A minha contribuição para a celebração da Disney Comix #100 foi a seleção da banda desenhada Mickey e a Viagem Surreal no Destino (Topolino e il surreale viaggio nel destino) de Roberto Gagnor e Giorgio Cavazzano. Apesar do diminuto número de páginas (apenas 20), esta pequena história contém uma grande História, maior do que ela própria.

Publicada originalmente em 2010 na Itália, aprecie-se este pequeno trailer, antes da apresentação da mesma:

Deste modo, sete anos após a estreia mundial da curta-metragem Destino, foi publicada esta banda desenhada, a qual recriava o encontro de Walt Disney e Salvador Dalí nos EUA. Aliás, a abrir a Topolino 2861, a autora Silvia Zichie não deixava passar este momento sem o retratar na sua subsérie Che aria tira…, onde o Pateta faz considerações sobre o surrealismo, enquanto apresenta aos leitores a pintura A Persistência da Memória de Dalí.

Não deixa de ser curioso que, apesar de ambientada na década de 40 do século passado, os autores da banda desenhada tenham optado por trajar os três protagonistas com um visual próximo dos anos 30. Já a colorização, a cargo do Kawaii Creative Studio, é um elemento importante na distinção entre o visual retro dos anos 40 e as cores vivas das obras de Dalí.

Além da curta-metragem Destino, muitas outras obras de Dalí são evocadas ao longo da banda desenhada, como o telefone-lagosta, o sofá-lábios de Mae West ou as pinturas A Metamorfose de Narciso, A Tentação de Santo AntãoSonho causado pelo voo de uma abelha ao redor de uma romã um segundo antes de despertar. Por comparação, a evoção das obras de Disney é mais modesta, mas não deixam de estar presentes algumas das suas Silly Simphonies e o Osvaldo, o Coelho Sortudo.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão e com dimensões mais generosas:

Mas regressemos a Destino. Durante 8 meses, entre 1945 e 1946, Salvador Dalí e o artista do estúdio Disney John Hench elaboraram um storyboard para a animação. No entanto, a produção da mesma terminou devido aos problemas financeiros que os estúdios Disney atravessaram durante a II Guerra Mundial. Hench chegou a realizar um teste de animação de cerca de 17 segundos, mas a produção foi colocada em hiato. Somente em 1999, Roy E. Disney, sobrinho de Walt, enquanto trabalhava em Fantasia 2000, decidiu revitalizar o projecto, cabendo ao pequeno departamento de produção parisiense da Disney completar a animação. Foi produzida por Baker Bloodworth e realizada pelo animador Dominique Monfréy, contando com uma equipa de cerca de 25 animadores para decifrar os storyboards crípticos de Dalí e Hench, valendo-se um pouco da ajuda dos diário de Gala, a esposa de Dalí, e do próprio Hench. Os 17 segundos originais estão presentes, sendo a restante animação baseada na obra de Dalí, enquanto é narrada a história da paixão de Chronos por uma mortal. A música é da autoria do mexicano Armando Dominguez e interpretada por Dora Luz, tendo sido transmitida na 27.ª emissão do programa radiofónico Bandas. Eis a curta-metragem de 2003:

A história sobre a produção de Destino e os encontros entre Disney e Dalí nos EUA e em Espanha, pode ser visualizada no documentário de Ted Nicolaou de 2010, Dali & Disney: A Date with Destino, uma longa-metragem de 82 minutos muito prazerosa e altamente recomendada que se encontra no blu-ray Fantasia 2000. Esta são umas curtas declarações

A título de curiosidade, na 6.ª página desta BD (p. 112 na Disney Comix) há uma breve referência à 6.ª longa-metragem da Disney (Olá, Amigos!; Saludos Amigos, no original), a primeira passada na América Latina e financiada pelo Departamento de Estado norte-americano no âmbito da Política de Boa Vizinhança, criada pelo governo presidido por Franklin D. Roosevelt. Realizada por Norman Ferguson, Wilfred Jackson, Jack Kinney, Hamilton Luske e William Roberts tem aproximadamente 42 minutos e data de 1942, tendo sido nomeada para 3 Óscares.

Os segmentos com imagens reais da equipa Disney a fazer turismo na América do Sul e a registar as suas impressões sob a forma de ilustrações, fotografias, pautas musicais e muitos souvenirs, alternam com 4 curtas-metragens de animação. No Lago Titicaca, Donald mede forças com um teimoso lama. A seguinte animação conta as aventuras de Pedro, um pequeno avião, na cordilheira dos Andes (e, rezam as lendas que, desapontado com a ideia que a animação Pedro passava do Chile ao Mundo, esta animação motivou o autor Pepo a iniciar a famosa série de BD do Condorito). Um Pateta sob a forma de cowboy do Texas é transformado num Gaúcho Argentino. E, em Aquarela do Brasil, o Zé Carioca (sim, trata-se da primeira aparição do famoso papagaio) mostra o Rio de Janeiro ao Donald. O DVD nacional dispõe de um documentário  intitulado “Ao Sul da Fronteira com Disney”, que relata as experiências vividas por Walt Disney e a sua equipa nesta viagem. Se Disney procurava inspiração para os seus filmes e expor os norte-americanos à cultura dos países da América Latina, a verdade é que atualmente esta película se transformou num testemunho com flashes das vivências daquela época nos países visitados, não só presentes no filme, mas principalmente no documentário extra que o acompanha. E o seu valor está sobretudo na quase ausência de subjetividade que uma produção norte-americana poderia imprimir.

Fica também registada a importância da composição musical na animação de outrora, ou a equipa de Disney não fosse também constituída por músicos que estudaram em primeira mão as músicas folclóricas. São estes instrumentos que podemos  visualizar nos resíduos do Estúdio 66 na BD Mickey e a Viagem Surreal no Destino. Em 1945, data do início desta banda desenhada, o filme de animação Olá, Amigos! tinha estreado há 3 anos.

A Disney Comix #100 chega às bancas no dia 29 de outubro.

Boas leituras e até breve!

Tio Nuno