arabefuturoA Teorema, editora pertencente atualmente ao grupo Leya, lançou a primeira parte da anunciada trilogia autobiográfica de Riad Sattouf. O primeiro tomo da banda desenhada O Árabe do Futuro: Ser Jovem no Médio-Oriente tem lançamento nacional praticamente coincidente com o segundo tomo francês, o qual é dedicado ao biénio 1984-1985. Presumo que o terceiro tomo se ocupe dos últimos 4 a 5 anos da estadia de Sattouf na Síria, uma vez que o autor regressou definitivamente a França com 12 anos de idade.

Apesar de Sattouf ser um reconhecido autor de banda desenhada, não será de estranhar que o primeiro contacto com a sua obra em Portugal se tenha realizado através não da BD mas sim do cinema. Que Belos Rapazes, um filme deste também realizador de cinema, estreou no nosso país em 2009.

No que toca à BD, Sattouf estreia-se no nosso país com um dos seus dois álbuns que foram galardoados com a Fauve d’Or para o Melhor Álbum do Ano no Festival Internacional de BD de AngoulêmeO Árabe do Futuro: Ser Jovem no Médio-Oriente (1978-1984) foi premiado em janeiro deste ano, tendo também no seu currículo o Grande Prémio RTL 2014 para o Melhor Livro de BD do Ano e o Prémio para a Melhor BD no Festival do Livro Saint-Étinenne 2014.

Este tomo surge no nosso país num momento em que já apresenta o estatuto de bestseller em França e com tradução em 16 línguas, o que provavelmente facilitou a decisão da edição nacional.

Segundo o autor, a ideia para a concepção desta obra teve origem em março de 2011, com o início da guerra civil na Síria. Sattouf nasceu em França, sendo descendente de um pai sírio e uma mãe bretã. Em tenra idade, emigra juntamente com a família para a Líbia e posteriormente para a Síria. E são as suas vivências infantis que são contadas neste livro, demonstrando o autor em pleno domínio da técnica narrativa, com uma elegante subtileza que confere ao livro uma leitura rápida, embora intensa. Provavelmente, estes são dois dos pontos do sucesso da obra, sendo o terceiro o olhar sociológico do estrangeiro e o quarto os países (e época) abordados.

Nesse sentido, o livro aproxima-se mais das obras de Delisle do que Satrapi, com quem é com alguma frequência comparado. No entanto, se existe um olhar “estrangeiro” na obra de Satrapi, é algo que surgiu posteriormente às vivências narradas, ao contrário de Sattouf. Isso em nada enfraquece nenhuma das obras, obviamente. E talvez não as distinga assim tanto: em O Árabe do Futuro é também posterior às vivências a seleção do que contar e como contar.

Esta crónica é, na sua essência, familiar. Poderia ser estruturada de igual forma se a família tivesse emigrado para outro país, independentemente a que continente este pertencesse. Existiriam sempre diferenças socioculturais com o país de origem que permitiriam a comparação e necessidade de adaptação. Esse é o cerne da narrativa. O facto de se tratar da Líbia de Kadafi e da Síria de Hafez Al-Assad confere-lhe provavelmente mais interesse aos leitores ocidentais, prevenindo-se contudo que na obra encontrarão apenas pequenas pistas sobre as questões políticas da época, o que poderá despertar o interesse em aprofundar os conhecimentos com outro tipo de leituras.

A chave do livro para a questão política está provavelmente na abordagem que o Sattouf faz do seu pai. Apesar de ser o herói do autor em tenra idade, Sattouf expõe a visão que este tem do mundo, sendo a mesma frequentemente minada pelo autor. Afinal, como referi, a sua visão é de um estrangeiro, o que permite ao leitor também estranhar algumas decisões e comportamentos, empatizando com a criança (ledo engano, não é a criança que narra) que nos conduz pela história.

Ficamos agora a aguardar que a Teorema prossiga com a publicação da trilogia.