Reinhard Kleist foi um dos convidados do Amadora BD 2015, tendo o seu livro O Pugilista sido recentemente editado em Portugal. Abordamos essa e outras obras de uma carreira de 20 anos em banda desenhada.

Nuno Pereira de Sousa: Que razões o levaram a fazer banda desenhada?
Reinhard Kleist: Eu estava sempre a desenhar banda desenhada quando era criança. Mas na verdade eu queria ser um realizador de cinema. Devido à minha inaptidão para trabalhar em equipa, tornar-me um autor de banda desenhada foi a concessão acertada.

NPS: Quando tinha 26 anos, o seu primeiro livro, Lovecrat, foi galardoado com o prémio Max und Moritz do Comicsalon Ergalen para o Melhor Álbum Alemão. Abstraindo-se de todos os prémios que ganhou desde então, como tal o influenciou naquela altura?
RK: Bem, passei do 0 ao 100, colocando-me na fila da frente dos ilustradores alemães. A partir daí foi sempre a descer. Até que tive a ideia de fazer um livro sobre a vida de Johnny Cash, o que somente conseguiria realizar numa grande editora como a Carlsen. O livro vendeu mais de 25000 exemplares na Alemanha e gerou muitas oportunidade para publicar livros no mundo inteiro.

NPS: Elvis Presley, Johnny Cash, Fidel Castro, Hertzko Haft, Samia Yusuf Omar e, atualmente, Nick Cave. O que o motiva a traduzir histórias reais em banda desenhada?
RK: Perguntam-me frequentemente se eu não gostaria de contar a minha própria história, mas eu não consigo evitá-lo – encontro histórias muito melhores na vida real; tenho uma lista de histórias que conheci e pelas quais me interessei e comecei a procurar por mais histórias. Recentemente, escrevi uma outra história sobre um pugilista. Mas esta tem de esperar que finalize o trabalho no livro sobre Nick Cave. Gosto de pesquisar o que está por trás da história, as coisas que estão para além dos factos conhecidos. No caso do livro sobre Cash, o tema era a liberdade e o estar preso atrás de barras frágeis* N’O Pugilista,  é o que está a acontecer a alguém com um passado tão terrível, que colocou tanta culpa sobre os seus ombros.

NPS: Quando foi a primeira vez que tomou conhecimento da existência de Harry Haft e como realizou a pesquisa para O Pugilista?
RK: Eu descobri o livro numa loja, ao pesquisar material sobre o Holocausto, pois tinha de realizar algumas ilustrações para uma revista. Na capa, podia ver-se que estava algo relacionado com boxe e o Holocausto. Eu não conseguia fazer a ligação entre os dois, pelo que comprei o livro. Contactei Alana Haft, o filho do Pugilista, que escreveu o livro sobre o seu pai, e perguntei-lhe se ele gostaria que eu transforma-se o seu livro sobre o seu pai num romance gráfico. Eele enviou uma encomenda com todo o material fotográfico do arquivo familiar, o qual era reduzido. Portanto, muito do que narro sobre a família é da minha própria imaginação. Mas fiz alguma pesquisa em memoriais de campos de concentração como Auschwitz, Flossenbürg e Sachsenhausen. A restante pesquisa foi feita na internet e em bibliotecas.

NPS: O Pugilista tem sido traduzido em muitas línguas. Porque julga que tantas pessoas espalhadas pelo mundo acreditam que este é um livro que vale a pena ler?
RK: As pessoas ainda estão fascinada pelo que aconteceu naquela altura. E gostam de saber mais sobre algumas partes que nunca sonharam ser possíveis naquele contexto. Boxe e Holocausto? Como se relacionam? Além disso, é uma poderosa história de amor. Muitas pessoas disseram-me que tinhas lágrimas nos olhos, no final do livro. Não é fantástico que um monte de papel consiga proporcionar esta experiência? Após 20 anos de trabalho em banda desenhada, ainda me deixo fascinar por isso.

