Especialmente ativa nas década de 60 a 80 do século passado, a editora Arcádia renasceu em 2010. Integrada no grupo Babel, regressou à publicação de banda desenhada, com obras como O EstrangeiroO Comboio dos Órfãos ou o volume Amarillo da série Blacksad. Parece-nos pertinente disponibilizar novamente online o artigo escrito há 9 anos sobre a atividade editorial da Arcádia no século passado no que toca à BD.

Texto: Alberto Ferreira

No panorama editorial português da década de 1970, houve uma variedade de casas que apostaram na publicação de Banda Desenhada no formato álbum. Nem todas tiveram a longevidade e o sucesso comercial que ambicionavam nesse campo, tendo algumas inclusivamente colocado no mercado pouco mais de meia dúzia de títulos e, de seguida, fechado as portas, pelo menos no que à nona arte concerne. A editora mais relevante foi sem dúvida a Bertrand, cujo leque de material publicado se centrou fortemente na linha franco-belga, um mercado que a própria editora alicerçou desde os finais dos anos 60, através da publicação regular do semanário Tintim. Aliado a sólidas bases (as inúmeras livrarias espalhadas pelo país) que possibilitavam financeiramente a constante edição de álbuns, a Bertrand vingou pela selecção dos personagens mais vendáveis, embora as colecções por ela editadas tenham ficado muito limitadas e salteadas.

Mas, nos anos 70, outras editoras menores (do que a Bertrand, pelo menos) se aventuraram neste ramo editorial. Uma delas foi a Arcádia, editora lisboeta cujo catálogo de BD tinha como figura de proa o Spirou de Franquin, cujas aventuras em álbum permaneciam inéditas no nosso país, excepto por um título das Edições Camarada. Um facto que a editora aproveitou com bons resultados, pois a par com os grandes clássicos que todos conhecem (Astérix, Lucky Luke, Tintim), o Spirou é um dos personagens mais acarinhados pelo público europeu.

A publicação das aventuras de Spirou na Arcádia começou não pelo primeiro álbum «oficial» da série (O Feiticeiro de Champignac, que já havia saído pela Camarada) nem pelo segundo (Os Chapéus Negros), mas sim pelo terceiro da autoria de Franquin: Spirou e os Herdeiros (1975). O álbum saía em capa mole, com um aspecto gráfico inusitado (a capa apresentava o desenho original rodeado dum fundo negro, com o nome da colecção e título do álbum em cima, ao lado duma estampa do Spirou), que se prolongou por toda esta colecção e se tornou numa espécie de «marca registada» da editora. O que teve os seus problemas, pois a cor preta em álbuns de capa mole (sobretudo pouco reforçados, como estes) tende a desgastar-se com o manuseamento, sendo que os exemplares destes álbuns, que hoje em dia são negociados, aparecem quase sempre com as lombadas e capas algo desbotadas.

A colecção prosseguiu com O Refúgio da Moreia e O Ditador e o Cogumelo (ambos em 1975), uma vez mais não seguindo a cronologia original. Já haviam sido introduzidos personagens que ficariam bastante conhecidos na série, como o Marsupilami ou o vilão Zantáfio. O álbum seguinte apresentava duas aventuras completas, O Ninho dos Marsupilamis (que dava título ao livro) e A Feira dos Bandidos (La Foire aux Gangsters). Em A Máscara Misteriosa (1976), o nosso herói vê-se uma vez mais às voltas com o terrivel Zantáfio. Embora não seguissem à risca a sequência da colecção original, os álbuns da Arcádia tentavam publicar todos os títulos disponíveis, adiantando a publicação de títulos posteriores, ou repescando outros que tinham sido deixados para trás. Mas, aos trancos e solavancos,  a colecção ia ganhando forma e marcando a presença do génio de Franquin no mercado nacional.

O Gorila, publicado em 1976, era uma aventura de Spirou em África, em que são abordados temas como o tráfico ilegal de pedras preciosas e a escravatura de africanos por europeus. Curiosamente, este registo anti-racista adoptado por Franquin, saía um ano depois de Coke en Stock, álbum de Tintin em que Hergé fazia título um singelo manifesto de tom semelhante. Este álbum apresentava ainda Férias sem História (Vacances sans Histoire). No mesmo ano, a Arcádia lançava O Dinossauro Congelado, álbum que continha ainda a história O Medo do Outro Lado do Frio, sendo que ambas marcavam o regresso do Conde de Champignac às aventuras de Spirou.

