A obra Capital de Afonso Cruz venceu a 19.ª edição do Prémio Nacional de Ilustração. Trata-se de um prémio que me deixa duplamente feliz pelo facto de considerar que, na sua essência, o livro de Cruz, bem como os demais que lhe fazem companhia na coleção Imagens que Contam da Pato Lógico, é uma obra de banda desenhada. Poderão encontrar uma breve explicação para esta minha interpretação aqui e aqui.

As duas Menções Especiais foram atribuídas às ilustrações da obra Lá fora da autoria de Bernardo Carvalho com texto de Maria Ana Peixe Dias e Inês Teixeira do Rosário, e às da obra Com o tempo de Madalena Matoso, com texto de Isabel Minhós Martins, ambos da editora Planeta Tangerina.

Para além dos três prémios, o júri destacou ainda a obra Wonderporto, com ilustrações de Cátia Vidinhas e texto de Adélia Carvalho, da editora Tcharan.

O júri foi constituído pela Prof.ª Doutora Adriana Baptista, investigadora e docente da Escola Superior de Educação do Porto; Pedro Moura, Mestre em Filosofia Estética, crítico de banda desenhada e de ilustração, autor do blog Ler BD, e Vera Oliveira, técnica superior em representação da DGLAB.

Relativamente à obra que mereceu o Prémio Nacional de Ilustração, o júri considera que se trata de uma narrativa visual, apenas aparentemente linear e lógica, e destaca a dimensão paradoxal e polissémica das suas guardas capazes de estirar a narrativa para além da lógica. Instala-se assim como uma narrativa crossover, aberta a públicos de todas as idades.

A gestão parcimoniosa do espaço gráfico e da paleta cromática concentram a atenção do leitor no dramatismo dos acontecimentos que pontuados aqui e ali por detalhes jocosos de sátira social e política aguçam a avidez de conhecer o desfecho entre a ficcionalidade e a inevitabilidade. Na sua singeleza formal, os leitores acreditam estar a percorrer uma linha unidirecional em termos temáticos, contudo, se leitores atentos, poderemos perseguir linhas de fuga que introduzem temáticas subsidiárias interpelantes para a construção de um pensamento reflexivo e participativo na contemporaneidade: a amizade, o engodo, a cobiça, a ascensão social, a ecologia, a ambição, a traição, a escravatura, a ingenuidade.

No que respeita à obra Lá fora, o júri saúda o investimento e o fôlego criativo da ilustração numa obra de cariz não-ficcional, marcadamente lúdico-pedagógica. Destaca-se a heterogenia gráfica, a variedade de técnicas e instrumentos, o rigor de paginação, capaz de se adaptar a inúmeras exigências nas sinergias entre texto e imagem, sem nunca optar por fórmulas repetitivas. Este objeto é capaz de construir vários tipos de leitores-atores, gerando formas diferentes de interagir com a obra, convidando-os a explorar o exterior. Tal como em relação a Capital, esta obra arrebata públicos de diferentes idades.

No que se refere à obra Com o tempo, o júri elogia o modo como os textos visuais, colocados ao serviço de uma temática complexa e filosófica como o Tempo, são capazes de desencadear representações mentais de realidades nem sempre disponíveis para a figuração. De facto, percorrendo as páginas deste livro, apercebemo-nos da inevitável mudança que todo o tempo constrói, aprendendo a avaliá-la quer como conquista celebratória quer como perda melancólica. Nesta obra, são múltiplos os índices que laboram para fazer do leitor um leitor experiente capaz de ler no escuro, certos de que com o tempo «os olhos habituam-se à escuridão.

O júri destaca ainda a obra Wonderporto, considerando de saudar a elaboração de um projeto de um guia pedagógico, sob a forma de fascículo, que convida à descoberta e a verdadeiros passeios psicogeográficos capazes de promover a literacia visual sobre a cidade do Porto, abrindo assim uma possibilidade de repensar criativamente os objetos e guias didáticos. Wonderporto apresenta-se com um esmerado cuidado gráfico ao nível da composição, materialidade, relação entre texto e imagem, e, acima de tudo, no modo como procura estabelecer a dimensão de interação que é pedida ao leitor, convidando-o a ser co-autor, ao integrar as suas próprias experiências e memórias.

O Prémio Nacional de Ilustração, atribuído pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, tem como objetivo reconhecer e incentivar o trabalho de artistas no domínio da ilustração de livros para crianças e jovens em Portugal.

O prémio, atribuído anualmente desde 1996, distingue um ilustrador pelo conjunto de trabalhos originais publicados numa obra para crianças e jovens, editada entre 1 de Janeiro e 31 de Dezembro do ano anterior ao concurso.

O valor do prémio é de cinco mil euros, acrescido de 1500 euros destinados a apoiar uma deslocação à Feira Internacional do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, Itália.

As menções especiais são também premiadas com 1500 euros destinados a comparticipar a presença dos ilustradores na Feira do Livro de Bolonha.

Para conhecer o vencedor e menções honrosas do ano passado, clique aqui.