Shaenon K. Garrity foi uma das autoras internacionais convidadas para o Amadora BD 2013. Tivemos a oportunidade de abordar o seu trabalho enquanto editora de manga, professora de BD, os seus trabalhos na web e na Marvel, o mercado norte-americano de BD e o futuro da BD. Eis a entrevista.

Nuno Pereira de Sousa: Desde 2003, tem sido a editora de mais de 20 séries de manga na Viz, incluindo Naruto, One Piece, Inuyasha, Kingyo Used Books e Case Closed. O que tem sido mais recompensador: a reescrita, revisão ou supervisão da publicação das edições norte-americanas de manga?
Shaenon K. Garrity: Eu adoro reescrever. O japonês e inglês são línguas muito diferentes. Transformar o texto em japonês num diálogo apelativo e credível é um desafio interessante.

NPS: Há algum manga que gostaria muito de editar mas (ainda) não o fez?
SKG: Sim, muitos. Há muitos mangas clássicos com os quais eu gostaria de trabalhar. Atagoul, um manga de fantasia sobre um grande gato amarelo bebedor de saké e os seus amigos é o meu projecto de sonho. Ainda não foi traduzido para inglês e seria maravilhoso colaborar na sua publicação para leitores de língua inglesa.

NPS: Nos últimos 10 anos, como evoluiu o mercado norte-americano de edição de mangas, quanto a vendas, diversidade do público-alvo, percepção do público e atenção institucional?
SKG: Bem, isso é uma grande questão. No início da década passada, o mercado de mangas nos EUA cresceu muito. As crianças e adolescentes passaram-se a interessar muito por manga e as bibliotecas começaram a disponibilizar séries de manga. O mercado decresceu há alguns anos, com a recessão económica, mas está a recuperar lentamente. Algo que me dá esperança quanto ao actual mercado de manga é que as editoras parecem estar com mais apetência para traduzir livros para mais públicos-alvo; há mais traduções de mangas para adultos, em especial mulheres, e alguns nichos de géneros, como história e adaptações literárias.

NPS: E como foi a evolução no que diz respeito ao manga original em língua inglesa (Original English-Language / OEL manga)?
SKG: Em certo sentido, o manga OEL mais ou menos que morreu; actualmente, existem poucas bandas desenhadas com o marketing a defini-las como manga OEL. Mas, por outro lado, cada vez mais autores norte-americanos crescem influenciados pelo manga, pelo que muita da banda desenhada norte-americana actual tem elementos reconhecíveis do manga, autointitulem-se ou não manga. Portanto, depende de como se define manga OEL. De um modo geral, os autores norte-americanos parecem estar mais cientes do trabalho que está a ser feito noutros países do que em décadas anteriores.

NPS: Também foi a editora de ModernTales.com, desde agosto de 2006, uma das mais populares antologias de BD online, disponível entre 2002 e 2012. Como foi essa experiência e porque encerrou?
SKG: O trabalho findou porque a Modern Tales (MT) terminou; após 10 anos, encerrou as portas. Eu estava envolvida com a MT desde o seu início enquanto autora e mais tarde enquanto editora. Foi uma grande experiência ao possibilitar conhecer outros autores, em especial na fase inicial da BD online, mas foi sempre difícil gerar verbas. A banda desenhada é um negócio difícil, especialmente online.

NPS: Ensina escrita para argumentos de BD na Academy of Art Univeristy. Quais são os conselhos que dá a alguém que se está a iniciar nessa área?
SKG: Cada um tem a sua própria abordagem da escrita, mas eu aconselho os estudantes, mesmo que não sejam ilustradores, a esboçar as páginas antes de escreverem seja o que for. A BD é um meio visual e os argumentistas precisam de ser capazes de pensar e trabalhar visualmente, mesmo que seja outra pessoa quem irá desenhar o trabalho.

NPS: Ultimamente, a sua ficção em prosa começou a ser publicada. Indique-nos as maiores diferenças que encontrou ao escrever prosa, ao invés de argumentos para BD.
SKG: Demora mais tempo a escrever tudo! Na verdade, a prosa e a BD são formas de arte muito diferentes e requerem abordagens diferentes. Algo prazeroso em escrever prosa é que eu tenho muito mais espaço para brincar com a linguagem. Não há muito espaço para floreados num balão de fala.

NPS: A sua primeira tira diária de BD online foi Narbonic, publicada entre 2000 e 2006. Fale-nos um pouco dela.
SKG: Eu iniciei Narbonic logo a seguir à faculdade, na mesma altura em que me mudava para São Francisco. Era uma tira diária sobre uma cientista maluca e o seu pessoal do laboratório. Estava a desenhar BD há algum tempo e tinha-me envolvido com a BD online. Algo de que eu gostava na BD online era a internet tornar mais fácil contar longas histórias com continuidade, sob a forma de tira diária, tal como as primeiras tiras de BD norte-americanas.

