Esta extensa entrevista inédita decorreu no final do Amadora BD 2013, sete anos após a primeira grande entrevista que realizei a Nelson Dona. Na altura, já estávamos a menos de 12 meses do 25.º Amadora BD. Certamente que muitas das questões que os aficionados de BD se têm colocado estes meses, encontrarão resposta aqui. Mas se novas questões se levantarem sobre o estado da arte no nosso país, ainda melhor. Tal como já tinha acontecido, Nelson Dona, o diretor do Amadora BD revelou total transparência nas suas respostas. Nelson Dona, o homem, ainda mais…

Nuno Pereira de Sousa: Na última entrevista que me concedeu, referiu que existia um envelhecimento do público que visitava o festival Amadora BD. Sete anos volvidos, a tendência mantém-se?
Nelson Dona: O Amadora BD tem tido a preocupação de contrariar essa tendência com o reforço da programação para gerações mais novas, quer com a ilustração infantil destinada à primeira infância, aquela que ainda não lê, quer com o trabalho efectuado nas visitas e nas oficinas destinadas aos mais novos. Por outro lado, houve outro reforço na programação das manhãs de sábado e domingo, em que reestruturámos o Amadora BD Júnior para que as visitas em família fossem agradáveis para todos os elementos, quer com actividades que permitem aos pais visitar o Festival enquanto as crianças participam no atelier, quer com actividades em que toda a família participa nas oficinas e/ou visitas. Relativamente ao Amadora BD, apesar de não existir uma diferença gigantesca, o público rejuvenesceu, o que nos parece particularmente importante, pois estamos a falar dos futuros leitores de banda desenhada.

NPS: As oficinas em família tiveram a adesão esperada?
ND: Nos primeiros anos, a actividade que era mais participada era “A Hora do Conto”. As oficinas não eram muito participadas e as visitas guiadas para toda a família tinham uma participação média. Hoje, passados sete anos, as manhãs de sábado e domingo têm uma grande afluência de público. No primeiro fim-de-semana de 2013, tivemos centenas de visitantes no período da manhã. O que quer dizer que, por um lado, estamos a dar resposta a uma vontade e necessidade do público, em que os pais e os avós procuram desenvolver actividades colectivas com os filhos e os netos. Por outro lado, pensamos que existe uma apetência para procurar livros para os mais novos. Sabendo nós hoje que se, em termos mundiais, a BD ainda não conseguiu reencontrar o modo de se posicionar editorialmente para as crianças e jovens dos 10 aos 14 anos, no caso da ilustração infantil não houve só uma grande mudança a nível europeu, mas a nível nacional houve uma mudança gigantesca. Os livros e autores portugueses de ilustração infantil têm uma relevância internacional muito grande, como é o caso da exposição que temos em 2013 da editora Planeta Tangerina, com autores que ganharam já os principais prémios mundiais e que, de alguma forma, mudaram o panorama editorial da ilustração infantil na Europa. Eu acredito que este trabalho permitirá aos editores reflectir sobre a pertinência de trabalhos específicos para a infância. Em 2013, já apareceram editores portugueses com livros específicos para a infância. Esse caminho está-se agora a percorrer. Vamos a ver como corre…

