A exposição central do festival Amadora BD 2015 A Criança na BD é comissariada por João Paulo de Paiva Boléo, com sugestões de Pedro Moura, sendo a cenografia da responsabilidade de GNBT.

No dia 31 de outubro, Pedro Silva documentou fotograficamente a exposição, a qual  se encontra dividida em 5 núcleos, a saber:
1) Tropelias infantis – inocência e perversidade
2) Heróis / Aventura
3) A infância em grupo – “Turmas” / Família / Escola
4) Peanuts / Mafalda / Calvin
5) O fim e a revisitação da infância

De modo a facilitar a navegação, optámos por dividir as fotorreportagens por 5 artigos, devidamente acompanhados pelo texto de João Paulo de Paiva Boléo que consta do Dossier de Imprensa Amadora BD 2015, remetido pela Organização.

1. TROPELIAS INFANTIS – INOCÊNCIA E PERVERSIDADE

Veja mais 12 fotografias da exposição dedicada às Tropelias infantis – inocência e perversidade na nossa fotorreportagem do dia 31 de outubro, disponível aqui, e mais 7 fotografias na nossa fotorreportagem de 25 de outubro, aqui.

A Criança na Banda Desenhada
João Paulo de Paiva Boléo

A BD e a criança

Quando se fazem listagens, levantamentos de obras em qualquer actividade da criação artística em sentido amplo, é hoje habitual sublinhar que tanto ou mais do que a importância de que se revestem as escolhas (que permitem sempre a muitos interessados alargar horizontes e fazer estimulantes descobertas), elas são no fundo o reflexo de uma época, de uma visão concreta e delimitada num espaço e num tempo. Mais sintoma do que cânone.

Quando se aborda o vastíssimo tema da Criança na banda desenhada (BD), não está em causa uma escolha meramente pessoal – embora o gosto e alguma subjectividade estejam inevitavelmente presentes – mas a preocupação de abarcar de uma maneira tanto quanto possível expressiva e representativa esse universo, conjugando um conjunto de critérios que se consideram os adequados para o objectivo em causa (uma exposição no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, partindo da celebração do centenário de Quim e Manecas para uma panorâmica e uma reflexão mais vastas) e tendo presentes naturais limitações de acesso aos materiais ou outras que condicionam naturalmente o resultado final.

Situamo-nos, desde logo e apenas, no universo da Banda Desenhada, sem esquecer que apesar das suas evidentes especificidades e originalidades, por vezes de grande qualidade, se insere numa tradição muito mais ampla da imagem da Criança nas artes plásticas e na literatura. Daí que – esclareça-se desde já – salvo situações subjacentes não se consideraram as bandas desenhadas que adaptam directamente obras literárias ou personagens que se imortalizaram na literatura e passaram para outros suportes, do cinema à BD. Só isso daria outra exposição, e seria interessante analisar a diversidade de adaptações e transposições. Como se exclui igualmente a ligação cada vez maior entre cinema e BD e as muitas passagens daquele para esta,
e vice-versa.

Procurou-se, assim, evocar as linhas mestras da forma como a Criança se tornou uma das presenças essenciais da e na BD, em núcleos que reúnem (com a artificialismo que sempre implica de algum modo) as abordagens dominantes, mas tendo como um dos critérios delimitadores fundamentais a realidade portuguesa, num duplo sentido. Desde logo, dar uma panorâmica tão representativa quanto possível do mundo infantil (ou infanto-juvenil) e familiar na visão dos nossos autores de BD, e desde cedo. Mas, por outro lado, destacar as séries, os heróis, que marcaram o imaginário dos leitores portugueses, que nalguns casos passaram mesmo a fazer parte das referências culturais de uma ou várias gerações, passaram a ser, na expressão
consagrada por João Bénard da Costa, muito lá de casa.

Mais do que uma leitura aprofundada, detalhada caso a caso, pretende-se, pois, a partir de uma exemplificação ampla mas também simbólica – e onde haverá inevitavelmente falhas e alguns sentirão seguramente a ausência daquele herói, daqueles miúdos ou miúdas que os marcaram indelevelmente – tentar perceber e apreender como é que afinal a BD (os seus autores, desenhadores, argumentistas, editores) “pegaram” nas crianças. E depois, como é que elas “marcaram” os leitores, de todas as idades em muitos casos.

E também neste aspecto, se quisermos tirar ilações sociológicas, se calhar a maior parte do universo infanto-juvenil presente dirá mais sobre literatura e gosto (ambos em sentido amplo) do que propriamente sobre a condição da Criança no século XX, por exemplo, sem deixarem de transparecer, naturalmente, muitos elementos. E se calhar nem sempre nas obras mais famosas.

