Para a revista de banda desenhada Disney Comix #101 contribuí com a seleção de 2 histórias que têm em comum a referência a bandas desenhadas distintas. Mas comecemos pela literatura policial francesa do início do século passado.

Em 1911, era publicado pela editora Libraire Arthème Fayard um folhetim denominado Fantômas, da autoria de Pierre Souvestre e Marcel Allain. É o primeiro de uma longa série de folhetins, onde se contam as desventuras  de um anti-herói mascarado, apelidado de génio do crime. Nos anos seguintes, os folhetins serão traduzidos e correrão o mundo (foram também publicados no nosso país) e as histórias conhecerão versões cinematográficas e em banda desenhada, para além de um folhetim radiofónico francês. Assim como Fantômas certamente foi inspirado parcialmente nas influências da época (Arséne Lupin, de Maurice Leblanc; O Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux; Zigomar de Léon Sazie; bem como os escritos do século XIX de Paul Féval e Ponson de Terrail), viria a ser ele próprio fonte de inspiração a diversas personagens italianas de banda desenhada, a mais famosa das quais é Diabolik.

Diabolik foi criado pelas irmãs Angela e Luciana Giussani em 1962. Este anti-herói ganha rapidamente uma enorme popularidade, sendo transposto em 1968 para o cinema (e no ano anterior já tinha sido realizada a sátira Arriva Dorellik).

É neste contexto que Elisa Penna tem a ideia de criar o Superpato, designado de Paperinik em italiano, como uma sátira a Diabolik (refira-se que o Pato Donald é denominado de Paolino Paperino em Itália, apesar de atualmente ser mais conhecido somente por Paperino, o que podíamos traduzir como Gansinho; o termo é errada mas frequentemente utilizado para também designar patos, daí essa designação ao invés de anatra). A denominação brasileira de Superpato, adotada também em Portugal, não permite identificar a ligação óbvia entre aqueles dois personagens.

No entanto, Guido Martina, aliado à arte de Giovan Battista Carpi, opta por realizar uma história noir, aproveitando ao máximo a ideia de um personagem mascarado, e provavelmente adicionando a esta mistura de influências mais uns pontos retirados dos norte-americanos O Sombra, Batman e/ou James Bond. Na história que testemunha o nascimento do vingador diabólico Paperinik , quer em italiano, quer na tradução Brasileira/portuguesa, é evidente a referência ao início (?) de todo o processo. Donald herda o diário secreto, as armas e o fato de um ladrão cavalheiro denominado Fantomius, numa clara homenagem a Fantômas.

Mas a personagem de Fantomius só é devidamente explorada muitos anos mais tarde por Marco Gervasio (se exceptuarmos uma versão dinamarquesa alternativa em que ele ainda se encontra vivo). Após ter estabelecido no cânone o nome de Lorde Quacket para o Fantomius numa BD publicada em 2003, Marco Gervasio dedica-se cada vez mais a explorar este personagem, através das 3 histórias do Superpato que seleccionei para publicação no Disney Especial #11: Super-Heróis. Nestas bandas desenhadas, é criado o ambiente da Patópolis dos anos 20 do século XX da subsérie de Fantomius, bem como as personagens coadjuvantes, como Dolly Paprika (semelhante à companheira de Diabolik, Eva Kant), Copérnico (inventor bisavô de Pardal) ou o Comissário Pinko (nome semelhante ao do antagonista de Diabolik, Inspetor Ginko, mas personagem inspirado no Inspetor Juve interpretado pelo cómico Louis de Funès na tetralogia cinematográfica realizada por André Hunebelle).

A primeira história da subsérie Os Fabulosos Feitos de Fantomius, Ladrão Cavalheiro, publicada na Disney Comix #101, denomina-se O Monte Rosa e é uma homenagem a Diabolik. Ao longo da série, haverá inúmeras referências à literatura policial, ao cinema e visitar-se-ão outros países. A viagem ainda agora começou…

 

A segunda BD longa da Disney Comix #101 intitula-se BomBom em um Ranger em Ação, sendo da autoria da Corrado Mastantuono. Na página 32 encontra-se a ilustração que Mastantuono realizou para a capa da Topolino #2964, revista italiana onde foi originalmente publicada esta história.São deste modo apresentados os pards deste western, Bombom Willer (Tex Willer), Donal Carson (Kit Carson) e Pardal Taiguer (Tiger Jack) numa homenagem ao fumetto Tex.

Tex é uma série italiana de banda desenhada criada em 1948 por Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini e editada pela Sergio Bonelli Editore. É a série de BD italiana mais duradoira e tem estado presente em Portugal devido à importação. As edições brasileiras da Mythos chegam mensalmente às bancas portuguesas.

Apesar de quase não existirem edições nacionais (existe apenas uma), existem texianos portugueses suficientes para se ter constituído o Clube Tex Portugal, o único clube português dedicado a um personagem de banda desenhada, tendo desde a sua génese contado com o apoio da editora italiana. Ouça-se aqui a entrevista que José Carlos Francisco, um dos maiores colecionadores mundiais do Tex e Presidente do Clube, concedeu à Rádio Província, a propósito de Tex e da 1.ª Mostra do Clube Tex Portugal realizada em agosto de 2014.

A publicação da referida história na Disney Comix #101 já começou a gerar notícias na comunidade texiana nacional e internacional. Leia-se a sinopse da BD, escrita por José Carlos Francisco:
Um ano após o falecimento de Sergio Bonelli, o semanal Topolino (edição italiana do Rato Mickey) mergulhou no Far West e presta homenagem a Tex Willer com a históriaBum un ranger in azione, publicada no dia 12 de Setembro de 2012 na edição #2964. Desenhada e escrita por Corrado Mastantuono, a história inicia com o perigoso cavaleiro Caveira Negra ameaçando Lovely Pat: tem três dias para pagar 50.000 euros, caso contrário o rancho onde vive e que tão bem cuida será reduzido a cinzas. A indomável Lovely Pat não tem porém nenhuma intenção de ceder à chantagem e decide recorrer à lei;  e eis que em sua ajuda ocorrem Bombom Willer, ranger do Texas, e os seus pards Pardal Taiguer e Donal Carson. Entre cavalgadas nos canyons,emboscadas da temível tribo índia dos Bicos Furados, tiroteios e imprecações tipicamente texwillerianas como “Que o inferno os fulmine!”,  “Tição dos infernos!” e “Pela barba de santanás!” conseguirão os três paladinos da lei salvar das chamas o rancho de Lovely Pat e desmascarar o terrível Caveira Negra? E é claro que Sergio Nolitta não foi esquecido, pois também o mítico editor de Tex foi homenageado por Corrado Mastantuono e pela Disney italiana – atente-se no nome da cantina.

A Disney Comix #101 chega às bancas no dia 05 de novembro.

Boas leituras e até breve!

Tio Nuno