Por Rui Ferreira
A Viagem do Elefante vai ser editada pela Porto Editora e terá aproximadamente 120 páginas. O seu lançamento está previsto para 21 de Novembro de 2014. Falamos com o autor João Amaral sobre esta adaptação para Banda Desenhada desta obra do Nobel da Literatura, José Saramago. Fiquem a saber tudo um pouco mais à frente.

A HISTÓRIA
Pode-se dizer que esta é a história de um elefante que é oferecido pelo rei D. João III ao seu primo o arquiduque Maximiliano da Áustria, que se encontra em Valladolid, depois de viver dois anos em Belém, já votado ao mais perfeito abandono. Este é um facto histórico. Mas, a partir daí, a BD, tal como acontece com o romance, vai acompanhando a longa viagem deste enorme paquiderme chamado Salomão, primeiro até Valladolid e seguidamente até Viena. Pelo caminho, ele e Subhro, o cornaca que o guia, vão-se cruzando com as mais diversas personagens e defrontando os mais variados problemas… O que poderia ser uma simples jornada, vai-se tornando num empolgante relato irónico sobre alguns aspectos da condição humana…

ENTREVISTA
João, como surgiu esta ideia de adaptar este romance de José Saramago? Alguma razão em especial? Haviam outros em cima da mesa? Ou este é apenas o primeiro de um projecto mais amplo?
Curiosamente a primeira pessoa a ter a ideia de que este livro daria uma boa adaptação para banda desenhada foi a Cristina, a minha mulher. Depois de o ter comprado e o ter lido, e conhecendo-me como conhece, disse-me várias vezes que esta seria uma obra que me iria agradar. Ao fim de algum tempo, acabei por pegar no livro e, depois de o ler quase num fôlego, acabei por constatar que ela tinha razão. Aconteceu-me o que já me havia acontecido com A Voz Dos Deuses, de João Aguiar: ou seja, à medida que ia lendo o romance, as imagens começaram a desenhar-se por si só na minha mente e considerei que tinha de fazer este projecto. Isto aconteceu quando estava já a trabalhar nas Cinzas da Revolta.
Nessa altura, ainda cheguei a fazer alguns estudos e a elaborar umas pranchas. Porém, não queria partir para uma adaptação sem ter a questão dos direitos resolvida e, como isso ainda poderia demorar algum tempo, e a Cinzas estava numa fase mais adiantada, decidi avançar com esse projecto, na certeza de que, quando o acabasse, me iria dedicar à Viagem a 100 por cento.
Por fim, em relação ao que perguntas, se este é apenas o primeiro tomo de um projecto mais amplo, não sei o que te diga. É verdade que, há alguns anos, tive igual entusiasmo ao ler o Ensaio Sobre a Cegueira, mas acabei por não avançar para a frente com o projecto, porque entretanto soube que o Fernando Meirelles estava a preparar uma adaptação cinematográfica e, na altura, pensei que os projectos poderiam colidir e abandonei a ideia. Quanto ao futuro, sinceramente não sei o que é que poderá acontecer…

Assim à primeira vista, podemos julgar que uma adaptação de algo já existente pode significar um trabalho mais facilitado a quem o vai adaptar, neste caso para banda desenhada. Foi mesmo assim? Como te preparaste para este desafio?
Sim, há quem pense isso e possa dizer: não há grandes dificuldades porque a obra já está toda escrita. Todavia, eu considero que não é bem assim, até porque estamos a falar de uma adaptação de um romance de mais de 250 páginas para uma BD com 120. Claro que me quis manter fiel ao espírito do romance, já que a ironia subjacente do Saramago foi uma das coisas que mais me atraiu nele. Mas, ainda assim, posso dizer que na BD a figura do Saramago aparece frequentemente como narrador, facto que não acontece no livro, além de que existem às vezes certas cenas que literariamente podem resultar muito bem e a nível visual, não tanto e vice-versa.
Por exemplo, na adaptação para banda desenhada existem algumas sequências silenciosas que no livro surgem descritas com palavras. Digamos que aqui foi um recurso diferente que usei para narrar um mesmo facto. Em relação à preparação para o desafio, fui trabalhando como acontece com todos os desafios a que me proponho, elaborando um argumento aos poucos, que andava sempre uns passos à frente das páginas que ia elaborando e colorindo, sabendo quase desde o início qual seria a sequência final e as etapas que iria elaborar para lá chegar.

