblr ou twitter @c_a_pedro.

Nota: originalmente publicado no Universo BD, em 12 de setembro de 2014.