NPS: Para além das actividades dirigidas aos mais novos, quais foram as principais alterações que o Festival foi sofrendo desde que se começou a realizar no Fórum Luís de Camões?
ND: Podemos colocá-las a dois níveis. Um é a consolidação da própria programação com um trabalho cada vez mais estruturado do ponto de vista científico e da investigação que é feita para a maioria das exposições, em particular para as exposições temáticas do Festival. Em 2013, o tema foram os cenários e, em anos anteriores, tivemos a autobiografia, o humor, etc. Esse trabalho obriga cada vez mais a uma grande preparação científica e de investigação. E as exposições bibliográficas com peças do mundo inteiro são, de facto, exposições de grande dimensão e provavelmente irrepetíveis em termos internacionais. Não só porque essa investigação normalmente cruza a informação monográfica internacional sobre esse tema com aquilo que é Portugal e como Portugal se posiciona relativamente a isso, mas também porque parte das peças, principalmente aquelas que pertencem a colecções de museus, ao serem expostas na Amadora, durante algum tempo não podem ser expostas. Só para terem uma ideia, uma peça exposta durante um mês, não pode ser exposta durante um ano, devido aos efeitos da luz sobre a tinta. Nesse sentido, a Amadora passa a ser um momento único, quer pela leitura que os comissários propõem ao público relativamente a um tema, personagem ou autor, quer pelas peças em concreto, pois dificilmente estarão novamente reunidas e dificilmente serão novamente expostas em breve. Por outro lado, o Festival da Amadora decorre no Fórum Luís de Camões, num dos bairros mais populares da região de Lisboa. Antes da existência do Fórum e de toda a reabilitação, inclusivamente para as pessoas da Amadora, a Brandoa não era propriamente um gueto mas era um espaço sociogeograficamente distante do imaginário das pessoas que vivem na própria Amadora e dos que vivem em Benfica e Pontinha. Este tipo de eventos de grande dimensão, que trazem pessoas de outras localidades, permitem também em termos locais, nomeadamente Alfornelos e Brandoa, mas também em termos regionais, nesta zona entre Benfica e a Amadora, perceber que muitas vezes os mitos gerados em torno de alguma instabilidade ou de insegurança de determinadas áreas da Grande Lisboa, não passam de mitos urbanos, porque as pessoas que aqui vivem são pessoas como as de outro sítio qualquer. Este projecto tem paralelo com aquilo que se está a fazer, por exemplo, na Mouraria e noutros locais. Passados sete anos, é com bastante satisfação que nos apercebemos que a existência deste Festival neste espaço físico é uma presença já apropriada pelas próprias pessoas desta zona e que tem alguma relevância do ponto de vista económico. O facto de virem cerca de 30 mil pessoas durante 17 dias a esta zona gera movimento a nível dos restaurantes e do pequeno comércio. Outra diferença nestes sete anos, que considero ser uma diferença-chave, não apenas no Festival da Amadora mas cada vez mais nas grandes instituições culturais portuguesas e internacionais – o facto do nosso papel enquanto agentes culturais deixar de ser o palco de apresentação de obras e artistas para passar a ser o de mediadores entre essas obras e esses artistas e o público. E esse trabalho não é assim tão simples e tão fácil de concretizar. Até um determinado momento, os visitantes dos eventos culturais iam lá ver o que lhes era proposto. Os artistas expunham as suas obras, apresentavam os seus concertos, etc. E o público estava exposto, de forma isolada e autónoma, a essas obras de arte. Cada vez mais, um serviço público tem outras preocupações. Em vez da oferta que nós propomos ao público ser expor o público às obras, é sim a de mediar, de podermos levar uma informação suplementar ao público, seja como foi o processo de criação daquela obra, o que é que aquilo significa para o artista ou que interpretações já houve relativamente àquelas obras. Isto é um trabalho particularmente complicado e delicado de fazer, pois não queremos que a fruição primária da obra de cada leitor possa ser de tal forma influenciada pela leitura de outros, neste caso pela nossa ou aquela que vinculamos, que estrague o prazer e o interesse da fruição de uma obra de arte. Isso ainda é mais importante quando estamos a falar de banda desenhada, ou seja, de livros. E estando a falar de livros, esta mediação é tanto mais importante como delicada, porque o livro implica uma intimidade, inclusivamente física, mesmo que estejamos a falar do tablet, entre o leitor e a obra que está a ser lida. E essa intimidade não acontece no espaço do Festival. Ou também acontece porque nós fazemos questão de ter os livros expostos, para as pessoas poderem ler aqui ou experimentar ou, pelo menos, passar os olhos sobre as páginas. Mas o Festival não faz isso. O Festival explica como se chegou àquele livro. E eu acho que é esse trabalho que faz uma diferença fundamental do Festival de agora e do percurso que vamos fazer no futuro.

NPS: Há sete anos atrás, dizia-me que não existiam livros em português e que era importante tê-los no Festival em inglês ou francês para os visitantes tomarem contacto físico com eles. Mantém a mesma postura?
ND: O panorama editorial português está em constante mudança. Passou pela concentração em grandes grupos. Isto implicou que existissem determinados espaços e áreas artísticas que não tivessem eco editorial. Nasceram pequeninas editoras, onde, bem como em editoras maiores como a Devir e a Bertrand, foram editadas obras que não são tão conhecidas do grande público. Há um fenómeno em Portugal, que é a edição ou reedição de obras de autores internacionais particularmente interessantes. Portanto, no que toca ao acesso ao livro em português é cada vez mais evidente. E o acesso ao livro em português poderá ser feito através dos livros brasileiros, havendo tradução de livros diferentes dos que se editam em Portugal. Mas é evidente que continuam a existir livros que não são publicados em português; hoje em dia, cada vez menos os livros americanos e ingleses; cada vez mais, os livros noutras expressões, incluindo a francesa, porque a cultura anglo-saxónica domina completamente o mundo do ponto de vista cultural. Por isso, essa presença é importante para nós que exista. Mas sempre como alternativa. Se existe o livro em português, nós apresentamo-lo em português. Se não existe, ele é apresentado na língua original ou, quando é relevante, como no caso de “Portugal” em 2012, escrito e desenhado por um autor descendente de portugueses mas que não fala português, na língua original e em português. Era muito importante perceber como é que uma obra daquela envergadura e onde o trabalho narrativo expresso no argumento, desenhos e nas próprias letras joga com o português e o francês, tinha sido transposto para uma obra totalmente em português. Outra situação é quando as edições são muito diferentes entre si. E isso não quer dizer que a edição portuguesa seja pior que a estrangeira. Existem muitos casos em que as edições portuguesas são mais interessantes que as edições originais. E também existem casos ao contrário… Por vezes, é interessante mostrar o contraste editorial.

