André Caetano

André Caetano é um dos convidados da Comic Con Portugal 2015, sendo o ilustrador de Volta – O Segredo de Vale das Sombras, a obra a quem foi atribuído este ano o Galardão Anual Comic Con Portugal e o de Excelência na Ilustração de BD, tendo o livro direito a uma segunda edição a apresentar na própria Comic Con Portugal, com uma nova capa, que pode ser observada na galeria dedicada ao autor. Ao longo da entrevista, abordámos o percurso do autor.

Nuno Pereira de Sousa: Aos 15 anos, descobriste a revista francesa Lanfeust Mag e decidiste ser autor de banda desenhada. O que te impressionou tanto na revista?
André Caetano: O que me impressionou foi a diversidade de histórias, a arte e o tipo de humor, que aparecia nas diversas histórias e me agradou imenso. Na verdade, já há algum tempo que tinha essa ideia, a revista apenas aumentou esse meu desejo, pois parecia algo bem divertido de se fazer.
A arte de ilustradores como o Didier Tarquin (Lanfeust de Troy), o Jean-Louis Mourier (Trolls de Troy) e o Alessandro Barbucci (Skydoll), que depois conheci pessoalmente no Amadora BD, foram uma grande influência no meu desenho.

NPS: Continuas particularmente interessado na BD franco-belga e no género fantástico? Quais são as tuas principais influências actualmente?
AC: Quando lia a revista Lanfeust, além das bandas desenhadas de super-heróis e as da Disney, desconhecia por completo outros mundos da BD. Só com a entrada na faculdade, sugestões de amigos, idas mais regulares à livraria Dr. Kartoon e, mais tarde, indo ao Amadora BD, é que fui conhecendo outros autores e géneros. Continuo a gostar da BD franco-belga e do fantástico, embora não tenha tanto contacto com a Lanfeust. Quero ler e conhecer mais autores desse género. Actualmente as minhas maiores influências são Craig Thompson, Fábio Moon e Gabriel Bá, Cyril Pedrosa, Jillian Tamaki, Sean Murphy, Mike Mignola… e muitos mais.

NPS: Como surgiu o projecto Trabalhadores do Comércio, escrito por Hugo Jesus e co-ilustrado por Pedro Pires?
AC: Surgiu com o convite do Hugo Jesus, a perguntar se estaria interessado em ilustrar a história, em conjunto com o Pedro Pires. Eu já conhecia o trabalho do Pedro, quando ele veio à Dr. Kartoon, em Coimbra. Foi uma oportunidade de desenhar uma história mais longa e de dar a conhecer o meu trabalho a um público mais vasto, por causa da distribuição com o jornal. Não conhecia muitas músicas, apenas uma, mas foi um projecto interessante, sem dúvida.

NPS: As tuas 3 participações nas publicações Zona foram as primeiras colaborações com o André Oliveira. Fala-nos um pouco desses trabalhos.
AC: Exacto, o André foi quem possibilitou a publicação das minhas primeiras histórias, como editor da Zona. São histórias curtas, escritas por mim e a sua qualidade de argumento pode não ser a mais brilhante, mas continuo a gostar delas, embora já não apareçam no meu portfolio. Pude criar histórias com um tema definido, e limites de páginas, o que ajudou na sua criação. Uma delas foi para a Zona Monstra, e ao pensar no que fazer, dei por mim a ver a definição de monstro no dicionário e dei conta que havia várias definições. Então decidi fazer uma página para cada uma e criar um personagem que seria o perito no assunto e que explica ao leitor o que cada uma é. A última foi para a Zona Desenha, onde tínhamos de fazer uma curta de 2 páginas sobre desenho e a nossa relação com o mesmo. Aproveitei para desenhar o meu espaço de trabalho, e o conceito é a viagem que faço em cada desenho, sendo esse o meu meio favorito de viajar.

NPS: Se tivesses de escolher uma palavra para definir o André, qual seria?
AC: Trabalhador.

NPS: A BD Milagreiro, escrita por André Oliveira, foi publicada na revista brasileira Café Espacial #12, a qual foi uma das candidatas ao Prix de la BD alternative em Angoulême. LightBearer, novamente escrita pelo André, integra a antologia Crumbs, que há 2 anos consecutivos que é comercializada pela Kingpin no festival ThoughtBubble, em Leeds. Neste pequeno mundo em que vivemos, tens como uma das metas vir a ser publicado directamente noutros países?
AC: Sim, tenho essa meta e estou a trabalhar para isso, seja a melhorar o nível do meu trabalho, seja a fazer contactos lá fora, por e-mail, ou indo a festivais, como o Thought Bubble em Leeds, ao qual já vou há 3 anos, conjuntamente com o André Oliveira e um grupo cada vez maior de portugueses. Já consegui publicar fora de Portugal, mas não em banda desenhada. Tenho colaborado com as revistas americanas Canoe & Kayak, e Kayak & Fish, ilustrando os artigos que me vão dando, com alguma regularidade, em especial para a primeira. Podem ver as ilustrações no meu site, ou na galeria em baixo.

