E chegou-se ao terceiro dia do fim-de-semana prolongado da Comic Con Portugal. Não fazendo sentido dar dicas úteis para o dia seguinte, como nos artigos anteriores, far-se-á uma reflexão sobre a edição deste ano.

Não é novidade que o modelo norte-americano da Comic Con há muito que deixou de estar exclusivamente focado na banda desenhada. Há já algum tempo que o cinema, as séries televisivas e o gaming são áreas fortíssimas da Comic Con, não sendo no entanto descuradas as raízes da Comic Con ou não fosse a indústria norte-americana de comics uma das mais poderosas no mundo da banda desenhada. E a transmedialização permite que os personagens dos comics estejam presentes nos mais diferentes produtos, o que é inclusivamente um elemento facilitador do forte componente de merchandising que lhes está associado.

Focando a nossa atenção na Comic Con Portugal, não seria errado presumir que na edição do ano passado os convidados estrangeiros do evento que levaram a que a maioria dos visitantes adquirissem o bilhete para 1 ou mais dias foram Natalie Dormer (The Hunger Games, A Guerra dos Tronos, Elementar), Morena Baccarin (Gotham, V, Firefly), Seth Gilliam (The Walking Dead), Tom Riley, Blake Ritson e Elliot Cowan (Da Vinci’s Demons), Clive Standen (Vikings) e/ou Paul Blackthorne (Arrow), ao invés dos autores de banda desenhada Brian K. Vaughan, Pia Guerra, Ian Boothby, Claudio Castellini, Carlos Pacheco ou Marcos Martin.

De igual modo, podemos presumir este ano que os nomes dos atores de Teen Wolf, Era uma Vez A Guerra dos Tronos, bem como o entretanto cancelado Jason Mamoa, terão sido um factor promotor de venda de bilhetes mais representativo que os autores de banda desenhada presentes. Por outro lado, o próprio evento, após o sucesso do ano passado, é ele próprio uma marca per se.

Certamente, no mercado nacional de banda desenhada é mais difícil utilizar como seleção de convidados o critério do nome incontornável neste momento porque, ao contrário de uma série televisiva ou um longa-metragem, cuja primeira exibição na televisão ou salas de cinema é mais fácil de delimitar, quais são os autores estrangeiros de banda desenhada que foram publicados este ano – ou nos últimos 2 ou 3 anos, de forma contínua – em Portugal, de preferência mais do que uma vez, independentemente de se tratar ou não da mesma série ou de volumes avulso? Na verdade, dezenas e dezenas. Quantos desses são nomes incontornáveis, no sentido de serem apelativos o suficiente para per se levarem à aquisição do bilhete para o evento? Duvido que alguém o pudesse afirmar categoricamente, mas certamente que no final restariam muitos poucos nomes e com bastantes interrogações.

E a razão porque propositadamente não se colocam os autores de BD portugueses na anterior reflexão não tem obviamente a ver com a qualidade do seu trabalho – pessoalmente, consideramos que a maioria das grandes publicações de BD editadas em Portugal são de autores nacionais – mas porque não queremos colocar o viés do visitante poder interagir com os autores nacionais em moldes semelhantes (sessões em auditório, autógrafos, aquisição de publicações e demais material) noutros eventos, que são gratuitos ou cujo preço de entrada é simbólico.

A verdade é que os agentes do cinema ou televisão e da banda desenhada têm, na própria estrutura organizativa deste tipo de eventos, regras diferentes, relacionadas com uma lei de mercado que dita, por exemplo, que um desenhador que esteja a conversar 10 a 15 minutos com um leitor à medida que lhe faz uma autógrafo ilustrado – com ou sem foto conjunta – receba um educado obrigado no final, enquanto que o actor, por posar alguns segundos para uma foto conjunta ou por dar um autógrafo – simples assinatura -, possa receber dezenas de euros.

Nesse sentido, que peso tem a banda desenhada na Comic Con Portugal? Não será certamente nunca o cerne do evento, assim como muito provavelmente não será o gaming. No entanto, no ano passado, se houve visitantes interessados numa determinada área, fossem os actores ou o gaming, que pouco mais viram do evento, com excepção da área dedicada ao merchandise, uma percentagem significativa não especialmente interessada na banda desenhada e a ilustração, não só encontrou o Artists’ Alley como teve curiosidade em perceber de que se travava, de abordar os autores de banda desenhada e demais ilustradores e de inclusivamente adquirir publicações, prints, originais e outros produtos. Foi provado que o evento promovia uma partilha de público, ao contrário de algumas previsões mais negativas.