NPS: Em que medida é o Amadora BD um festival internacionalmente reconhecido?
ND: Se há sete anos isso já era um sinal importante, hoje posso dizer sem nenhum pudor ou falsa modéstia, que está absolutamente firmado em termos nacionais como um dos grandes eventos culturais que se realiza em Portugal anualmente, não esquecendo que é um dos eventos mais antigos com periodicidade constante e contínua. Foi realizado todos os anos. Infelizmente, há poucos assim, como é o caso do Festróia e a Bienal de Vila Nova de Cerveira. Por outro lado, do ponto de vista internacional, o Festival da Amadora marca o calendário internacional de eventos dedicados à nona arte. E esse calendário é, em primeiro lugar, europeu. Do ponto de vista europeu, a Amadora está muito bem posicionada e não é por acaso que em 2013 conseguimos ter exposições como a do Spirou e de outros cantos europeus, em que trabalhamos com os melhores museus e coleccionadores internacionais. Mas, devido à importância dessa referência europeia, também temos em 2013 uma exposição, por exemplo, de São Francisco. A exposição do Super-Homem vem quase toda do Museu de São Francisco. Parece-me que o próximo passo que a Amadora tem que dar é um passo de afirmação internacional na lusofonia. Nós já demos alguns sinais disso. Em 2013, temos uma exposição de artistas brasileiros e noutros anos já fizemos exposições de cruzamentos de autores africanos, brasileiros e portugueses. Mas eu acho que, cada vez mais, o posicionamento de Portugal em geral, e do festival da Amadora enquanto o local da banda desenhada em Portugal, é que a banda desenhada de expressão em língua portuguesa, seja africana, asiática, brasileira ou portuguesa, possa ter no Festival uma base de encontro importante. O Festival da Amadora sempre foi conhecido por ser um ponto de encontro de autores internacionais, de autores portugueses com autores internacionais e do público com todos os profissionais de banda desenhada. Eu penso que também temos de caminhar para que esse ponto de encontro seja simultaneamente lusófono, da língua portuguesa e do que é a banda desenhada em língua portuguesa.

NPS: O facto do Festival ser organizado por um organismo público local impede ter como um dos objectivos atrair público estrangeiro para a visita de exposições que não estarão novamente disponíveis a curto prazo a nível mundial?
ND: Não se trata tanto de não ser um objectivo mas da capacidade de concretizá-lo. O Festival é organizado pela Câmara Municipal da Amadora, o único suporte financeiro, visto que não existem patrocinadores. Aquilo que é determinante para a Câmara Municipal são dois níveis de público. Primeiro, o público local. Estamos a trabalhar para que os habitantes da Amadora sintam o Festival como seu e o incorporem nas suas actividades anuais. Por outro lado, que na Área Metropolitana de Lisboa seja um evento de referência. Nós já começámos a trabalhar esta questão mas infelizmente isso não foi possível em 2013 devido a uma série de constrangimentos. Quanto à questão financeira, reduzimos substancialmente o orçamento. Mas as questões legais e administrativas tiveram um peso ainda maior. Podíamos estar a trilhar um caminho de modo a criar suportes com o Turismo de Portugal para que o Festival fosse um factor de atracção para a Grande Lisboa. É um caminho a trilhar no futuro, não esquecendo que a Amadora tem a conotação do ponto de vista simbólico e psicológico da Região de Lisboa não-residente na Amadora de uma imagem de suburbanidade total. Não sendo já uma cidade dormitória, mantém-se essa imagem, apesar da Amadora ter uma actividade económica importante e ser um centro de emprego para muitos habitantes da Região de Lisboa, incluindo da cidade de Lisboa. Por outro lado, a cidade também tem uma imagem de insegurança, que não corresponde à realidade. Como em todo o lado existem problemas, existem bairros problemáticos, principalmente na franja entre Lisboa e Amadora, aquilo que foi durante muito tempo território de ninguém, a antiga Estrada da Circunvalação. Essa desmistificação não é evidentemente um trabalho do Festival mas sim da Cidade. Mas o Festival da Amadora contribuiu muito porque as pessoas que querem vir ao Festival, ao entrar na Amadora percebem o que é a cidade. Do ponto de vista estratégico internacional, a questão é muito pertinente, porque me parece que é um dos caminhos que podemos percorrer, até pela própria génese da cidade da Amadora. A cidade da Amadora nasce no século XX pelo cruzamento de pessoas vindas de todas as regiões portuguesas mas, a partir do 25 de Abril, começa a receber pessoas do mundo inteiro. Cada vez mais, Lisboa e a Amadora são cidades cosmopolitas, com uma população heterogénea do ponto de vista geográfico e, portanto, faz todo o sentido que isso possa ser potenciado.