A BD e a descoberta do mundo. A descoberta do mundo na BD. Ao pensarmos na relação entre a BD e as crianças estamos a pensar na forma como ela nos apresenta as crianças na sua relação com o mundo, estamos a pensar quais obras de BD são para crianças, ou estamos a pensar na nosso própria descoberta do mundo (também) através da BD, do que ela nos ensinou, dos horizontes que nos abriu?

Está por (com)provar – que saibamos – se é fundamental ter lido BD em criança para verdadeiramente a compreender, fazer funcionar a imaginação que preenche o espaço branco entre as imagens, ter a capacidade de entender todos os seus códigos e ser capaz de apreender toda a sua riqueza, humor, subtileza. Provavelmente é.

Porventura ainda mais difícil será definir o que é BD para crianças, não só pela pluralidade de leituras que muitas obras permitem, mas também pelos diferentes níveis de maturidade das próprias crianças.

Recorde-se, aliás, que apesar do muito caminho percorrido pela BD, ainda paira em termos gerais e está presente em muitos espíritos a ideia de que é uma coisa para crianças. Convém, pois, sublinhar desde já que quando se olha para o universo da BD com atenção e sem preconceitos, rapidamente se percebe que não é bem, em muitos casos, e não é, em muitos mais ainda, nada assim. Mesmo em relação a algumas séries protagonizadas por crianças.

Mais fácil, aparentemente, seria definir, ou delimitar a criança, em termos etários pelo menos. A lição anglo-saxónica, ou se preferirmos a puberdade, pode dar uma ajuda fundamental, e nesse sentido seremos crianças, como regra e como base de trabalho, até aos 12 anos, antes dos teen-agers.

Não é essa, no entanto, a perspectiva da Convenção sobre os Direitos da Criança da Unicef, de 1989, segundo a qual «criança é todo o ser humano menor de 18 anos», critério compreensível para a protecção de crianças e jovens perante tantas violências, tragédias e atrocidades, mas
que não é de todo operacional neste contexto, sob pena, por um lado, de ser BD para crianças quase toda a BD, e, por outro lado, de ser BD com crianças uma boa parte da BD, subsumindo na criança o adolescente, o jovem, com todas as diferenças inerentes.

Curiosamente e em sentido oposto, num livro recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre Adolescentes, a pediatra Maria do Céu Machado começa por falar dos «adolescentes dos 10 aos 14 anos», e recorda que a «Organização Mundial de Saúde define a adolescência
como o período da vida dos 10 aos 20 anos e a juventude dos 15 aos 24 anos de idade» (p. 16).

Mas já muito mais difícil, de novo, será definir a criança na História, será determinar quando, em que sociedades, é que a criança foi tratada e encarada como tal, e não como um adulto em ponto pequeno, um aprendiz para o mundo do trabalho e da produção desde tão pequeno quanto possível.

Colocando-nos na perspectiva do senso comum (e de leigo…) poderia dizer-se que uma das mais interessantes não-controvérsias da sociologia e dos estudos sobre a vida quotidiana diz respeito à “invenção” moderna da criança.

É da “cultura geral” e pacífico (?) que a criança apenas se terá historicamente autonomizado e sido encarada como tal na (con)sequência das dinâmicas sociais da Revolução Industrial e da Revolução Francesa e das reflexões inerentes de filósofos que marcaram e influenciaram essas
transformações e o tempo futuro (o nosso).

Antes disso, e desde a mais longínqua Antiguidade, a criança não era mais do que um adulto em ponto pequeno, passando das “saias da mãe” para o mundo do trabalho.

E se pensarmos nos direitos das crianças (acompanhando outros movimentos e outras declarações no mesmo sentido), então só em pleno século XX é que verdadeiramente se poderia começar a falar em crianças. E é incontroverso o desenvolvimentos exponencial do papel da criança na(s) nossa(s) sociedade(s), incluindo a esmagadora componente comercial e de consumo.

E no entanto…

Não é aqui nem o tempo nem o lugar (nem a pessoa…) para tratar aprofundadamente e demonstrar que talvez não seja bem assim. Desde que há arte que há a presença da criança na arte, e há muitos exemplos (desde logo funerários e memorialistas) e objectos (desde logo brinquedos) que mostram uma especificidade na maneira de encarar, de perpetuar esses seres que indiciam não só uma consciência natural mas uma ternura pelas crianças como tal, com a sua originalidade e imaginário próprios. Em plena Idade Média, aliás, nas palavras de Frei Bento Domingues (Público, 4/10/2015), S. Francisco de Assis «colocou a criança no coração da cultura europeia, ao recriar o Natal».