Seguiu-se o álbum QRN Sobre Bretzelburgo, o penúltimo título desenhado por Franquin (uma vez mais, um aspecto curioso da cronologia adoptada pela Arcádia). Nesta aventura, Spirou e Fantásio viajam a um pequeno país (fictício) onde enfrentam, entre outros, o sinistro Dr. Kilikil que tem um apetite peculiar por torturar prisioneiros. Por alguma razão, este álbum é o mais raro de toda a colecção. Desconheço se isto se deve a uma redução na tiragem, ou exportação para outro país de língua portuguesa. O certo é que para qualquer coleccionador, é hoje em dia praticamente impossível encontrar este título da Arcádia. Alguns alfarrabistas mantinham em stock certos títulos, mas este era sempre um dos que faltava.

O Roubo do Marsupilami e O Chifre do Rinoceronte são dois trabalhos mais antigos de Franquin; no entanto, isso não impediu que fossem os seguintes na colecção da Arcádia. O Chifre do Rinoceronte é outro álbum muito difícil de encontrar hoje em dia, talvez porque, para além de nunca ter sido reeditado* (ao contrário de alguns outros títulos de Franquin que saíram pela Meribérica), é uma das melhores aventuras desta série. Seguiu-se O Prisioneiro de Buda, uma aventura que começa numa feira campestre em Champignac e termina no remoto Vale dos Budas, para onde os nossos heróis viajam para libertar um inventor famoso.

Por esta altura, já as melhores histórias de Spirou desenhadas por Franquin tinham sido publicadas. O que restava eram aventuras mais ou menos interessantes, mas sem a criatividade que conferiu aos álbuns anteriores o merecido estatuto de clássicos. Foi o caso de Os Piratas do Silêncio, onde o Conde de Champignac é raptado por um gangster muito sui generis, numa aventura rotineira. A segunda história do álbum, O Super Rápido (Le Quick Super) não eleva o nível geral da edição. No entanto, o volume seguinte, Z de Zorglub, introduziu o vilão do título, um antigo aluno do Conde de Champignac que desenvolve um misterioso aparelho que domina a vontade das suas vítimas. Este primeiro confronto contra Zorglub é um dos trabalhos mais empolgantes de Franquin, e o sucesso do arqui-inimigo de Spirou foi imediato, tendo (na colecção original) regressado logo no ano seguinte.

A Arcádia deu por encerrada a colecção de Spirou com o álbum 4 Aventuras de Spirou e Fantasio, muito raro hoje em dia. Este volume recolhe quatro histórias curtas de Franquin anteriores a 1950, de entre as quais destaco a última (Spirou e os Pigmeus), uma bem humorada aventura numa tribo africana.

Esta colecção da Arcádia teve o seu mérito por ter sido a primeira a editar, de forma contínua, um dos mais relevantes personagens da BD europeia, na altura muito injustamente esquecido devido a um certo monopólio da revista Tintim e da linha de personagens que publicava. Desde então, apenas parte dos títulos desenhados por Franquin foram reeditados em português (pela Meribérica), o que torna este espólio muito raro e apenas acessível a quem tenha a sorte de encontrar os álbuns da Arcádia à venda (e poder de compra para os adquirir).**

Mas nem só de Spirou viveu esta editora. Os outros personagens publicados, com maior ou menor importância, são título bons exemplos da escola clássica franco-belga. Um bom exemplo é o trapalhão herói japonês Taka Takata, de que a Arcádia publicou O Ciclista Kamikaze (1976). Ficou prometido O Lama Voador, cuja capa a editora chegou a preparar e divulgar, mas que nunca chegou a ser publicado.

Outra colecção interessante, mas lamentavelmente curta, foi a de Alain Chevallier, série bastante inspirada em Michel Vaillant, que marcou presença com o álbum Corrida Diabólica (1975). O autor Christian Denayer é também conhecido do público português pela colecção Cascadeurs, da Edinter. Mais uma vez, ficou prometido o segundo volume da colecção (Prova 500, que já tinha capa preparada), mas nada feito.

As colecções em capa dura da Arcádia incluíram também a série A Selva em Festa, de Christian Godard e Michel Delink, com o álbum Viva a Companhia (1975). Personagens antropomórficas em aventuras hilariantes, que granjearam algum sucesso por cá quando foram aproveitadas na colecção 16×22 da Meribérica, em dois ou três volumes. A Arcádia prometeu o segundo volume (A Conquista do Espaço) mas… sim, adivinharam, não saiu.

