papaPara os que (ainda) não ouviram a 27.ª emissão do programa radiofónico Bandas, eis a apresentação de Papá em África de Anton Kannemeyer, uma das obras a figurar nas melhores LeR de setembro.

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Eis a sinopse da editora MMMNNNRRRGG:
Anton usa muitas vezes o pseudónimo de Joe Dog, criado em 1992, para assinar BDs, porque ouvia música punk e entrou naquele esquema do pseudónimo podre, como é hábito dessa subcultura. Além do mais, nesse mesmo ano juntamente com Conrad Botes (que nos visitou recentemente numa exposição na Fundação Gulbenkian) tinham criado revistas de BD bastante polémicas na África do Sul. A dois anos antes do fim oficial do Apartheid, um pseudónimo sempre ajudava a ter menos problemas com a sociedade africânder. O título mais famoso foi o Bitterkomix, onde Joe Dog e Botes faziam BDs que chocavam os africânders e os supostos liberais ingleses, denunciando a loucura ideológica e religiosa do Partido Nacional, perito em segregação racial e deseducação sexual e colocavam em questão a identidade do sul-africano, especialmente a do homem branco. Não será à toa que o artista Joe Dog tenha colaborado com os Die Antwoord, também eles iconoclastas com os códigos de identidade naquele país. Papá em África é uma crítica à dominação racial e colonial que atravessa, ainda hoje, em pleno pós-apartheid, a sociedade sul-africana, mostrando como certas estruturas sobrevivem à destruição dos quadros legais que lhes deram origem. Mas não se enganem, não vão encontrar na obra de Anton, caminhos ou sonhos para uma “nação arco-íris”; nem é oferecida nenhuma reinvenção do lugar do negro na BD ou alguma espécie de “herói” negro da resistência que pudesse ser “voz” da população negra sul-africana, de que Anton, aliás, na realidade não faz parte nem tem a pretensão de ser. O objectivo central de Papá em África é pontapear com escárnio e pontaria certeira a hipocrisia e a (má) consciência da África do Sul branca, num pós-apartheid lobotomizado. Anton sampla e crítica corrosivamente o imaginário colonialista e racista, como aquele oferecido por Hergé em Tintim no Congo (1931), álbum que Anton admite ser a sua Bíblia visual, onde volta sempre para sacar mais uma imagem ou uma sequência narrativa.

nota: a imagem foi gentilmente cedida pela editora.