Mas isso, como se costuma dizer, é outra história.

A Criança na BD

Não se trata, pois, aqui, compreensivelmente, de nenhum tratado sobre a Criança na História e na Arte, mas pretende-se, mais modesta mas impressivamente, evocar exemplos significativos e simbólicos da criança nas imagens e da imagem da criança numa vertente que virá a ter um papel determinante, a banda desenhada. E, entre muitas nuances, em dois vectores essenciais. Como reflexo do universo infantil, no tempo da sua criação, mas também como instrumentos de reflexão sobre o mundo e a sua descoberta. Crianças/crianças, até certo ponto, mas também crianças/símbolos, crianças/filósofos. Numa interligação nem sempre fácil de desconstruir, pois muitas criações da BD, muitas personagens de tenra idade são simultaneamente abstracções e miúdos ou miúdas concretos, como que reais.

Acompanhando o desenvolvimento editorial geral, seria apenas no século XIX que surgiriam as publicações (também) dedicadas às crianças, as revistas “especializadas”, as preocupações de formação e educação, sem esquecer a vertente lúdica.

À medida que a imprensa se foi desenvolvimento e aperfeiçoando, quer em publicações periódicas quer mesmo (já) em livro, foram também surgindo, de forma mais elaborada, extensa e convincente, histórias em imagens, sendo hoje pacífico atribuir a paternidade da BD moderna, as origens da BD como a entendemos e encaramos, ao suíço Rodolphe Töpffer, sem ir a narrativas em imagens mais remotas ou mesmo aos primeiros séculos da imprensa depois da criação dos caracteres móveis.

E a partir de meados do séc. XIX, entre muitas outras predominantemente para adultos ou – aspecto relevante – para todas as idades, vão surgindo na Europa muitas BDs com e para crianças, com destaque, talvez, para países como a França, em geral com um tom mais edificante, e a Alemanha, com um leque significativo de grandes artistas e um humor muitas vezes mais carregado e mesmo cruel.

E quando nos cingimos às crianças na BD, que é o universo aqui especialmente evocado, a pluralidade de abordagens, de registos, de características, de psicologias, etc., descobrimos não só uma diversidade surpreendente, mas uma pulverização das características etárias, formas muito diferentes de evocar e retratar o universo infantil, mas também de o utilizar como parábola, como símbolo, como enquadramento, como descoberta, como aprendizagem, como socialização.

As crianças começam por ser, na BD ou através dela, um espaço de liberdade e imaginação.

De Max und Moritz à Aventura

Poderia dizer-se, muito resumidamente, que há duas tendências que se cruzam em relação às primeiras presenças das crianças na BD moderna (nos termos propostos), sem esquecer, aliás, que a BD, associada à caricatura e à sátira, ao “comentário” político, vai começar por ser sobretudo para adultos.

As crianças traquinas, ou mesmo mais do que isso, que fazem tropelias e patifarias, rebeldes, que fazem trinta por uma linha, e as crianças bem comportadas, exemplares, que surgem como representantes de histórias edificantes, personagens que corporizam uma visão educativa em geral em fundo confessional de forte influência cristã e católica, mas também podendo ser em contexto republicano.

Esse lado educativo e pedagógico está em geral associado a certo tipo de publicações destinadas aos mais novos e aos educadores, mas está longe de constituir as referências que mais impacto tiveram e que mais marcaram gerações e depois a memória dos estudiosos – que tem sempre escolhas e esquecimentos por vezes injustos e injustificados, mas que em geral conserva e destaque efectivamente o mais marcante.

E com nuances e talentos artísticos variados, são as crianças “diabretes”, em geral aos pares e com maiores ou menores enquadramentos familiares e de grupo, que vão dominar a presença desta faixa etária na BD.

Como é natural, pelo seu apelo e pelas características de personalidade, de imaginação, e de criação de um universo coerente, as crianças “más” são mais propensas à criação de séries, a uma continuidade de histórias.

Neste confronto entre meninos “bem” e “mal” comportados, em termos de criatividade, de continuidade e de construção de um universo coerente e mais rico, portanto, os “maus” ganham claramente aos “bons”.