NPS: Como realizaste a documentação para Uma Aventura Estaminal, escrita por João Ramalho-Santos?
AC: Parte da documentação foi-me dada pelo João Ramalho-Santos, com documentos em pdf, esquemas e visitas ao laboratório do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) em Coimbra. Também me indicou uma banda desenhada do género para poder ter uma ideia melhor da abordagem que ele pretendia. Além disso, tentei aprender o máximo possível sobre o assunto, vendo vídeos no youtube, lendo artigos, fazendo perguntas ao João, que teve a paciência de me ir explicando o que por vezes não entendia logo (não tenho formação em ciências) e revendo alguns projectos, como a série televisiva Era uma vez a Vida. Sempre tive um grande interesse por esta área, o que não tornou difícil toda esta pesquisa, pois gosto de aprender e este trabalho não foi excepção. Foi sem dúvida dos projectos que mais aprendi, pois no início apenas tinha ouvido o nome e que era algo que se colhia no cordão umbilical, mas agora tenho um razoável entendimento e tenho uma bonita BD para vos poder mostrar como são, o que fazem e o poder que têm as células estaminais! Aproveito para dizer que esta BD está publicada online, em português e inglês no perfil do Issuu da EuroStemCell. Deixo-vos os links aqui (português) e aqui (inglês).

NPS: Por esse trabalho recebeste o prémio de colorista do ano nos Prémios Profissionais de Banda Desenhada 2014, tendo ainda sido nomeado para desenhista e legendador. Ao ilustrares uma banda desenhada, qual das etapas (desenho, arte-final, cor, legendagem) te é mais aliciante e qual a que mais facilmente libertarias para outro profissional?
AC: Libertaria a legendagem. Aliás, no Milagreiro e Volta, essa parte ficou a cargo do André Oliveira, que a fez muito bem, na minha opinião. A seguir seria a cor. O desenho e arte-final são são a parte mais divertida mas também mais forte do meu trabalho e não abdico de as fazer. Dito isto, gostava de experimentar arte-finalizar desenhos de outros artistas e vice-versa, pois penso que seria uma experiência interessante.

NPS: E o argumento? Tens planos para contar as tuas próprias histórias em banda desenhada?
AC: Tenho planos e alguns projectos que gostava de desenvolver, mas de momento prefiro ir colaborando com escritores e assim dedicar-me a melhorar o meu desenho e storytelling.

NPS: Devida à temática e distribuição alargada da obra Uma Aventura Estaminal, esta BD foi provavelmente lida por quem habitualmente não tem contacto com a banda desenhada. Tiveste feedback desses leitores?
AC: Não muito, mas foi feito um estudo, por parte do CNC, sobre quem leu o livro e se aprendeu alguma coisa com isso. Na verdade, mesmo leitores mais habituados não me deram grande feedback, talvez pelo tema tão específico, mas o que tive é bastante positivo.

NPS: O primeiro tomo de Volta, escrito por André Oliveira, tem vindo a ter diversas nomeações, tendo já lhe sido atribuído o Prémio Nacional de Banda Desenhada de Melhor Argumento para Álbum Português no Amadora BD 2015, O Galardão Anual Comic Con Portugal e o de Excelência na Ilustração de BD. O que nos podes contar desse trabalho?
AC: Este trabalho foi sem dúvida o mais intenso que alguma vez fiz. Quis preparar-me o melhor possível e como tinha oportunidade de criar visualmente todo este mundo, passei uns bons meses a desenhar as personagens, espaços, sempre em conversa com o André, e consoante o feedback dele ia modificando. Para certas personagens, esculpi bustos em massa de moldar, para me ajudar a desenhar e a perceber como poderia ser a textura da pele deles. Usei miniaturas de casa, para desenhar, tudo o que me pudesse ajudar no processo. Aprendi imenso ao desenhar este livro, pois há vários tipos de sequências, ambientes, personagens que nunca tinha desenhado, e que me ajudou a evoluir, que é o que procuro sempre num novo trabalho. Este género de história também foi novo para mim, e por isso tiver de adaptar o meu traço, pois até então , usava apenas a linha, dava as sombras com a cor ou com os cinzas, e ao longo das páginas fui aprendendo a usar melhor a mancha de negro, a dar mais sombra directamente no papel, a ter mais confiança com isso. Foram quase 4 anos de trabalho, também porque tinha de ir fazendo outros projectos, de tipos muito diversos, desde manuais escolares, livros infantis, rótulos, etc, e não podia dedicar-me o tempo todo à Volta. Mas penso que acabou por compensar. Estou bastante satisfeito com o resultado e fico muito contente que as pessoas gostem, e que se divirtam a ler esta aventura. Os prémios são bons, pois dão destaque ao livro, e isso é que importa.