O facto de estarmos a falar de uma obra de um autor tão conhecido, como José Saramago e ainda para mais premiado com o Nobel da Literatura, trouxe-te uma pressão acrescida? Como tentaste lidar com isso?
Não. Claro que, como toda a gente, sabia que o Saramago era um Nobel da Literatura. Mas esse não foi para mim um elemento de pressão, se queres que te diga, nem sequer pensei muito nisso. Os meus elementos de pressão tiveram sempre a ver com a história em si e a melhor forma de a colocar em imagens, até porque, não nego, um dos meus objectivos foi o de acabar com esse estigma de que o Saramago é um autor difícil. Não concordo nada com isso e espero ter dado um pequeno contributo para acabar com essa ideia feita nalguns círculos.
Para além disso, tenho que referir que, desde que teve conhecimento do projecto, Pilar del Rio, a viúva de Saramago, foi uma ajuda fundamental para que isto chegasse a bom porto. O entusiasmo que depositou e o carinho que dedicou a esta adaptação, à medida que a ia acompanhando, deram-me uma força extra para a ir continuando. Posso mesmo dizer que as várias conversas que tivemos ajudaram muito a enriquecer o livro, uma vez que ela, melhor do que ninguém, acompanhou a construção do romance propriamente dito.

Estás satisfeito com o resultado final? Foi de encontro às tuas expectativas?
O que é que posso dizer sobre isso? Obviamente que sim, o resultado, depois de mais de dois anos de trabalho, satisfaz-me. Agora, já sei que, provavelmente como acontece com todos os meus livros, sem excepção, irei dizer daqui a algum tempo que esta ou aquela cena, poderia resultar melhor se tivesse sido feita de forma diferente e irei encontrar eu próprio defeitos aqui e ali. Isso não quer dizer que eu não tenha dado o melhor de mim. Dei-o como dou sempre, até porque o que eu faço, faço sempre com muita paixão…

Fiquem com algumas imagens do que poderemos esperar ver nesta obra muito interessante que o João Amaral adaptou, e a quem agradeço desde já pela sua disponibilidade e amabilidade, no fornecimento dos materiais e obviamente por esta mini-entrevista sobre o projecto.

Previews

João Amaral
João Amaral (Jhion) nasce em Lisboa, em 1966. Participa nas Selecções BD – 2ª Série, com dois episódios de O Que Há de Novo no Império?. Publica nesta revista O Fim da Linha, um remake do célebre filme O Comboio Apitou Três Vezes. Ganha uma menção na categoria de Novos Valores, no Festival da Sobreda, em 2002, para o qual apresenta uma história, intitulada Game Over. É um dos autores que participa, em 2003, no álbum Vasco Granja – Uma Vida, 1000 Imagens. Paralelamente foi, ao longo dos anos, desenhador de publicidade, colaborou com a revista A Rua Sésamo, fez ilustrações para livros. No seu blogue, publica como Joca uma tira humorística, intitulada Fred. & Companhia.
Dos seus trabalhos em BD fazem parte: História de Manteigas – No Coração da Estrela (2004); Bernardo Santareno – Fragmentos de uma Vida Breve (2006); História de Fornos de Algodres (2008); As Cinzas da Revolta (2012).
Podem ver mais dos seus trabalhos no seu blogue oficial.

nota: originalmente publicado no Universo BD, em 4 de novembro de 2014. Ver mais imagens e informação sobre o lançamento aqui.