Sublinhe-se no entanto que, se há exemplos perversos e muito cruéis (no fundo, são sempre adultos os autores…), muitas vezes o que predomina é um ambiente louco e indisciplinado, mais propenso à “defesa e ilustração” de uma liberdade anárquica ou anarquista do que à maldade, não faltando cumplicidades entre adultos e crianças.

E neste aspecto e contexto é incontornável começar pelo começo. Pelo impacto, qualidade, perenidade e influência, podemos dizer que as crianças irrompem estrondosamente (pela truculência das tropelias e pela violência do castigo) na BD com Max und Moritz do artista alemão Wilhelm Busch, surgidos no terceiro quartel do séc. XIX.

História forte e edificante entre todas, dá o tom. Os miúdos fazem coisas terríveis, que provocam o nosso riso mas também o nosso desconforto e mesmo repúdio, e acabam castigados de uma forma que espantaria se hoje (num tempo em que as imagens são muito mais desbragadamente
violentas) “heróis” populares da BD (e do cinema, televisão, computador, etc.) tivessem um final, ou melhor dizendo um castigo, semelhante.

Esse modelo, com variações naturais num século e meio de História tão complexa e frenética, manteve-se sempre como uma das grandes matrizes, e é porventura a que melhor representa e simboliza a criança na BD. Embora, naturalmente, a presença infantil se complexifique e diversifique com o desenvolvimento da BD, essa faceta rebelde e provocadora manter-se-á.

A partir do séc. XX, porém, de um universo mais “infantil” de tropelias e histórias curtas, vai emergir (com uma postura mais positiva) a criança/herói num contexto de aventura e de maior continuidade narrativa, seja com mais elementos de maravilhoso, seja em contexto de acção mais “clássica”, em que as nuances etárias, quer entre heróis quer no percurso do(s) próprio(s) herói(s), serão significativas, constituindo seguramente o ponto mais delicado e polémico em relação às opções (e exclusões) tomadas.

Estes foram os dois principais pontos de partida: as crianças “destruidoras” começando em Max und Moritz, e as crianças heróis de aventuras. Depois, entre família e escola e grupo, pedagogia e poesia, acção e reflexão, descoberta do mundo ou já memória da infância perdida, o universo diversificar-se-á, acompanhando tendências e desenvolvimentos.

1 – Tropelias infantis – inocência e perversidade

Tendo sempre presente que quando se resumem linhas mestras e tendências principais há nuances, excepções, aspectos menos conhecidos que não podem ser contemplados, poderíamos dizer, simplificadamente, que, no sentido já referido, a BD começa por desabrochar na Europa, vai ter um desenvolvimento decisivo e avançado nos EUA, no virar do século XIX para o XX, que, por sua vez, vai contribuir para a expansão e aperfeiçoamento de novo da BD europeia, sem prejuízo de algumas continuidades mais convencionais.

E é por isso que – pelo menos simbolicamente e como observou o especialista belga Charles Dierick perante as páginas inicias de 1915 – se pode afirmar que o missing link desse efeito de “torna viagem” que vai potenciar uma aceleração e modernização da BD na Europa é o Quim e Manecas de Stuart Carvalhais.

Não é certamente por acaso que a banda desenhada norte-americana acabou por ficar conhecida por comics. Até à década de 1920 e especialmente de 1930 era o humor que dominava, em especial nos jornais de grande formato cuja expansão e concorrência contribuíram decisivamente para o verdadeiro eclodir e consolidação da BD na cultura e na arte (muitos ainda preferem dizer apenas cultura de massas), nos hábitos de leitura e no imaginário de gerações. E entre uma plétora de séries de grande qualidade e originalidade, muitas delas graficamente espectaculares, o que os suplementos dominicais proporcionavam, também surgiram BDs protagonizadas por crianças, ou principalmente por crianças, sem esquecer aquelas em que as crianças também estão presentes como companheiras de “heróis” adultos ou integradas em grupos de várias idades.

Desse vasto universo, evoquemos algumas das que se destacaram pelo pioneirismo, qualidade e originalidade e pela longevidade e influência.

