A exposição Viagem Desenhada de Ricardo Cabral inaugura no dia 26 de setembro a programação satélite do festival Amadora BD 2015. Estará patente na Casa da cerca até 10 de janeiro de 2016.

Eis a divulgação sobre a exposição e o autor:
A exposição “Viagem Desenhada”, de Ricardo Cabral, inaugura este sábado, 26 de setembro, às 17h30, na Casa da Cerca (Almada) marcando, assim, o início da programação satélite do Amadora BD 2015 – Festival Internacional de Banda Desenhada, que acontece de 23 de outubro a 8 de novembro, no Fórum Luís de Camões (Amadora).

Ricardo Cabral – autor em destaque da edição de 2013 do Amadora BD – foi o escolhido no universo da ilustração e da banda desenhada para refletir o tema que este ano norteia a programação da Casa da Cerca, a “Viagem”. Constituindo um percurso pela obra do autor, a exposição reúne diversos trabalhos, nomeadamente cadernos e esboços ligados aos seus livros que têm esta temática como ponto de partida, dos quais são exemplos: Evereste (2007), Newborn – 10 dias no Kosovo (2010), Israel Sketchbook (2009), Pontas Soltas – Cidades (2011), Comic-Transfer (2013) e Pontas Soltas – Lisboa (2014).

No dia 31 de outubro realiza-se uma visita à exposição orientada pelo autor e a exposição permanece até dia 10 de janeiro de 2016.

Ricardo Cabral é licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa em 2005, trabalhando desde então como ilustrador freelancer para marcas e publicações tão variadas como a Super Bock, Samsung, Moleskine, Time Out ou Correio da Manhã. Faz parte do Coletivo Lisbon Studio e, para além dos livros de BD,  ilustrou também os livros infantis Portugal para Miúdos, de José Jorge Letria (Texto Editores, 2011), Expressões com História, de Alice Vieira (Texto Editores, 2012), Uma Baleia no Quarto, de João Miguel Tavares (A Esfera dos Livros, 2012) e Caras e Coroas – Reis e Rainhas de Portugal para Miúdos, de José Jorge Letria (Texto Editora, 2014).

Exposição “Viagem Desenhada” de Ricardo Cabral
Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporênea, Rua da Cerca, 2800-050 Almada
Inauguração: sábado, 26 de setembro de 2015, 17h30
Datas da exposição: de 26 de setembro de 2015 até 10 de janeiro de 2016
Organização: Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea/Câmara Municipal de Almada
Parceria: Amadora BD – Festival Internacional de Banda Desenhada/Câmara Municipal da Amadora

O seguinte texto é da autoria de Sara Figueiredo Costa:

Registos de viagens podem ser simples descrições de um espaço ou discursos mais complexos sobre a existência desse espaço na sua interacção com quem o visita. Ricardo Cabral, autor de banda desenhada e ilustração com várias obras publicadas, tem trabalhado o registo de viagens de um modo particularmente consistente, em livro ou histórias curtas, num traço que tem evoluído e sofrido as mutações do tempo sem nunca perder a identidade.

Assumindo uma primeira pessoa na narrativa e colocando-se enquanto personagem activa dessa mesma narrativa, ao mesmo tempo que assume parte dos seus livros (Israel Sketchbook e Newborn – Dez Dias no Kosovo) como relatos de viagem, documentais, Ricardo Cabral esbate a fronteira que define o pacto de leitura ficcional. E se esse esbatimento não coloca problemas nos dois livros referidos, as histórias curtas publicadas em volumes onde a ficção é presença explícita (Pontas Soltas, por exemplo) tornam mais complexo este edifício onde diferentes camadas de verosimilhança se sobrepõem.

O facto de os dois livros serem assumidamente relatos de viagem não os coloca, no entanto, no patamar da reportagem, e esse é um factor importante na leitura da obra de Cabral. Por um lado, sabemos que aquelas páginas resultam de viagens concretas e da vontade de dar a ver uma determinada realidade; por outro, não há no discurso de Cabral qualquer gesto que aponte para um processo jornalístico. Mais do que a reportagem, género jornalístico que tantas vezes se refere perante o trabalho de Ricardo Cabral, importa invocar o género diarístico, chamemos-lhe assim sem entrar, aqui, numa discussão sobre géneros e sub-géneros literários. Associado ao relato de viagem, o diário incorpora características que se reconhecem nestas pranchas, do desabafo mais quotidiano à expressão de inquietações ou entusiasmos face ao que se vai encontrando, e sempre no registo da primeira pessoa. Tal como na reportagem, espera-se que um diário, sobretudo de viagens, não seja o resultado da invenção do seu autor, mas que tenha algum grau de contacto com aquilo a que chamamos realidade. Só que, ao contrário da reportagem, o diário não obedece a códigos jornalísticos, nem está de modo algum obrigado a manter com a pluralidade de pontos de vista, fontes e informações qualquer contrato ético, pelo que a sua liberdade para definir a narrativa é total. É assim que as narrativas de viagens de Cabral podem passar de um momento de descrição de um determinado espaço para uma digressão emocional sobre as emoções do narrador perante a insegurança ou o medo.

Uma das particularidades dos livros de viagens de Cabral é a quase total ausência da sua autorepresentação, preferindo compor cada prancha como o resultado da sua observação, mantendo o ângulo e o ponto de vista. Temos, então, um narrador participante, mas que opta por manter a sua figura fora do campo da prancha (salvo momentos muito particulares, mas mesmo nesses, o mais comum é aparecer apenas uma parte do corpo, uma sombra, uma fotografia pouco nítida). O resultado é a ilusão narrativa que cria no leitor a possibilidade de ver o mesmo que o narrador, numa coincidência de pontos de vista que atravessa parte considerável dos registos de viagens do autor.

Um outro traço definidor do trabalho de Ricardo Cabral é o recurso à fotografia como parte essencial do processo de desenho. A cor utilizada nos seus livros de viagens resulta das fotografias que o autor tirou nos locais e que utilizou, posteriormente, para construir a paleta cromática com que trabalha, no computador. Este processo, que em Israel Sketchbook era sobretudo de aplicação da cor, evoluiu enquanto modo de registo e construção da narrativa, pelo que em Newborn – Dez Dias no Kosovo já vemos a fotografia incorporada no livro, criando sequências de vinhetas.

Nos livros de viagens de Ricardo Cabral, o tom é o da descoberta passo a passo, sem que se vislumbre qualquer receio de resvalar para a ingenuidade ou o espanto perante o que o narrador desconhece. Sem fingir dominar o terreno, recusando aquela sobranceria que faz de alguns relatos de viagens uma tentativa desesperada para recusar o papel de turista e assumir o de flaneur, o narrador de Cabral não teme esse papel. Em Newborn – Dez Dias no Kosovo afirma-o, aliás, com toda a naturalidade, quando regista à vista do Monte dos Mártires e assinala a estranheza de um grupo de crianças ao vê-lo naquele lugar: “Imagino que, por aqui, turistas perdidos como eu sejam raros.”

Apesar dessa humildade na caracterização do autor-narrador, o trabalho de Ricardo Cabral não se define pela mera estruturação de um itinerário ou pela divulgação acrítica das características dos lugares que visita, mas antes pela construção narrativa e imagética de um espaço, de vários espaços. Em Israel, no Kosovo, em Barcelona ou em qualquer outro destino, o olhar do autor é a ferramenta que permite criar um novo espaço, onde se reconhecem os elementos ‘reais’, mas onde os pequenos episódios, as observações momentâneas e as descobertas inesperadas erguem um novo lugar, tão único quanto inalcançável fora destas páginas.