NPS: Na entrevista que me concedeu há sete anos, a propósito da divulgação com antecedência da informação respeitante ao Festival, o Nelson Dona mencionou que o Festival era organizado por um organismo público com regras muito específicas e que, por outro lado, não havia interesse em divulgar informação não confirmada para não gerar falsas expectativas, mas que iriam tentar resolver essa questão. Presumo que essa informação antecipada potencia a afluência de público não-residente na Amadora nem na Área Metropolitana de Lisboa. Em 2013, a questão não está resolvida. Qual é a solução para este problema?
ND: Em 2013, demos um passo atrás. Nos últimos sete anos, esse factor foi particularmente melhorado, mas em 2012 e 2013 demos um ou mais passos atrás. E aqui a questão não se coloca especificamente sobre a Câmara Municipal da Amadora. As restrições administrativas e burocráticas, que nos obrigam quer a tomar decisões quer a percorrer determinadas etapas do ponto de vista administrativo, implicam também com a comunicação. A Câmara não tem equipa na área da comunicação para trabalhar o Festival, tendo de contratar esses serviços a terceiros. Para ser mais concreto, estamos a falar dos procedimentos administrativos de adjudicação, que envolvem quer o artista que elabora o desenho do cartaz, quer a equipa de criativos que esse mesmo artista integra, quer as empresas que produzem os cartazes, os sites, etc. Os constrangimentos legais que nos são colocados são de tal ordem que se despende imenso tempo a tratar dos mesmos. No limite, poderíamos colocar na internet informação mais abrangente e sem imagem para falar sobre o Festival. Mas do ponto de vista legal, isso também não é simples. Além disto, 2013 foi um ano de eleições e mudança de executivo. Houve uma opção da parte do executivo da Câmara, que acho honesta, de não imiscuir este grande evento da cidade com a campanha eleitoral. As eleições foram a 29 de Setembro e só a partir de Outubro é que começámos a divulgar o Festival. Por outro lado, o Orçamento de Estado criou restrições de tal forma quer à área da promoção e comunicação de todas as actividades das entidades públicas quer especificamente a viagens, confundindo viagens de membros do Governo – e aqui também é necessário verificar se há alguma demagogia ou não, porque há viagens que têm de ser feitas – com as viagens dos convidados dos artistas do Festival. Tivemos uma dificuldade gigantesca para podermos comprar as viagens dos nossos convidados. E sem convidados, não há programa. A comunicação e as deslocações são duas das áreas em que o Orçamento de Estado, provavelmente sem perceber as consequências no terreno, cria restrições absolutamente castradoras, ao ponto de existirem projectos de algumas entidades em Portugal que não podem gastar neste momento um cêntimo em publicidade. E nalgumas estruturas, a publicidade paga mistura-se com promoção, o que coloca alguns projectos em causa. No nosso caso, há uma postura de impossibilidade legal de anunciar informação mais cedo, a opção de não o fazer mais cedo devido ao ano de eleições, e uma outra opção, que tem as consequências evidentes a nível de público e de crítica por parte dos divulgadores de banda desenhada, que foi a de não divulgar aquilo que não temos a certeza que vá acontecer. Até Junho de 2013, havia uma opção política clara da Câmara Municipal da Amadora que o festival ia ser realizado. Não havia nenhuma dúvida por parte do executivo que o Festival ia ocorrer e os técnicos tinham essas directrizes. Mas existiam dúvidas técnicas que o conseguíssemos concretizar. Foi preciso estudar do ponto de vista legislativo, num trabalho realizado por juristas e colegas da área administrativa da Câmara Municipal em conjunto comigo, como se iriam concretizar todas as adjudicações necessárias para se concretizar o Festival.

NPS: Nesse cenário, que informação poderia ter sido anunciada com maior antecedência?
ND: Podíamos ter anunciado as exposições dos prémios, que já eram conhecidos desde o ano passado. Mesmo nesse caso, a exposição do Craig Thompson não se concretizou. É que há outro tópico que eu ainda não abordei – o facto de existirem autores que nos pedem apenas para confirmar em Setembro ou em Outubro. O Craig Thompson, por exemplo, tinha tudo confirmado, até Junho, inclusivamente que estaria presente. Em Setembro, disse-nos que provavelmente não conseguiria vir. Em Junho, ele já tinha dito que estava muito cansado, por andar a viajar há dois anos, e que se queria concentrar na família e no trabalho durante algum tempo. Ele deixou de ser contactável, quer por nós, quer pelo comissário da exposição, o Paulo Monteiro, até Setembro. Mas isto é uma excepção. No entanto, muitos dos autores internacionais pedem para confirmarmos apenas em Setembro e Outubro, dependendo do seu calendário editorial. Com maior antecedência é possível anunciar as exposições dos prémios, as dos autores portugueses e algumas das exposições de efemérides. Por exemplo, na exposição do Super-Homem tínhamos tudo tratado para a realizar mas havia a questão se conseguíamos ou não trazer a exposição. Do ponto de vista temático, houve uma série de ideias e de projectos que foram trabalhados e não foi possível concretizar. Havia a dificuldade em encontrar este equilíbrio entre poder comunicar algo que seguramente vai ser realizado e, por outro lado, a necessidade de publicar publicamente que o Festival ia acontecer. O que eu acho que pode ser melhorado em 2014? Algo que já estava a ser feito nos anos anteriores. Garantir que o festival vai ser realizado em determinadas datas, com um mínimo de programação que é expectável, sempre com a salvaguarda de que há convidados que ainda não confirmaram a presença. De qualquer modo, um programa provisório é algo muito perigoso. A maioria das pessoas esquece o termo provisório e comenta que afinal não se cumpriu o programa.