É famosa – embora não se deva empolar a sua importância pioneira – a página do Yellow Kid de 25/10/1896 pelo uso do “balão”, mas é no ano seguinte que a BD vai dar um salto qualitativo e ter um dos seus marcos mais relevante com o surgimento de uma série com crianças como principais protagonistas, embora não só: The Katzenjammer Kids. O seu criador, Rudolph Dirks, nasceu na Alemanha, vindo depois a fixar-se nos EUA quando os pais emigraram. E este facto é particularmente relevante como um dos exemplos mais importantes (e até simbólicos) de um vasto movimento que, como noutras áreas (desde logo o cinema), contribuiu para enriquecer a cultura americana não só no campo da criação mas também no da fruição, no dos consumidores que traziam consigo a cultura europeia, alemã e outras. E não por acaso, esta série, a primeira que simultaneamente é uma verdadeira BD na sua linguagem e teve continuidade na sua publicação regular (viria a ser, no conjunto da sua história, a mais duradoura de sempre), teria como referência e “ponto de partida” a fundadora BD alemã Max und Moritz. E daria o tom, num ambiente “louco” em que um conjunto de cinco personagens principais, mas sobretudo The Captain and the Kids, entrecruzando-se com as mais surpreendentes figuras e mesmo animais, vão viver as mais variadas peripécias que não deixam de ter um leque variado de leituras, da crítica social ao puro humor, passando pela pedagogia do crime e castigo, etc. Este segundo nome da série resultaria de um famoso conflito jurídico pela salvaguarda de direitos devido à “transferência “ de Dirks de um para outro dos principais grupos editoriais, originando duas séries paralelas, a segunda (com o nome inicial) por Harold Knerr, já nascido nos EUA mas também não por acaso filho de um emigrante alemão chamado Calvin, que animaria
com raro talento até à sua morte.

E sempre a acompanhar o que se vai passando pelo mundo, Portugal teve desde cedo a sua versão made in Portugal dos Katzenjammer Kids, pela mão de um dos autores europeus mais inovadores e precursores, Rocha Vieira, com As proezas de Necas e Tonecas no jornal de grande formato O Século.

Mais tarde estes miúdos (e adultos!) endiabrados passariam por diversas publicações portuguesas, com destaque para O Mosquito, e nos 1970 na revista Carlitos, que se dividia entre esta série e os Peanuts, etc.

Daqueles mesmos anos fundadores, outro artista importante é Richard Felton Outcault, desde logo por causa de Yellow Kid, que embora fosse em geral uma cena de página inteira que não era bem BD, teve de facto algumas páginas importantes, nas quais se inscreve a célebre cena com um gramofone e o uso… de balões. Mas a sua série talvez mais popular seria Buster Brown, com o contraste de já não serem miúdos de rua (Hogan’s Alley) mas ser um menino com ar bem comportado, num ambiente mais “burguês”, mas no fundo não lhe faltando imaginação para as maldades não isentas de perversidade.

Enquanto estas e outras séries se desenvolviam e divertiam semanalmente (e depois também diariamente) os leitores norte-americanos de todas as idades, e já tinham surgido obras-primas absolutas como Little Nemo (como veremos) ou Krazy Kat, a Europa já percorrera um longo caminho,
em que ainda predominava a BD para adultos, na linha dos grandes mestres ingleses da caricatura do século XVIII, embora já se verificasse aqui e ali, como vimos, mais edificante ou mais anarquizante, a presença infantil. Mas as séries que se iam afirmando e tornando populares ainda eram em geral protagonizadas por adultos, como os Pieds Nickelés, embora fossem surgindo figuras (mais) juvenis, como a encantadora e provinciana Bécassine. Vastíssima viria ser a produção inglesa de personagens, duplas ou em grupos mais vastos, em geral adultas mas também com significativas presenças infantis, envolvidos nas mais loucas peripécias, que viram a ter assinalável presença em Portugal, sendo talvez os mais famosos os baptizados Serafim e Malacueco.

Também a Itália teria uma escola original e marcante em torno da pioneira revista Corriere dei Piccoli, desde 1908, publicando muitas BDs americanas em que os balões eram substituídos por textos e versos em baixo. De entre os seus colaboradores um lugar especial merece Antonio Rubino, com histórias de uma assinalável modernidade e riqueza gráfica, destacando-se pelo seu arrojo e originalidade Quadratino, cuja cabeça quadrada vai tomando outras formas geométricas.

E é neste contexto que Portugal vai revelar uma modernidade e uma qualidade que, sincronicamente, raramente voltou a ter no futuro em termos globais, apesar de algumas figuras relevantes e originais que a nossa BD foi tendo ao longo do tempo até aos dias de hoje.

Em contexto adulto, ainda no século XIX bastaria Rafael Bordalo Pinheiro para o documentar, mas é com Stuart Carvalhais e (com Acácio de Paiva) o seu Quim e Manecas, como há muito se vem sublinhado, que a BD portuguesa e europeia chega à modernidade e a modernidade chega à BD portuguesa e europeia.