NPS: Como surgiu a ideia de fazer uma versão de realizador (director’s cut) de Narbonic?
SKG: Outro webcomic, Queen of Wands, realizou uma republicação com comentários após o seu término. Enviei um e-mail à autora e perguntei-lhe se lhe podia roubar a ideia.

NPS: Em 2008, regressou ao universo de Narbonic com uma nova tira tira diária online, denominada Skin Horse. No entanto, desta vez conta com Jeffrey C. Wells como co-argumentista. Quais são as principais diferenças em escrever e co-escrever material para um universo que criou?
SKG: Eu gosto bastante da colaboração na BD e já realizei vários tipos de colaboração possíveis: enquanto ilustradora a trabalhar com um argumentista, enquanto argumentista a trabalhar com um ilustrador, troca de papeis, etc. Eu adoro a prosa do Jeff e sempre quis trabalhar com ele em algo; e também tinha decidido que só retornaria a fazer outra tira diária se tivesse ajuda. Por isso, quando me surgiu a ideia para Skin Horse, enviei-a ao Jeff e perguntei-lhe se estaria interessado em colaborar comigo. Felizmente, ele gostou da ideia.

NPS: Se pudesse definir o Jeffrey C. Wells numa única palavra, qual seria?
SKG: Alto.

NPS: Escreveu para as revistas Marvel Holiday Special 2005, 2006 e 2007. Como se deu essa oportunidade?
SKG: Naquela altura, um dos editores da Marvel tinha trabalhado na Modern Tales e foi fundamental para envolver alguns autores de BD online na Marvel. Eu fui convidada para apresentar uma história para a Holiday Special e acabei por escrever uma história por ano até a Marvel cancelar os Holiday Specials. Apresentei outras ideias à Marvel, mas nada foi publicado. Pessoalmente, sempre quis fazer uma série passada no IMA (Ideias Mecânicas Avançadas), um instituto de ciências malévolo do Universo Marvel, porque eu adoro cientistas malucos.

NPS: Descreva-nos as duas BD online semanais que escreveu: Lil’Mell e Smithson.
SKG: Actualmente, não estou a escrever nenhuma das duas. Em ambos os casos, parei porque não estava a ganhar dinheiro suficiente para pagar ao ilustrador. Lil’Mell, que posso reiniciar um dia, era um spin-off de Narbonic (e tem lugar no mesmo universo de Skin Horse, mais ou menos); Smithson era uma graphic novel passada numa faculdade onde estavam a acontecer muitas coisas estranhas. Smithson era algo em que eu estava a trabalhar desde o ensino secundário e, durante muito tempo, era o local onde colocava todas as minhas ideias que não eram adequadas às outras histórias. Ainda gosto muito dela.

NPS: Também co-escreveu Trunktown. Como foi a experiência em trabalhar com Tom Hart?
SKG: Foi excelente! O Tom é um autor brilhante e eu sou uma grande fã do seu trabalho desde que eu estava no ensino secundário; foi maravilhoso poder trabalhar com ele. Atualmente, ele tem uma escola de arte de banda desenhada. Ele e a sua mulher, Leela Corman, são especialistas no meio.

NPS: Acredita que os webcomics podem ser rentáveis para os autores?
SKG: Sim, claro. Alguns webcomics são atualmente rentáveis. Mas para a maioria das pessoas é árduo para conseguir viver dos mesmos.

NPS: Como imagina que serão os formatos da BD impressa e digital daqui a 10 anos?
SKG: Suponho que tudo mude para online. Eu estou a começar a vender um número substancial das minhas BD no formato de e-book. Pessoalmente, estou um pouco atrasada na tecnologia dos tablets, mas está a tornar-se uma porção essencial da indústria editorial, pelo que tenho de aprender. Eu penso que os livros continuarão a ser importantes, mas não necessariamente a serem, por defeito, o formato eleito. Vai ser importante produzir livros bonitos.

NPS: E, na sua opinião, como irá evoluir o mercado na próxima década, no que toca aos géneros de BD publicados nos EUA?
SKG: Nos EUA, a BD ainda é maioritariamente vista como a BD de super-heróis, mas, na realidade, o mercado de super-heróis não parece se estar a expandir. A ficção científica e a fantasia podem crescer nos próximos anos e tornarem-se mais importantes. As graphic novels para crianças são um nicho importante que está a crescer.

NPS: Que oportunidades surgiram após ter começado a ganhar alguns prémios, como o Friends of Lulu Award e Stumptown Trophy Award?
SKG: Poucas. Desconheço o quanto os executivos da indústria se interessam por prémios.

NPS: As mulheres na BD: como tal se alterou desde que começou a trabalhar no meio?
SKG: Há actualmente muito mais mulheres na BD, quer como leitoras quer como criadoras, do que quando comecei. Eu julgo que iniciei a minha actividade durante um baixo patamar de participação de mulheres na BD. O mundo da BD dos anos 90 era muito dominado por homens. Hoje, isso é bastante menos verdade.

NPS: Qual a sua opinião sobre o Amadora BD 2013?
SKG: É maravilhoso! Concretamente, as exposição são impressionantes. Adorei a de Mutts e a de Spirou.