Por Rui Ferreira

Miguel Mendonça tem sido um dos artistas mais activos da editora americana Zenescope. Um verdadeiro conto de fadas. Conheçam um pouco melhor quem é Miguel Mendonça e apreciem alguns dos seus trabalhos.

Miguel Mendonça sempre gostou de desenhar E o seu irmão teve um papel importante na introdução da BD na sua vida. Apesar de viver em Olhão e, portanto, fora dos grandes núcleos urbanos e centro de decisão, isso acabou por não se tornar num grande problema para o seu trabalho devido à era altamente avançada em termos de comunicações, em que vivemos hoje em dia.

Tendo enveredado pelo Design na sua formação profissional, ao fim ao cabo algo ligado ao desenho, acabou por tirar partido disso para mais tarde se virar definitivamente para a Banda Desenhada. Após ter tomado a decisão de fazer da BD a sua profissão, iniciou um trabalho de elaboração de portefólio ligado à 9.ª arte e as oportunidades começaram a surgir.

Em Portugal não tem ainda nada publicado, mas participou em diversos Zines e concursos de Banda Desenhada. A sua carreira passa essencialmente pelo estrangeiro, nomeadamente pela Zenescope onde tem já diversos trabalhos publicados. Tem ainda um projecto em curso no Kickstarter intitulado Sideckicks.

TRABALHOS EM PORTUGAL

Vamos conhecer um pouco melhor Miguel Mendonça, a quem agradeço desde já pela disponibilidade e simpatia.

Ao analisar o teu percurso, principalmente a tua carreira no exterior, até parece fácil. Desde 2013 tens já 13 participações no Universo Grimm Fairy Tales da Zenescope. São 13 títulos em praticamente um ano. Como é que explicas esta actividade tão intensa, para quem praticamente era um desconhecido na industria dos comics? Para além do teu óbvio talento, quem mais é responsável por esta tua ascensão? A presença de cada vez mais ilustradores portugueses lá fora, foi importante para a tua decisão de avançares por este caminho?
Não posso dizer que seja fácil, especialmente pelo trabalho que implica. Nem que haja facilidade de entrar no mercado dos comics americanos. Talvez seja mais fácil de o fazer actualmente em comparação com alguns anos atrás, pela forma como as novas tecnologias permitem maior facilidade de comunicação, mas ainda levou algum tempo de divulgação e promoção da minha parte (à volta de um ano) até receber feeback de uma editora com uma proposta de trabalho. Penso que, como tudo, tem muito a ver com timing, ou seja, enviar o trabalho certo, para o editor certo, na altura certa.
Também acho que das coisas mais difíceis de fazer foi tomar a decisão “dedicar-me a cem por cento à banda desenhada” ainda antes de ter uma uma proposta concreta. Precisei fazer uma mudança a nível mental, mudança essa que envolvia passar a focar-me totalmente na procura de um percurso profissional nesta área e seguir esse caminho sem olhar para trás. Posso dizer que tive uma espécie de epifania que me disse: “é isto que sempre quis fazer, não vou parar enquanto não tiver oportunidade de o fazer.”
Acho que a partir daí, as coisas começaram a acontecer naturalmente. Claro que, quando digo estar focado, implica trabalhar muito, fazer páginas de amostras cada vez melhores, auto-promoção, pesquisa de editoras, contactos dentro da área etc. Quando passei a ter os meus objectivos bem definidos, passou a ser mais fácil saber que percurso seguir. Sabia que queria estar a trabalhar nos comics e melhorar, com isso em mente foi pôr mãos à obra.
Se fiz as participações que fiz nesse curto espaço de tempo, foi porque as coisas foram correndo bem, procurei responder à oportunidade da melhor forma possível e tentar sempre que a próxima prancha fosse melhor que a anterior. Por agora tem resultado. Parece-me também importante sublinhar que, para as coisas acontecerem no espaço de um ano foi preciso também levar uma vida inteira a desenhar. Apenas não estava era a olhar para a actividade com a seriedade que esta merecia. Tinha a tal voz interior que me dizia que era por ali, mas às vezes o difícil é estar preparado para a escutar.
Para essa viragem de pensamento contribuiu, não a presença de ilustradores portugueses lá fora, mas sem dúvida o contacto com os criadores cá dentro, sinto que as comunidades de artistas portugueses apoiam-se mutuamente, e quando há possibilidade de troca de impressões, para a qual, no meu caso, o Festival Internacional de BD de Beja contribui especialmente, a energia criativa resultante é sempre motivadora.