Tendo presente a lição americana (que era necessariamente conhecida), e muito antes da maturidade que a BD europeia só atingiria nos anos 1930, surge esta BD com uma qualidade gráfica, uma leveza e desenvoltura, uma modernidade de ritmo, de humor, e até na utilização de balões que na Europa, de forma consistente, nunca se vira nem veria por uma década ainda. O missing link. Era como se, vinda do outro lado do Atlântico, a BD tivesse desembarcado aqui, passado o testemunho a Stuart Carvalhais, só depois começando o seu périplo europeu. É, pois, em 21 de Janeiro de 1915, que – para recordar o primeiro título – surgem “Quim, Manecas e o seu cão Piloto”, na tradição das tropelias infantis, ainda ao sabor do improviso.

Muito esquematicamente, podemos estabelecer quatro grandes tipos de histórias (de maior ou menor dimensão): partidas ingénuas, aventuras “policiais” ou de espionagem, episódios de cariz político, social ou cultural e participação na Grande Guerra. Claro que por vezes as coisas se interligam, e há características “transversais”, a principal das quais é a componente de inventor de Manecas, que é o “herói” principal, exercida sobretudo ao serviço dos Aliados, contra os “boches”.

É a arte e o talento de Stuart que dão cimento a toda esta criação. De um começo ingénuo, inspirado nas partidas de crianças que são uma das matrizes fundadoras da BD, incluindo a muito provável influência do Yellow Kid no bibe de Manecas, a série vai evoluir rapidamente para uma
assinalável maturidade, rara ou mesmo única na Europa do seu tempo.

O traço fácil e expressivo, a construção da sequência e da prancha como um todo, a modernidade de ritmo, a qualidade, leveza e agilidade gráfica, a beleza e o domínio dos recursos específicos da BD, a harmonia estética e cromática de muitas páginas, um humor que transparece não só do texto e dos diálogos mas das próprias personagens, das situações, da acção, a ternura das figuras principais, tudo isso e muito mais fazem de Quim e Manecas, com ou sem balões, uma das grandes e mais significativas obras da Arte portuguesa do início do nosso modernismo e mesmo do século XX. Já é tempo, pois, de a banda desenhada deixar de ser apenas, quando muito, um parágrafo ou uma nota de pé de página nas biografias dos artistas ou nas Histórias gerais da Arte Portuguesa.

Concluído o primeiro ciclo uma semana depois do Armistício, a série só reaparecerá com regularidade nos anos 1930, com excepção de uma passagem pela nova Rússia, incluindo um encontro com Lenine, logo em 1919, em duas páginas do jornal Os Sports.

Mas o Quim e o Manecas não deixarão de estar presentes na BD, na edição, no merchandising. Retomados e homenageados por vários artistas, merece especial destaque a sua presença como “guest stars” no ABC, pela mão de Cottinelli Telmo, integrados na primeira versão do “Pirilau” que vendia balões. E depois de aparições breves, vão ter presença mais longa em três publicações apenas: Sempre Fixe (1930-31 e – Manecas e João Manuel – 1939-40), Diário de Lisboa (1931-39) e Pajem do Cavaleiro Andante (1952-53), o último ciclo.

Para além de Quim e Manecas, Stuart vai participar de forma marcante nas três publicações da “família” ABC. No próprio magazine, no mais efémero e excelente ABC a Rir, para onde desenhará algumas das suas melhores BDs para adultos, e no ABC-zinho, como se sabe. Passará por outras revistas marcantes e deixará páginas infantis delicosas no Tic-Tac.

Os Anos 1910 e 20 portugueses podem realmente ser considerados um período áureo da BD portuguesa. Isso poderá soar estranho porque a memória dos velhos apreciadores de BD e (con)sequente “tradição oral” recua apenas até à BD de aventuras e as revistas que ficaram míticas, emergindo como “primeiros” grandes autores de BD portugueses artistas como Eduardo Teixeira Coelho ou Fernando Bento.

Mas efectivamente há todo um movimento, associado ao modernismo mas não só, que vai ser particularmente inovador quer a nível português quer mesmo europeu, conjugando vários aspectos (embora a Europa disso saiba pouco e nalguns casos, atrevo-me a dizer, nem queira saber). A efectiva qualidade artística, a modernidade de linguagem, a precocidade, o conhecimento e adaptação engenhosa da “lição” norte-americana, temáticas inovadoras, caminhos inexplorados, etc.

