Por ocasião dos 50 anos da série belga de banda desenhada Taka Takata (primeira publicação: 3 de agosto de 1965 no n.º 31 do 20.º ano do Le Journal de Tintin), disponibiliza-se novamente online o artigo Taka Takata em Português, originalmente publicado há 9 anos.

Texto: Alberto Ferreira

O exército nipónico está bem servido de soldados leais à sua nação e que de bom grado dariam a vida para que a bandeira do Japão continuasse apregoando aos ventos as vitórias conquistadas. Pelo menos assim pensa o Coronel Rata Hojosa, que tudo faz para esconder e suportar o mais impagável soldado do seu Batalhão : Taka Takata. Este franzino soldado é míope como uma toupeira e proclama o Pacifismo como modo de vida. É então compreensível que não seja das melhores a sua relação com o seu superior hierárquico, homem ávido de glórias bélicas e com espírito de conquistador megalómano, que passa o tempo a exortar os feitos do grupo de soldados que tem ao seu serviço. Quem ganha com isto é o leitor, que se deleita com o humor impagável desta dupla, e duma fascinante galeria de personagens secundárias, das quais destaco o soldado Hatejojo, uma inspirada criação.

Esta série, criada em 1965 pela dupla Jo-El Azara e Vicq (pseudónimo de Antoine Raymond), conta com mais de 10 álbuns na colecção franco-belga original. As suas histórias foram publicadas em português por uma diversidade de editoras, tanto em formato álbum como em revista. Também de destacar são as publicações brasileiras com o personagem.

Fica aqui um breve resumo dessas publicações:

Tintim (revista semanal, Editorial Ibis / Bertrand): nesta, que muitos consideram como a melhor revista de BD portuguesa de sempre, a presença do japonês trapalhão fez-se notar de sobremaneira ao longo dos 15 anos da publicação. Estreou-se no nº 15 (1º ano) , de 1968, com a história Shan-Pouing Rapta Tar-Tang-Piong!, pequena aventura de 8 páginas que introduziu os leitores lusos ao personagem. E o sucesso deve ter sido imediato, pois nesse mesmo ano nada menos do que quinze aventuras seriam publicadas na revista Tintim, que desta forma apresentava as histórias curtas de Taka Takata. A partir do 2.º ano, a revista começaria a publicação das histórias longas, começando já no n.º 33, com O Batráquio dos Dentes de Ouro, história muitos anos depois repescada em álbum pelas Edições Asa (lá iremos…). Ao longo dos anos, o semanário editado por Vasco Granja iria publicar algumas das melhores histórias, como Western à Oriental ou Os Vegetais Vegetarianos, verdadeiras pérolas do humor da escola clássica franco-belga, alternando por vezes estas aventuras mais longas com histórias curtas, de uma ou duas páginas. A última aparição de Taka Takata na revista Tintim, deu-se no nº 45 (14.º ano), de 1982, numa altura em que a própria revista procurava abrir as suas páginas às novas tendências da BD europeia de autor, relegando para um semi-esquecimento os clássicos. De destacar ainda as 4 histórias curtas publicadas nas edições anuais do Tintim, de 1974 a 1977.

Selecções Tintim (Editorial Ibis): em formato menor que a sua antecessora, mas ainda dedicada exclusivamente aos clássicos franco-belgas, esta publicação mensal repescou duas histórias curtas, inéditas, de Taka Takata, respectivamente nos n.ºs 4 e 8.

Almanaque Tintim (Edições Publipress): e os formatos continuam a diminuir, como prova esta colecção mensal da Publipress, em dimensões minúsculas, que nem com a maior das boas vontades despertavam qualquer gosto na leitura das histórias originalmente produzidas para o formato A4. Esta revista publicou duas histórias curtas de Taka Takata, repescadas da revista Tintim.