NPS: Nasceu em 1970. Na Alemanha, que género de sentimentos e ideias tem a sua geração no que toca à II Guerra Mundial?
RK: Quando eu era uma criança e me ensinaram o que aconteceu na Alemanha, eu amaldiçoei-me : “Porque nasci num país com um passado tão repugnante?” Não posso falar pela minha geração, apenas por mim. Eu tento fazer tudo para que algo semelhante não aconteça novamente enste país. Ou no mundo. Este livro é uma pequena contribuição.

NPS: Pode-nos falar da sua experiência a trabalhar com o canal televisivo ARTE no campo de refugiados no norte do Iraque?
RK: Fui convidado pelo ARTE para fazer uma reportagem em banda desenhada sobre o campo Kawergosk, onde viviam na altura 11000 refugiados sírios. Comigo estavam um escritor, um realizador e um fotógrafo. Podem ver a minha história aqui. Ofereci-me para realizar um workshop de banda desenhada enquanto lá estava, porque não queria ir apenas lá receber informações das pessoas; também queria contribuir com algo. Estive dois dias a pintar com as crianças e podem ver o resultado na minha reportagem. Houve um momento de cortar o coração quando vi uma criança a desenhar a guerra – algo que eu não queria, mas que ele desenhava de qualquer modo. Há uma pequena mas surpreendentemente forte imagem de um homem a segurar uma arma e a chorar. Não sei onde ele viu isso, mas espero que tenha desaparecido dos seus pesadelos depois do ter pintado.

NPS: Atualmente, quais são os géneros de banda desenhada mais lidos na Alemanha?
RK: Muitas biografias, autobiografias, temáticas históricas. As pessoas gostam de ler algo sobre a realidade vista através dos olhos de um artista. Com o movimento dos Romances Gráficos, a banda desenhada captou uma audiência muito mais ampla que antigamente. Atualmente, a televisão, a rádio e os jornais noticiam regularmente os livros de banda desenhada, algo que não acontecia 10 a 15 anos atrás.

NPS: Que idade têm os seus leitores na Alemanha?
RK: São de todas as idades. Na última vez que estive num festival, uma mãe aproxiou-se de mim com o seu filho de 12 anos e disse-me que ele gostou muito do livro. Eu perguntei-lhe se não tinha tido pesadelos depois do ler e ela disse-me que ela e o seu filho tiveram uma longa discussão acerca do livro.

NPS:  Como imagina que serão os livros daqui a 20 anos?
RK: Neste momento, estamos a enfrentar o declínio da impressão. Na Alemanha, a banda desenhada não é tão afetada quanto os jornais e os livros. Espero que a banda desenhada continue assim no futuro. Atualmente, as pessoas são bombardeadas com tanta informação que é difícil se concentrarem numa coisa em particular. Ler um livro exige tempo e concentração. O limiar de atenção da maioria das pessoas, eu incluído, está a diminuir cada vez mais. Isso preocupa-me e tento remar contra a maré. De qualquer modo, um livro continua a possibilitar viagens maravilhosa. Apenas exige tempo.

NPS: Na sua opinião, atualmente qual é o propósito da banda desenhada e quais são os valores que lhe são inerentes?
RK: A banda desenhada pode alcançar alguém a um nível diferente do cinema e da literatura. É muito acessível. Há uma magia que se gera com a combinação do texto e imagem e/ou a sequência de imagens. Nem mesmo quem diz que não lê banda desenhada o pode negar. No meu caso, ao transpor a realidade para a banda desenhada, esta conta-nos uma verdade palpável.

*- referência à música The Beast in Me (The beast in me/Is caged by frail and fragile bars), escrita pelo ex-genro de Cash, Nick Lowe, e interpretada também por Johnny Cash.

nota: imagens gentilmente cedidas pela organização, capturadas no Amadora BD e sessão de live drawing no Musicbox.

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