Considerando apenas alguns dos mais relevantes que dedicaram também especial atenção às crianças, tem-se considerado Cottinelli Telmo o segundo moderno da BD portuguesa, com um traço ainda mais modernista e geometrizante do que o de Stuart, textos igualmente delirantes e cheios de private-jokes, com destaque para o Pirilau que vendia balões…, inicialmente na revista-magazine ABC desde 1920, ele que viria ser o fundador a grande mestre das publicações infanto-juvenis, com a criação da revista ABC-zinho, onde congregaria e incentivaria talentos como o de Cardoso Lopes, Emmérico Nunes, Rocha Vieira, etc., e especialmente Carlos Botelho, que sobretudo na 2.ª série de formato grande e mais colorida irá construir uma obra que é objectivamente das maiores de toda a BD europeia dessa década, histórias infantis e escolares como as de Zé Carequinha, aventuras policias e de suspense, histórias mais poéticas como as de Sanchinho Papa-Figos, tudo culminando na grande aventura, invulgar para a época pelas peripécias e pela geografia, Zuncha artista de circo, um Tintin avant la lettre, como se tem sublinhado, em que a mão de arquitecto está presente em breves apontamentos.

Cottinelli teve ainda o mérito e o pioneirismo de convidar desenhadoras como Ofélia Marques, presente com belas páginas, sendo na 1.ª série do ABC-zinho que surge, numa tira vertical, a primeira assinatura feminina da nossa BD, Amélia Pae da Vida, pequenos exemplos de uma intervenção feminina artística e literária deveras significativa nessas anos, e que teria uma continuidade apreciável nas publicações femininas da Mocidade Portuguesa.

Na mesma altura, numa revistinha modesta, suplemento do Diário de Notícias, o Notícias Miudinho, outro grande artista português, notável animalista, Vasco Lopes de Mendonça, animava delicadas e poéticas histórias com Nicolau e Nicolina ou o elefante Li-Li-Fan, em ambientes
escolares ou outros de tropelias.

E é também em meados da década que outro jornal de referência, O Século, criará um suplemento destinado a longuíssima vida, Pim Pam Pum!, podendo orgulhar-se de ter nascido antes do 28 de Maio e acabado depois do 25 de Abril. As personagens infantis que lhe dão o nome, ou cujo nome as inspirou, animadas pelos directores artístico (Eduardo Malta) e literário (Augusto de Santa-Rita), em histórias ingénuas, vão mesmo ter um curiosíssimo episódio em que no dia 3 de Junho de 1926 são condecoradas por António Maria da Silva, primeiro-ministro que entretanto fora deposto logo a seguir ao 28 de Maio… e também a secção Barraca de Fantoches, além dos responsáveis, reuniu nomes como, ainda uma vez, o de Cardoso Lopes, com desenhos simples mas histórias bem apanhadas e versos muito divertidos e memorizáveis que viriam a fazer parte de uma autêntica tradição oral da famílias.

10 anos depois de Quim e Manecas, em termos narrativos desde logo mas também na imaginação e na poesia, e sem esquecer autores e séries populares desde o século XIX, a BD na Europa (e em especial na França) iria ter como que um novo nascimento com a série Zig et Puce de Alain Saint-Ogan. Lá iremos. E na sequência desse modelo de algum modo fundador, mas também conhecendo a mais avançada BD norte-americana (e provavelmente não conhecendo a BD portuguesa…), um jovem que assinava Hergé deu um passo decisivo com a criação de Tintin. E pouco depois daria vida às peripécias de dois miúdos de Bruxelas, Quick et Flupke, que, não esquecendo a já longa tradição existente nos dois lados do Atlântico, renovariam a BD com tropelias de crianças. A caracterização detalhada do bairro onde se movimentavam, a clareza narrativa focando-se no essencial, a vitalidade e vivacidade dos miúdos e das personagens envolventes, um toque poético, sem esquecer alguns reflexos da realidade político-social
envolvente deram à BD uma assinalável dimensão de humanidade e proximidade, para lá das peripécias mais ou menos humorísticas.

Série, aliás, relevante em Portugal, desde a sua estreia na revista Diabrete (chamados Trovão e Relâmpago) logo em 1941, até à boa edição em 12 álbuns, agora apelidados Quim e Filipe, da Editorial Verbo.

Este universo tornou-se inesgotável com o tempo, desenvolvendo-se em contextos de grupos com maior ou menor enquadramento familiar, como veremos.