NPS: Na área da ilustração, tens trabalhos publicados em várias editoras. Quais são as principais diferenças que notas enquanto ilustrador no mercado de banda desenhada e do livro infantil ilustrado em Portugal?
AC: Na banda desenhada tenho ainda poucos livros, mas diria que a maior diferença é a força que o livro infantil tem de momento. Basta olhar para as secções que as grandes livrarias dão a cada um. A banda desenhada tem cada vez menos espaço e o livro infantil aumenta cada vez mais. Há imensos festivais com autores desse género, competições, etc. Talvez no mercado da banda desenhada, o desenho seja mais respeitado, enquanto no livro infantil, o escritor tenha mais destaque, mas isso não se traduz necessariamente nos valores praticados. Em ambos os casos, continua a ser complicado viver apenas da ilustração em Portugal.

NPS: O que mais te cativou na ilustração dos dois manuais escolares que realizaste?
AC: Talvez seja a possibilidade de poder influenciar a vida escolar de quem ler o manual. No primeiro, Diálogos 8, da Porto Editora, ilustrei o manual inteiro, em conjunto com o Pedro Morais e a  Ângela Vieira . Como nunca tinha ilustrado um, foi a vontade de experimentar. No segundo, Novas Leituras 9, da Asa, foi apenas um capítulo, sobre o Auto da Barca do Inferno. O desafio maior destes projectos é, não só ilustrar os textos, mas compor as imagens dentro do espaço que me é dado, pois o livro já está paginado quando me enviam.

NPS: Fala-nos um pouco de Sem Palavras, escrita por Eugénio Roda, seleccionada para integrar os ‘100 Livros para o Futuro’ na Feira de Bolonha do Livro Infantil.
AC: O livro Sem Palavras surgiu com o convite do meu professor António Modesto. O escritor também foi meu professor, mas de desenho. O processo de ilustração deste livro foi um pouco difícil, na medida em que apenas consegui ter a ideia de como ia ilustrar, ao olhar para uma máquina de escrever antiga, que tinha trazido há pouco tempo para o atelier, por causa deste projecto. Na história, o escritor perde as palavras e deixa de poder escrever. Olhando para as teclas apercebi-me que sem as teclas ele não tem letras, sem letras não pode formar palavras, frases, ou seja deixa de poder escrever. A partir daí, todo o processo ficou muito mais fácil, pois tinha encontrado a metáfora que precisava, tendo de imediato feito os esboços, que, neste caso, fiz directamente a caneta para ser mais rápido, enviei para o meu professor, que os aprovou, e pude avançar para as versões finais. A selecção do livro para a exposição na Feira de Bolonha foi muito importante, pois assim o livro, e o meu trabalho, tinha mais hipótese de ser visto, dado que Portugal foi o país convidado desse ano.

NPS: Fala-nos um pouco do SketchcrawlCoimbra.
AC: O SketchcrawlCoimbra é um grupo de pessoas que organiza eventos ou maratonas de desenho, na zona de Coimbra. Tentamos ir sempre para locais diferentes, com desafios diferentes para desenhar. Surgiu devido ao nosso gosto pelo desenho, e o convívio com quem também gosta de desenhar. Sketchcrawl é um evento mundial em que, determinado dia, as pessoas se juntam em diversas cidades para desenhar e depois partilham o resultado. Apesar de termos surgido ligados a esse movimento, organizamos vários eventos fora dessas datas. No entanto devido à vida de cada um, tem havido cada vez menos eventos, estando de momento um pouco parado. Se quiserem ver o que temos feito podem ir à página do facebook.

NPS: Que trabalho realizaste na área do teatro?
AC: Durante seis anos, realizei o design de toda a comunicação gráfica do Grupo de Teatro O Celeiro, da Vila de Pereira. Ou seja, desde o logótipo, cartazes para as peças e sobretudo o design para as diversas edições do EMCENA, o Encontro de Teatro da Vila de Pereira, criando o cartaz, flyers, o site, facebook e tudo o que fosse necessário. Também criei alguns cartazes para o Teatrão, em Coimbra, de peças de alunos finalistas do curso de teatro da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Coimbra.

NPS: Que expectativas profissionais e pessoais tens relativamente à Comic Com Portugal 2015?
AC: Como não fui à edição anterior, não sei bem o que vou encontrar. Ouvi amigos que lá estiveram falar bem do Artists’ Alley. Espero que a Volta e o Milagreiro captem a atenção de muitas pessoas, que os comprem, que leiam e, se assim desejarem, venham ter comigo para um desenho personalizado nos livros, e falarmos um pouco.

NPS: Em que bandas desenhadas estás a trabalhar actualmente?
AC: Actualmente não estou a desenhar nada, mas a próxima será o segundo volume da Volta, que o André irá escrever em breve. Se outro projectos surgirem irei falar deles na minha página do facebook, que podem seguir aqui.

GALERIA ANDRÉ CAETANO
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