Texto: André Oliveira
Ilustração: António Silva

Considero-me um tipo bastante clássico.

Daqueles que ainda usam uma agenda tradicional com tudo anotado, que não gostam de ler livros no ipad, que usam corrector quando se enganam, que sublinham o que é importante com um marcador fluorescente e que todas as semanas elaboram uma lista de coisas a fazer durante os dias seguintes. Convém esclarecer entretanto que “clássico” aqui também pode ser substituído por “obsessivo”. Ou “chalupa”, para os eloquentes.

Tenho as minhas manias e, apesar de passar grande parte do dia agarrado ao computador, ainda privilegio o papel, tudo o que é físico e cuja existência ou ausência dela não é pautada por um caixote do lixo digital que se esvazia com o botão direito do rato. No entanto, e no que toca à banda desenhada, admito que com a internet se abriu um enorme leque de possibilidades até aí limitado, relativamente à divulgação e mesmo à viabilidade de alguns projectos. Fazer um webcomic, ou criar-lhe uma plataforma, é fácil, barato e indolor. E assim, a mesma onda criativa que dá à luz toda a espécie de atrocidades traz também ao público excelentes histórias realizadas por amadores e profissionais que nos fazem considerar este meio como incontornável para a actualidade e para o futuro da BD.

Há uns anos trabalhei como copywriter em empresas de publicidade e já aí debatíamos que o poder da televisão estava a mudar, que iria alterar-se ainda mais nos anos seguintes e que havia agora todo um universo de canais de promoção prontos a serem accionados. Canais esses que trariam mais vantagens e estariam mais próximos dos consumidores, mais capazes de atrair atenção. A internet encerra muitas dessas possibilidades, sobretudo após a explosão das redes sociais, mas há ainda outras mais arrojadas. Falo de street marketing e publicidade de guerrilha, por exemplo, cujo impacto é sempre muito maior, principalmente quando potenciado nos sítios certos.

Mas, apesar disto tudo, continuo a ser um tipo clássico.

Já tive Facebook mas desisti. Também tive pneumonia quando era miúdo e, da mesma forma, deixei para trás. Ambas as coisas roubavam-me saúde, tempo precioso e em nada contribuíam para a minha felicidade. Para mim, por muito acessível que seja colocada a informação, a verdade é que numa enchurrada de conteúdos dificilmente vamos dar a atenção merecida a qualquer que seja. É verdade que através das redes sociais se promovem, e até realizam,  projectos de BD, mas não é menos verdade que é mais fácil deixar escapar a truta que desce na cascata de que ir ao lago de propósito pescá-la. Que o digam os ursos.

Portanto, e no que diz respeito a este tipo de meios, continuo a confiar mais nos blogs e na própria pesquisa dos potencialmente interessados. Porque quem visita uma morada já sabe à partida ao que vai e está predisposto a receber informação. E sendo a banda desenhada uma expressão artística, apesar de ter a componente visual, dificilmente capta a atenção com um só thumbnail que aparece num segundo para logo a seguir ser chutado para canto por qualquer outro artigo ou notícia.

Os novos media trouxeram um abismal número de holofotes que brilham sobre tudo e mais alguma coisa e também 15 minutos de fama sem critério a todo e qualquer projecto (seja ele banda desenhada, culinária, numismática ou outro tópico à escolha). Ao mesmo tempo, trouxeram de arrasto uma vaga de consumidores com deficit de atenção, que têm de ser contantemente estimulados a ver/ler uma só peça (por terem ligados em simultâneo o mail, o chat, o youtube, o facebook, o skype e demais parafernália que existe e que eu prefiro ignorar por ter capacidade limitada de armazenamento no cérebro). Há muita gente que continua deslumbrada com a internet e com o seu enorme potencial, apesar de já convivermos com ela há dezenas de anos. Eu reconheço-lhe qualidades e importância no papel que tem no universo da BD (mesmo não gostando de ler em ecrã), mas continuo a achar que mais relevante é a criação de boas obras, válidas e de qualidade inegável. Assim sendo, o boca em boca comprovará o sucesso daquilo que se fez e com acções de divulgação cirúrgicas, sem serem intrusivas, conseguir-se-ão os resultados que verdadeiramente interessam.

A televisão já pouco conta, porque já poucos a vêem como antigamente. Escolhe-se o que se vê e não necessariamente o que se coloca na programação. Portanto, e nessa ordem de ideias, mais vale semear no público o interesse pela cultura em geral e (puxando a brasa à sardinha) por banda desenhada de qualidade, do que achar que uma divulgação maciça de produtos medíocres nos media é a solução. Apostem na qualidade e numa promoção inteligente. Se o sucesso não chegar… era porque não era suposto.

Mas receio pelas gerações mais jovens e pela cascata de informação que lhes passa diante dos olhos todos os dias. Parecem-me de tal forma mortos vivos que não reconheceriam “trutas” de qualidade nem que elas lhes mordessem na cara. Corremos o risco de tornar-nos dormentes, inactivos e isentos de critério.

Para mim, os media não salvam a BD nem salvam ninguém. Hoje são as plataformas que fazem girar o mundo, amanhã são artigos de museu.

As boas obras sim, são para sempre.

Mas isso digo eu, que sou um tipo clássico.