Recordemos ainda aqui, tão só, Dennis the Menace, uma série centrada num miúdo que foi uma referência durante anos não só nos Estados Unidos mas em muitos países incluindo Portugal, em que a personagem, com o nome de Pimentinha, ficou conhecida graças a revistas brasileiras que (como muitas outras) tiveram circulação entre nós. É um dos expoentes máximos da BD centrada no mundo infantil, e um dos miúdos mais verosímeis, sendo mesmo uma criança em que nem sempre é fácil distinguir se as “patifarias” são mais a consequência da sua ingenuidade e energia do que de verdadeira “maldade”, tudo servido por um traço muito atraente, delicado e eficaz.

Regressando a Portugal, algumas escolas de humor marcariam a nossa BD, em torno de publicações relevantes. Foi o caso de O Papagaio, onde na primeira fase em especial, seria marcado pelo traço modernista e pela bonomia poética de artistas como José de Lemos, Tom (Tomaz de
Mello) ou Arcindo Madeira.

Curioso é o caso do pintor Júlio Resende. Nesta revista animou figuras bastante populares como Fagundes Arrepiado, que no fundo é uma criança grande, tendo particular sucesso a Volta ao mundo numa banheira, com um traço simples. Porém, n’O Primeiro de Janeiro, animaria, com outra qualidade estética, uma notável série, Matulinho e Matulão (ou vice-versa), que além de modernista se revela particularmente moderna, pois transmite uma concepção da educação que antecipa o nosso tempo, com um avô paciente e terno perante um neto não só mimado mas também mimento.

Também entre nós haveria uma escola de humor que dedicaria alguma atenção às crianças, cujas referências maiores talvez sejam Fernandes Silva e Artur Correia, incluindo a participação em publicações como o Camarada, de Marcelo de Morais a Carlos e Eugénio Roque, etc., com aventuras que se poderiam chamar, simplificando, de uma escola franco-belga à portuguesa. Artur Correia, que viria a ter a obra mais vasta em várias fases, recordamo-lo simbolicamente numas joiazinhas que são as aventuras de Tufão no Pajem do Cavaleiro Andante e D. João e Cebolinha neste último. Carlos Roque, por seu lado, além da excelente aventura O Cruzeiro do caranguejo, recolhida em livro, animaria na revista da Mocidade um miúdo típico da tradição das tropelias no fundo feitas com bonomia, o Malaquias, que viria muito anos mais tarde a ressurgir no suplemento da TV Guia Júnior, num daqueles revivalismos que não foram raros na imprensa portuguesa. Sublinhe-se, no entanto, que a obra de Artur Correia é vastíssima, também tendo animado séries infantis na Fagulha e muitas outras publicações.

Num universo tão vasto e diversificado que aqui se aflora, é arriscado avançar com análises gerais, mas talvez se possa concluir que, apesar de alguns contextos mais realistas que reflectem aspectos da sociedade, famílias, ambientes, vestuário, etc., estamos mais perante uma idealização da infância, não no sentido modelar, mas como que uma recriação ampliada das brincadeiras e partidas das crianças, como que uma projecção dos adultos (umas vezes mais nostálgica, outras com uma componente perversa) do que gostariam que as crianças fizessem ou pudessem fazer, mas que no fundo entram num mundo de fantasia e loucura. No fundo, mas já num tom a que há uns anos atrás se poderia chamar pós-moderno, pois quer esteticamente quer pelo conteúdo, já se está numa revisitação entre o crítico e o nostálgico, não será um pouco isso que se passa com a crueldade do Jeune Albert de Chaland?

E apesar de haver com frequência vários níveis de leitura, muitas podem mesmo encarar-se como BDs para crianças, pela ingenuidade, pela irrealismo e imaginação, por uma certa corrente cúmplice que acaba por envolver criadores e leitores na mesma alegria.

Por tudo isto, escolhemos para fechar este capítulo uma série protagonizada… por um adulto, Little King, de O. Soglow, entre nós popularizado como O Reizinho pelo Primeiro de Janeiro. Com um ambiente único e profundamente original, numa monarquia imaginária entre o conto de fadas e a aproximação ao cidadão, poucas séries representam tão bem o espírito infantil, a pureza, a ingenuidade, a generosidade, a inspiração poética como este Little King.

Avançar para:
2) Heróis / Aventura
3) A infância em grupo – “Turmas” / Família / Escola
4) Peanuts / Mafalda / Calvin
5) O fim e a revisitação da infância

nota: fotografias de Pedro Silva; texto de João Paulo de Paiva Boléo extraído do Dossier de Imprensa remetido pela Organização.