NPS: Acredita que a formação base em arquitectura continua a ser importante na organização do Festival?
ND: Isso está tão distante! Após a formação em arquitectura, fiz uma formação em gestão cultural. Penso que essa formação em gestão cultural é aquela que tem mais peso. Obviamente, que a sensibilidade artística é muito importante. Da arquitectura, eu não tiro tanto a questão espacial, que me permite poder controlar e acompanhar de forma mais directa as equipas de arquitectos e cenógrafos que trabalham todos os anos para o Festival, mas sim a formação artística, quer anteriormente na Escola Secundária Artística António Arroio quer na Faculdade de Arquitectura. Essa sensibilidade artística é muito importante para saber que ao estarmos a tratar assuntos burocráticos, administrativos e financeiros, todos eles têm um objectivo final, que é chegar a um objecto cultural, um objecto artístico, que nós mediamos directamente ao público.

NPS: O que nos pode contar dos planos futuros, a curto e médio prazo, sobre o Festival?
ND: Se estamos a falar de programação, a dos próximos anos está pensada, na sua base. Temos um plano A e um plano B para 2014, inclusivamente em termos de temas. Não o tornamos público, porque ainda estamos a trabalhar nesse sentido. Em termos de programação, nós sabemos o que vai ser feito. A grande dúvida é qual é o posicionamento do Festival quer na cidade quer na Área Metropolitana de Lisboa. E esse posicionamento, que se prende também com questões financeiras, é aquilo que temos de trabalhar de forma ávida porque os recursos não podem ser os mesmos. É preciso não esquecer que as autarquias tiveram uma redução substancial das receitas nos últimos 5 anos, na ordem dos 20%. E estamos a falar de uma Câmara Municipal que nunca teve dívidas, não teve intervenção do Tribunal de Contas e teve sempre a possibilidade de fazer orçamentos sustentáveis que não têm a intervenção de terceiros, sendo totalmente autónoma nas suas decisões. Mas, para tal, teve de encontrar soluções financeiras para dar resposta àquilo que considera serem as suas prioridades em termos de missão. A grande questão, que implica reflexão para o 25.º Festival, é qual é que é a missão do Festival em três prismas, para o mundo editorial da banda desenhada do ponto de vista artístico, na cidade da Amadora e em Portugal. Também por questões financeiras, mas não só. Infelizmente, não existe uma concorrência evidente ao Festival da Amadora em Portugal. Existem concorrentes efectivos muito importantes, com quem nós temos parcerias, mas não nas grandes Áreas Metropolitanas. Poderia existir na Área Metropolitana do Porto, como já aconteceu com o Salão do Porto. Estamos a falar de Beja, em primeiro lugar, um festival extraordinário do ponto de vista artístico mas com objectivos completamente diferentes dos da Amadora, pelo que não existe uma concorrência directa. E depois temos outros eventos com menor dimensão mas igualmente importantes, quer pela sua longevidade, quer pelo trabalho feito anualmente. Estamos a falar de Moura e Viseu, apenas para citar os mais importantes. Existe também Sobreda, mas de muito menor dimensão. Isto deixa-nos um papel muito difícil, o de gerir as expectativas sobre o nosso trabalho, às quais nunca teremos capacidade de dar resposta. Quer os autores, quer os editores, quer principalmente o público mais aficionado de banda desenhada tem como expectativas sobre o Festival da Amadora que podemos fazer tudo aquilo que eles desejariam, o que não é possível. Quando existe concorrência, existe a possibilidade de uns se dedicarem mais a isto e outros àquilo. No caso da Amadora, a opção foi sempre ser um Festival generalista, dedicado a todos os tipos de banda desenhada. Essa capacidade de oferta é limitada aos nossos recursos e à nossa capacidade física e temporal de executarmos projectos. O nosso grande desafio para o 25.º Festival e para o futuro é repensar qual é a nossa missão enquanto evento dedicado à nona arte, na Amadora e em Portugal, e também o que significamos nós para a nona arte.