OZ 

Cores por Ulises Grostieta

Como tem sido a reacção das pessoas que te estão mais próximas, família e amigos a esta tua aventura? Sendo Olhão uma cidade onde ainda se mantém a premissa que quase toda a gente se conhece, como é a reacção das pessoas que sabem desta tua actividade?
É sempre gratificante ver a reacção das pessoas ao meu trabalho. Da família e amigos mais próximas o apoio é incondicional. Por um lado sabem que trabalhei para estar a fazer o que faço, pelo que não sinto que seja especialmente surpreendente verem-me nesta aventura. Por outro, têm até um olhar crítico ao qual sabem que dou valor pelo meu objectivo de tentar melhorar a cada passo. Quanto à reacção da minha cidade, esse fenómeno de notícia boca-a-boca acontece realmente, especialmente com a minha fã numero 1 (a minha mãe) constantemente a mostrar os meus novos trabalhos a toda a gente. Mas não sou propriamente uma celebridade, até porque para estar a fazer essa “brincadeira” dos 13 títulos num ano (não contei ainda, mas se o dizem acredito) é preciso deixar um pouco de ter vida social e passar grande parte do tempo “enfiado” no estirador. Mas o resultado final compensa.

TALES FROM OZ

Cores por Maxflan Araujo

Foste buscar influências a vários autores e a várias escolas de BD, Europeia, Americana e até Japonesa. Em que estilos te revês mais?
Costumo dizer que procuro a mistura perfeita das três grandes escolas mundiais, estilo Americano, Europeu e Japonês. Isto porque tenho influências e ídolos nos três. Comecei a interessar-me por banda-desenhada pela influência do meu irmão mais velho, que coleccionava Banda-desenhada franco-belga, mais tarde comecei a desenhar mais a sério com influencia de Mangas como Dragon Ball e Evangelion, e posteriormente interessei-me por comics americanos como “A morte do Super-Homem” e hoje em dia muitos dos meus ídolos na arte trabalham nesse mercado.

UNLEASHED Cores por Ulises Grostieta

Com o mercado americano escancarado, onde já ninguém pode dizer que não conhece o teu trabalho, onde pretendes chegar? Super-Heróis Marvel, DC Comics, Valiant? ou algo mais terra a terra numa editora como a Image ou BOOM! Studios?
Gosto de pensar que as coisas vão acontecendo naturalmente se estiver focado nisso. Enquanto estiver a trabalhar na área sinto que estou a evoluir, a partir daí vou tentando aproveitar ao máximo as oportunidades que forem surgindo. Claro que a passagem pelas maiores editoras americanas serão sempre experiências pelas quais pretendo passar.

Se pudesses escolher, dentro do mundo dos super-heróis, qual ou quais os personagens que gostavas mais de poder desenhar?
Estaria a mentir se não respondesse logo Superman. Mas seriam sempre bem vindas inúmeras outras personagens, Wolverine, Batman (quem não gostaria de desenhar o Batman) Thor, Homem-aranha, Daredevil, X-men, Avengers, Liga da Justiça… mas já estou a divagar dentro do exercício…
Como curiosidade no ano passado na Thought Bubble em Leeds, numa avaliação de Portfolios, o editor da Marvel, CB Cebulski perguntou-me que personagem gostaria de desenhar. Deu-me uma branca e, de repente, para meu grande espanto, não conseguia lembrar-me do nome de nenhuma personagem da Marvel.

WARLORD OF OZ Cores por Ulises Grostieta

E quanto a autores? Tens algum com quem gostasses de trabalhar particularmente?
Neste momento, nos Comics gosto muito da maneira cinematográfica de contar histórias do Mark Millar e da frescura do Robert Kirkman.

Tens um projecto no kickstarter com o autor Russell Brettholtz, de onde surgiu esta ideia?
Na fase em que estava a divulgar o meu portfólio nos fóruns por essa Internet fora, foi uma das propostas que surgiram. O autor viu algumas amostras do meu trabalho e entrou em contacto comigo com informações sobre o projecto.

SIDEKICKS

Quais as tuas ambições para o mercado Português? Quando vamos ter um livro teu aqui em Portugal? Isso seria uma coisa importante para ti? E lá fora, agora que terminaste Warlord of Oz, já tens alguma coisa nova em perspectiva de que nos possas falar?
Tenho alguns projectos com autores portugueses em stand-by. Algures no futuro gostaria de lançar um livro em Portugal sim, mas para já vou tentar aproveitar as oportunidades que surgirem do outro lado do Atlântico e depois logo se vê.
Tenho algumas propostas a ponderar, mas para já não está nada definido que possa divulgar.

WARLORD OF OZ Colors by Ulises Grostieta

Miguel Mendonça

Miguel nasceu em Faro no Outono de 1984. Para além da Banda Desenhada, adora anime, videojogos, cinema e series televisivas.
Em Portugal participou em alguns concursos do FIBDA e noutros projectos mais pequenos como por exemplo o projecto Cadavre Exquis de Daniel Maia.
Pela Zenescope Miguel tem participações em títulos do universo Grimm Fairy Tales, tais como: Unleashed, Oz, Tales From Oz e Warlord of Oz. Tem ainda o projecto Sidekicks no Kickstarter.
Podem acompanhar mais do seu trabalho no: Blogspot, Tumblr e Deviantart.

nota: Originalmente publicado no Universo BD, em 6 de novembro de 2014.