danca_capaFoi em 2013 que a Pato Lógico iniciou a sua coleção Imagens que Contam. Nesse ano, foram publicadas Bestial de André da Loba e Sombras de Marta Monteiro (esta última com direito a nomeação nos XII Troféus Central Comics). Em 2014, sucederam-lhes Vazio de Catarina Sobral e Capital de Afonso Cruz (sendo esta última a vencedora da 19.ª edição do Prémio Nacional de Ilustração).

Um dos dois livros desta coleção editados em 2015 é Dança de João Fazenda. O interpretarmos este livro, tais como outros da coleção supramencionada, como uma obra de banda desenhada tem por base uma breve explicação, que pode ser lida aqui e aqui, e à qual não retornaremos neste artigo.

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A narrativa inicia-se nas folhas de guarda. Num mar de corpos dançantes e curvilíneos, surge um esboço de personagem retilíneo, transparente, que se limita a observar a vida à sua volta. A narrativa prossegue na folha de rosto, onde o título nos faz antever a importância que a dança terá durante a obra. O ser humano constituído por retas apresenta-se já opaco quando uma mulher de vestido vermelho lhe segura a mão em direção à pista de dança.

Aparentemente ele tem de ser arrastado para a dança, onde não só as curvas dos demais personagens contrastam com ele, mas também as vestes não encontram reflexo na sua camisa abotoada e na gravata apertada. Um personagem cinzento, parece-nos querer também gritar a colorização utilizada na sua tez.

Ela dança, descontraída. Relaxada, voa. Mas ele mantém-se com os pés no chão, para algum espanto dela…

Teria sido este o primeiro momento em que se encontraram e se enamoraram? Ou trata-se de um simples programa noturno de um casal já constituído? Não o saberemos… As páginas seguintes não nos deixam descobrir quanto tempo passou entre aquela noite e o pequeno-almoço retratado, onde confirmamos o amor dela. A fotografia na parede talvez seja alusiva ao seu casamento ou um simples momento capturado em que aparentemente ele estaria um pouco mais descontraído, sem gravata…

Terá sido a sua vida profissional, sem cor, que o acinzentou? Afinal, todos os seus colegas são cinzentos e ortogonais também… As preocupações quotidianas não dão espaço para que viva?

Aparentemente ele quer dançar. Mas este ser contido e pesado não o consegue fazer. Procurará ele reencontrar a paixão? Na entrevista que outro autor de BD nos concedeu, Lorenzo Gómez referia-se a uma necessidade incansável da sua personagem Júlio P. em mudar e conhecer pessoas, de apaixonar-se e desapaixonar-se, de ser necessário amadurecer e ter estabilidade com alguém mas sentir saudades da fase em que se apaixona. Haverá em Danças resquícios de tal?

O personagem masculino de Dança dedica-se a aprender os passos cadenciados. Ao invés de um manual de instruções, opta por um aprender fazendo, na qual conhece novas pessoas, que novamente desafiam a gravidade, ao contrário de si.

Curiosamente, será no regresso a casa e à sua mulher que, após a tempestade, num momento de relaxamento, o seu corpo começará a ganhar cor, as suas formas a se tornarem mais onduladas, a sua massa mais leve e se iniciará um balançar a dois.

O gira-discos é para ser ligado e a vida é para ser vivida.

Dimensões: 19,5 x 25 cm
Páginas: 32
ISBN: 978-989-98470-8-8
Preço: 13,50 €