NPS: Está-me a dizer que um futuro possível seria o Amadora BD ser encarado oficialmente como um evento nacional e não local?
ND: Isso é uma decisão política, que teria de ser tomada pelo executivo da Câmara. E as decisões políticas também se baseiam no trabalho e nos pareceres técnicos. Se isso for uma hipótese, não será nenhuma novidade. Isso já foi tentado pelo anterior director do Festival e por mim muitas vezes. Nunca foi possível. E acho que na actual conjuntura em que vivemos ainda mais difícil se irá tornar. Mas acho que a dimensão do Festival da Amadora e o que a Câmara Municipal da Amadora conseguiu oferecer ao longo destes anos todos, bem como as solicitações que recebemos de entidades da Grande Lisboa e de fora de Lisboa para participarem com actividades que não têm lugar necessariamente na Amadora, leva-nos a reflectir se este evento não tem já essa dimensão metropolitana. Se tem já essa dimensão metropolitana porque não haver, tal como acontece noutros pontos da cidade da Amadora – a Casa Roque Gameiro, a Galeria Municipal Artur Bual, os Recreios da Amadora e o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem – actividades que não na Amadora? Em 2012 fizemos, por exemplo, exposições em Lisboa, no Goethe Institute e no Instituto Francês. Em 2013, temos exposições na Faculdade de Belas Artes e na António Arroio. Já fizemos, em anos anteriores, exposições em Sintra, em Almada e noutros locais. Possivelmente, esta dimensão metropolitana poderá ser trabalhada e existirem eventos que decorram na região da Grande Lisboa durante o Festival da Amadora e, eventualmente, noutros locais também – em Beja, por exemplo, com quem temos uma óptima relação, no Porto, etc. E este é um caminho em que nós queremos trabalhar. Vamos ver se temos condições para o fazer. Não sendo a nossa prioridade absoluta, é algo que nos parece importante, ainda mais num 25.º aniversário. O Festival fará um quarto de século e eu acho que não há nada melhor para frisá-lo do que a presença física do Festival noutros sítios, porque o Festival da Amadora não é fisicamente algo que acontece apenas na Amadora. Aliás, nem na Amadora do ponto de vista geográfico, nem no período dos 17 dias do Festival, porque muitas das exposições que nós fazemos têm posteriormente itinerância pelo país e também em termos internacionais. Nós levamos autores portugueses e livros portugueses ao estrangeiro e a fazer itinerância em Portugal, o que quer dizer que o Festival, sem ter uma política e uma programação estruturada nesse sentido, já, por si, faz esse trabalho. Aquilo que vamos reflectir é se isso pode ser estruturado enquanto programação coesa.