Outro título de referência publicado foi o Cubitus, de Dupa. O cão bonacheirão, gentil e sempre metido em trapalhadas com o seu dono Semáforo, teve 3 álbuns lançados em português: Um Óscar Para Cubitus (1977), O Caldo Entornado (1978) e A Melhor Colheita (1979). Também por volta desta altura, a revista Tintim publicava quase semanalmente as gags de Cubitus em sequências de uma ou duas páginas, o que contribuiu para um maior reconhecimento do público por esta série.

E assim chegamos a outro herói de peso presente no catálogo da Arcádia: nada menos do que o impagável Gaston Lagaffe. Os quatro álbuns publicados servem como montra do génio de Franquin para criar dentro dum quotidiano mais ou menos “normal”, as situações mais rocambolescas que se possam imaginar, com soluções que roçam o delirante. Gaston tornou-se sinónimo do humor mais alarve, mas ao mesmo tempo bem elaborado e construído com regras que proporcionam ao mesmo tempo uma surpresa constante e um não mais acabar de gags, onde desfila uma curiosa galeria de personagens secundárias cada vez mais hilariantes. Os quatro títulos produzidos pela Arcádia têm hoje em dia um interesse meramente coleccionista ou motivado pela pura curiosidade, pois a colecção foi publicada na íntegra, e com melhor nível editorial, pela Meribérica. A colecção (composta por O Bando das Broncas [1978], Burrices Barracas e Broncas [1978], Dabronca dá Bota [1981] e O Caso Dabronca [1982]), não se reveste portanto de muito interesse para o leitor ocasional, sendo no entanto um must para o coleccionador mais preciosista. De notar que à semelhança das colecções do Spirou e Cubitus, também esta foi editada em capa mole e lombada colada, o que levou a que com os anos, os exemplares disponíveis se apresentem cada vez menos recomendáveis…

De certa forma interessantes para os collectors mais exaustivos a completar as suas colecções, as séries Tomé, Pantaleão e Martim (cada uma com três volumes publicados) não são, no entanto, banda desenhada. São álbuns de temática infantil (o que pode ser discutível…), com histórias acompanhadas por ilustrações duma página inteira. A arte não era nada de especial, a meu ver. Por alguma razão, muitos bedéfilos têm estas três colecções nas suas estantes, talvez porque a Arcádia lhes emprestou uma qualidade editorial acima da sua própria média, seja a nível exterior (eram todos em capa dura) como interior (papel mais grosso do que o habitual). O que se poderia facilmente justificar com o público-alvo (as crianças são os mais terríveis destruidores de livros, logo estes teriam de ser mais resistentes !… Tem a sua lógica…), mas que não deixa de ser um facto penoso, pois vendo estas 3 colecções e sua qualidade editorial, fica-se obviamente com a sensação de que, querendo, a Arcádia poderia ter lançado, por exemplo, as colecções do Spirou ou do Gaston num formato mais luxuoso, o que daria mais notoriedade aos álbuns e no final, à própria editora.

Por fim, de referir ainda a colecção Vickie o Viking, que adaptava à BD os episódios da série de desenhos animados japonesa e originalmente difundida na Alemanha nos anos 70. Esta colecção da Arcádia dava sequência aos 3 álbuns publicados pela Editora Família 2000, em 1975, e que publicaram os primeiro episódios da série televisiva. A arte bastante rudimentar parecia directamente inspirada nos desenhos animados. Pouco a destacar nesta colecção.

A Arcádia foi obviamente uma editora “muito para além” da Banda Desenhada, tendo lançado desde os anos 60 um extenso catálogo de literatura e livros técnicos apreciável. É no entanto pelo seu pequeno mas bom catálogo de álbuns franco-belgas que os bedéfilos nacionais a têm como referência, e buscam incessantemente as suas publicações no exigente mercado da BD antiga. Os seus álbuns perduram, sobretudo os Spirous de Franquin (nunca reeditados)** e as pequenas pérolas como Taka Takata ou Alain Chevalier. Ter estes exemplares bem conservados numa estante é hoje um privilégio, não só pela inegável qualidade da BD e do prazer de a ler em português, mas também pela nostalgia duma década que, mais do que qualquer outra, contribuiu para a divulgação e expansão da nona arte no nosso país. Por isso, aqui fica uma justa homenagem à Arcádia.
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* N.E. – O Chifre do Rinoceronte foi novamente editado em Portugal, alguns meses após este artigo ter sido publicado, na coleção Spirou da Asa/Público.
** N.E. – a não republicação foi parcial mas não totalmente ultrapassada com a coleção Spirou da Asa/Público.