Taka Takata – O Ciclista Kamikaze (Editora Arcádia, 1976): A editora Arcádia tentou catalogar em álbuns de BD uma linha clássica de personagens que fizeram história na escola franco-belga. A nata das suas publicações é sem dúvida a colecção do Spirou, com muitos álbuns clássicos de Franquin, que hoje são verdadeiras pérolas para os coleccionadores. Também muito raro é o primeiro álbum de Taka Takata em terras lusas, álbum este que recolhe nada menos do que 17 histórias curtas, originalmente publicadas na revista Tintim. Uma edição primorosa, em capa dura, que infelizmente não teve continuidade pela editora.

Taka Takata – O Batráquio de Dentes de Ouro (Edições Asa, 2002): Parte da colecção «Clássicos da BD», que a Asa lançou com vista a recuperar os personagens e histórias que fizeram a delícia dos leitores mais antigos. Este álbum é o primeiro da colecção original belga, o que levantou algumas expectativas sobre a continuidade que as Edições Asa iriam dar a esta colecção.

Taka Takata (Editora Vecchi, 1977): Aventuremo-nos agora no meio editorial brasileiro, mais concretamente na saudosa editora Vecchi, uma das mais prolíferas e diversificadas do país irmão. A Vecchi sempre apostou em material europeu, tendo sido a responsável pelo fenómeno Tex no Brasil, cuja colecção iniciou em 1973, tendo também dado merecido lugar a outros fumetti de renome, como Ken Parker, Martin Mystère, etc. A editora também publicou várias revistas dedicadas exclusivamente à BD franco-belga, entre as quais destaco a fantástica Eureka. Como não podia deixar de ser, o nosso japonês predilecto também teve direito a uma revista própria, que durou 2 edições, e publicou meia dúzia de histórias curtas (1 a 2 páginas cada) do personagem. O resto da revista era ocupado com outros heróis de proveniências semelhantes, tais como Achille Talon, Cro-Magnom ou Cubitus.

Alakazam (Editora Vecchi, 1979): Outra publicação nos mesmos moldes da anterior, com o mesmo formato (pequeno), mas com a aliciante de incluir um leque mais vasto de personagens franco-belgas, entre as quais temos o nosso inevitável soldado nipónico, que marcou presença no nº 2, com uma curta história. Como curiosidade refira-se o facto de que foi nesta revista que se estreou no Brasil o Iznogoud, de Tabary e Goscinny, que iria grangear muito sucesso entre os leitores, dando origem a uma colecção de 8 álbuns pela Vecchi.

Gibi Semanal (Rio Gráfica Editora, 1974 a 1978): A primeira versão da revista Gibi foi publicada em 1939, no Brasil, e foi uma das pioneiras a publicar os grandes clássicos norte-americanos da BD no Brasil. Esta segunda versão do título, para além de alterar os moldes de edição (agora num formato quase A3), apostava numa melhor selecção de material publicado, não tendo qualquer tipo de pudor em colocar lado a lado o clássico Spirit de Will Eisner, com o humor alarve do Recruta Zero de Mort Walker. Algures nesta amálgama de géneros e proveniências, a BD franco-belga também marcou presença, como não poderia deixar de ser, com Taka Takata e outros personagens humorísticos, em histórias curtas de 1 ou 2 páginas.

Vale a pena mencionar ainda a “promessa” de edição de dois álbuns do personagem pela Editorial Ibis, em 1970. O anúncio vinha feito na contracapa de vários álbuns da editora (que prometia O Ciclista Kamikaze – que viria a ser publicado, mas pela Arcádia em 1976 -, e O Lama Voador). Tentativa lograda, que se deveu certamente ao cancelamento da edição de álbuns pela editora, que no entanto seria retomada anos depois, já pela Bertrand.

Dos criadores de Taka Takata, apenas Jo-El Azara subsiste (Vicq faleceu em 1987, tendo na sua carreira trabalhado com personagens tão distintas como Sophie, Lucky Luke ou Achille Talon), tendo recebido um Prémio Especial do Júri em Angoulême, e fundado a sua própria editora (Azéko) que é actualmente responsável pelo catálogo das aventuras de Taka Takata.