NPS: Qual a sua opinião sobre os diferentes modelos de atribuição dos prémios no Festival?
ND: Não há nenhum sistema perfeito. O sistema que estamos a utilizar é o sistema que já utilizávamos anteriormente, com uma diferença. Inicialmente, existia um júri que escolhia, chegava a uma conclusão e fazia uma proposta de prémios em concreto. Mudámos para um outro modelo, em que existia um júri de nomeação, o qual nomeava 5 álbuns em cada categoria e os profissionais de banda desenhada votavam nesses 5 álbuns nomeados. Agora, temos um sistema que ainda não está totalmente afinado e que acho que tem de ser também revisto, em que existe um júri que nomeia 5 álbuns em reunião colegial e posteriormente, a título individual, cada um vota num dos nomeados. Em todas as circunstâncias, o prémio só é conhecido não no início mas a meio do Festival. A grande desvantagem do sistema que tínhamos até 2012, é que, apesar de tornar mais democrática a votação, a participação era muito reduzida. A representação efectiva dos profissionais de banda desenhada era muito diminuta. Quando existe uma crítica sobre não existir a possibilidade das pessoas participarem e votarem, sendo isso cada vez mais relevante com a internet, o que é um facto é que a maioria das vezes, quando as pessoas são convidadas a participar, não participam. E nós questionámos a efectiva legitimidade dos resultados em função da pequena participação. Por pequena não se entendam 2 ou 3 mas, num universo de 1000 pessoas, digamos que 10% não é muito. Era mais que 10% mas não seria muito mais. Por outro lado, há outra questão – as pessoas votam naquilo que conhecem. Há livros, como por exemplo “O Baile”, que ganhou este ano, que muito dificilmente teria sido premiado neste sistema, porque a tiragem foi muito reduzida e muitas das pessoas não teriam acesso a ler o livro. Estas são as duas principais razões que nos levaram a equacionar a alteração. Preferimos o sistema actual porque este júri tem, de facto, uma cara. Nós sabemos que estas pessoas são as culpadas daquelas decisões, para o bem e para o mal. Tem uma grande desvantagem. Por um lado, o prémio não é tão popular, na medida em que não é possível a participação de todos os profissionais. Se antes eram convidados a participar e não participavam, agora já nem sequer existe essa possibilidade. E tem outra questão, que é o número de jurados, o qual é relativamente pequeno. Pode haver coisas que os jurados não conheçam. Não existem sistemas perfeitos. Vamos tentar afiná-lo, de modo a que, quer a recolha das obras ao longo do ano, quer a composição do júri em si, possa trazer mais certezas aos prémios que são escolhidos. A responsabilidade do júri actual é substancialmente maior. Temos também o prémio da juventude que é escolhido pelos jovens de uma escola da Amadora. Já colocámos a hipótese de existir um prémio alargado ao público visitante, entre os álbuns nomeados ou somente os premiados. É legítimo fazê-lo porque poderiam ler confortavelmente os livros e depois participar. A grande questão é se os lêem ou se vão apenas olhar. Por exemplo, “O Baile” é um livro que, sem ler a história, provavelmente não tem a relevância e profundidade que aquele livro propõe. Se pensarmos noutro livro que estava nomeado, o “Palmas para o Esquilo” do David Soares e Pedro Serpa, é um livro muito complicado e que quando nós olhamos para ele pensamos “oh, é mais um livro desta dupla, não é?” No entanto, o tema que eles propõem é muito difícil e está feito de uma forma exemplar. Inclusivamente, como nenhum jurado sabe em que livro cada um dos outros votou e desconhece o resultado das votações até ao final, tivemos alguma pena que não tenha ganho nenhum prémio. É uma injustiça. Mas é um livro que implica lê-lo, ou não se entende a sua relevância. Ou podemos falar de outros álbuns na área autobiográfica, como foi o prémio do álbum estrangeiro, em que os desenhos não são nada do outro mundo. Também ali, a narrativa é determinante. Quem vá só abrir o livro, é capaz de afirmar que os desenhos não são espectaculares, não são como os do François Schuiten, não têm a clareza do Ricardo Cabral. O prémio dos visitantes é algo muito popular mas tem de ser pensado de modo a responsabilizar quem vota. Já um prémio do público pela internet, apesar de ser possível, tem de lhe ser dado o valor que tem. Nós não sabemos se há uma pessoa que vota 50 vezes, por muitos sistemas informáticos em que nós possamos registar de onde é que vem. Pode haver alguém que só vote numa coisa que conhece. Uma das grandes diferenças do público actual do Festival da Amadora, mas também dos públicos culturais em geral, é que não existe um público que goste de cinema, nem existe um público que goste de banda desenhada. Há uma segmentação brutal. Se há 7 anos já falámos disso, hoje é uma evidência total. Uma boa parte das pessoas que gostam de manga, não gostam de mais nada, nem sabem que o resto existe. Um universo muito diferente que é, por exemplo, o do Tex, é semelhante. Nós tivemos, e chamo com carinho, freaks, ou seja fãs incondicionais do Tex que vieram de propósito do Brasil, da Holanda ou de Inglaterra para ver a exposição e para estarem presentes com os autores do Tex na Amadora, mas que não sabiam que existia um senhor chamado Moebius, que não sabiam quem era o Will Eisner… Portanto, os públicos são absolutamente segmentados e, dentro daquele género ou dentro do universo daquela personagem, como é o caso do Tex, ou, de uma forma mais generalista, quem lê Tio Patinhas e não lê mais nada, sem nenhum desprimor para a Disney, vão votar só naquilo, porque é aquilo que conhecem. Nós nunca pensámos seriamente sobre um prémio do público mas tem que ter o valor que tem e isso tem de ser entendido publicamente.

NPS: Quais são os eventos periódicos relacionados com a BD a nível mundial, a que, se pudesse, nunca faltaria?
ND: Eu não posso faltar a Angoulême. Não é que nalguns anos não dispensasse. Mas do ponto de vista europeu, Angoulême é o ponto de encontro internacional entre os europeus e também com muitos americanos, japoneses e, actualmente, muitos chineses. Do ponto de vista profissional, torna-se fácil estabelecer esses contactos. É verdade que não é o ponto de vista artístico a razão principal porque vale a pena ir ao Festival de Angoulême, porque as exposições mais importantes decorrem no Museu ou nos espaços permanentes que se encontram na cidade. Durante a Primavera, poder-se-á visitar as exposições de forma muito mais tranquila. Mas também é verdade que, pontualmente há exposições que decorrem apenas durante o Festival. Mas a grande razão da ida a Angoulême é uma razão profissional para realizar contactos com artistas, editores e demais profissionais do mundo inteiro. Eu destacaria, por razões muito diferentes, três outros eventos europeus. Em primeiro lugar, o Festival de Nápoles, que é muito interessante do ponto de vista artístico. E ainda o Festival de Lausanne e o Festival de Erlanger, perto de Munique. São os que têm maior relevo artístico e se relacionam mais com a atitude e a postura que o Festival da Amadora propõe – um evento cultural e não um evento predominantemente comercial. Do ponto de vista comercial, é absolutamente incontornável Lucca e Barcelona. Fora da Europa, é importante destacar San Diego. Eu não sei se para a banda desenhada é muito lisonjeador e muito interessante porque actualmente mais do que evento bedéfilo é um evento completamente dominado por Hollywood e as personagens da Marvel e DC de que Hollywood tomou conta. O Festival MoCCA, em Nova Iorque, é cada vez mais interessante, estando no Amadora BD 2013 o seu director. Não se confunda com a convenção de Nova Iorque. Não nos podemos esquecer que muitas das convenções nos EUA são praticamente feiras do livro ou grandes feiras onde se vende tudo e também livros. O Festival MoCCA é mais artístico. No Brasil, o bienal Festival de Belo Horizonte continua a ser a grande referência em termos de quadrinhos e um dos mais importantes em termos internacionais.

NPS: Tanto o Paulo Monteiro quanto o André Diniz falaram de um evento em Nova Olinda nos seus livros e o nome do Nelson Dona surge citado. Qual a sua impressão do evento?
ND: Foi uma experiência única da vida, irrepetível para nós todos que lá estivemos e penso que irrepetível também para outras pessoas que possam lá estar num contexto idêntico ao que nós estivemos, por diferentes razões. Em primeiro lugar, nós todos – o André Diniz esteve em Portugal e estivemos os três juntos; mas também já me encontrei em circunstâncias diferentes com outras pessoas com quem estive em Nova Olinda – quando nos encontramos, existe um sentimento de irmandade de cidadãos adoptados do Cariri. O Cariri é a região onde está Nova Olinda. Nós brincamos um pouco mais com o nome de Cariri, o qual tem uma certa piada. É preciso perceber que nesse encontro de quadrinhos em Nova Olinda, não estiveram apenas pessoas da área dos quadrinhos, mas também da música, do cinema de animação e do teatro. Eles fazem um trabalho pluridisciplinar e em cada ano há uma arte que estrutura e é o fio condutor de toda a actividade. Noutro ano, será o teatro, noutro ano será a música, mas naquele ano foi a banda desenhada. Por outro lado, aquele projecto é um projecto de desenvolvimento social numa zona particularmente difícil do Brasil, um interior muito, muito, muito pobre, com problemas sociais gravíssimos, muito diferentes dos problemas que nós conhecemos nas grandes cidades brasileiras, como o Rio de Janeiro ou São Paulo. Estamos a falar de uma miséria urbana, de uma pobreza extrema do interior, no fundo com algumas circunstâncias parecidas com algumas situações de algumas aldeias do interior português. Estamos a falar da desertificação, a falta de recursos, a falta de instrução, o papel desempenhado por cada um na sociedade, que é muito estratificado em termos sociais e socioeconómicos, incluindo a diferença de género. As meninas até há pouco tempo, estudavam até aos 14 anos e depois tinham de aprender a lida da casa. E outro dos problemas graves daquela região é o alcoolismo, que mais recentemente se transformou no consumo de droga. Estamos a falar também de um dos locais que, do ponto de vista patrimonial, é dos mais antigos do mundo e que tem uma raiz cultural interessantíssima, quer desses tempos ancestrais da História do Homem e da Terra – do ponto de vista geológico, é também uma zona muito importante – quer do cruzamento entre várias culturas, nomeadamente a portuguesa e europeia com a índia e, em menor grau naquela região, a africana. Existem ainda populações índias naquela região, completamente distintas dos índios da Amazónia. Este projecto da Fundação da Casa Grande, através das artes e do património, quis garantir a possibilidade de acesso a competências às crianças e jovens daquela cidade, enquanto factores de diferenciação e de identidade, porque outro dos problemas é a baixa auto-estima. Retira-os de ambientes de alcoolismo e consumo de droga, sem os retirar das famílias e fazendo as famílias participarem nesses projectos. Depois, passa pelo ganho de competências e qualificação a nível lectivo, em áreas de produção artística, como a gestão cultural, produção de eventos ou a comunicação, entre outros. Criam inclusivamente serviços que são as crianças e jovens que os prestam, conseguindo a angariação de meios para os seus próprios projectos, quer de vida quer artísticos. E hoje, com o desenvolvimento do projecto, é também projecto de turismo cultural. É uma cidade que fica nos confins do mundo. Quando fui convidado, tive dificuldade em perceber onde se localizava e praticamente não possuía informação sobre o Cariri, o nome indígena daquela região. Nesse turismo cultural, um dos fins é cruzar os locais com os turistas. Decidiram não construir um hotel mas sim dotar a população com competências para receber nas suas próprias casas os turistas – foram atribuídos subsídios para a construção de quartos ou anexos – os quais têm pensão completa e comem nas casas dessas famílias. Isto permite, por um lado, uma clara diferenciação turística relativamente à oferta e, por outro lado, que os turistas conheçam as pessoas daquela região. Mas também permite outra coisa – a abertura de horizontes para a população local. O facto de pessoas de outros sítios do Brasil ou do Mundo irem ao Cariri, a Nova Olinda, para casa dos locais, faz com que as pessoas de Nova Olinda possam conversar com elas, perceber outras coisas que se fazem no Mundo, e qualificar do ponto de vista de competências os jovens e as suas famílias. Foi um momento extraordinário e ao qual voltarei com muito gosto. Mas acho que vou voltar a outra coisa. Foi irrepetível. E quero que o meu filho conheça a experiência daquelas pessoas e daquelas crianças em particular.

nota: as imagens foram gentilmente cedidas pela autarquia.