Apesar da localização do ano passado do Artists’ Alley, no Hall 5, também isolar um pouco os autores do restante evento, este ano, ao invés de resolvido, foi agravado, o que contribuiu para um menor número de visitas ao espaço, conforme referiu a maioria dos visitantes que estiveram presentes nos 2 anos e aos quais se inquiriu tal. Num dos próximos 3 anos, muito gostaríamos que integrassem o Artists’ Alley em locais mais visitados, como uma área no pavilhão 4, 3 ou 2 do recinto.

No que toca à galeria de banda desenhada, notou-se que houve uma preocupação em aumentar a área dedicada, o número de exposições e a presença de originais. Neste tipo de evento, onde a comercialização e as sessões com os autores são as forças motrizes da BD – ao contrário dos festivais, onde a exposição é privilegiada – não deixa de ser interessante tal se ter verificado, apesar de pelo menos uma das exposições se ter continuado a basear em impressões em papel. Temos dúvidas se a exposição de banda desenhada se coaduna com uma Comic Con – apesar de pessoalmente nos agradar ver originais expostos – ou qual seria o modelo mais apropriado para a sua existência.

A insonorização das atividades circundantes no Auditório Comics (ou qualquer outro, obviamente), é algo que necessita de ser trabalhado, opte-se ou não pelo regresso a um auditório real como o ano passado ou a um construído para o efeito como este ano. A escolha de uma grande temática por dia, para ser debatida ao longo das várias sessões pelos diferentes convidados seria talvez um conceito interessante.

Um olhar muito mais atento ao mercado editorial nacional seria importante para se escolher que autores convidar para a Comic Con. Defendemos obviamente que autores estrangeiros nunca publicados ou não publicados recentemente em Portugal podem ser igualmente convidados interessantes, mas seria importante não esquecer os que efectivamente foram publicados regularmente nos últimos 2 ou 3 anos, em especial se a obra se destaca das demais (as boas críticas) e/ou tem grande aceitação pelos leitores (o interesse do público). Do mesmo modo, é necessário um olhar mais atento ao panorama nacional, de modo a ser ainda mais representativo da boa banda desenhada de autores portugueses.

Quanto aos Galardões da Comic Con Portugal, mais importante que o incentivo pecuniário aos vencedores, é a própria divulgação das obras vencedoras, em especial se extravasa e gera a atenção dos órgãos de comunicação social não relacionados especificamente com a BD e, por conseguinte, o público em geral. Quando à divulgação dos vencedores prévia ao evento pela organização, só antevemos como vantagem serem conhecidos os vencedores durante a totalidade do evento, de modo a promover a venda das publicações, mas julgamos que teria praticamente o mesmo impacto se divulgado no primeiro dia do evento, conferindo à gala de entrega dos galardões um propósito mais relevante. Por outro lado, as obras galardoadas deveriam ter tido direito a destaque no próprio recinto, através de exposição ou outra solução encontrada pela organização, em local central bem visível a todos os visitantes e, eventualmente, com a indicação do local onde cada uma das obras estava disponível para ser adquirida.

Por fim, umas considerações sobre os expositores de editores e livreiros. No que toca aos que estiveram nas duas edições, as impressões que se colheram no final do evento foram um pouco diferentes das do ano passado. No ano passado, a quase  totalidade tinha tido as suas expectativas superadas. Este ano, talvez com expectativas mais inflacionadas e provavelmente devido à presença de mais expositores, tal não se verificou. Alguns expositores tiveram resultados superiores aos do ano passado, outros semelhantes, outros inferiores, como seria de esperar. No entanto, dos inquiridos nenhum manifestou a certeza de não regressar em anos futuros, embora uma percentagem menor do que o ano passado tenha dado a certeza de regressar.

Curiosamente, mais livreiros e editores investiram este ano em atividades dentro dos expositores, em especial com a presença de autores. Por outro lado, houve várias edições realizadas propositadamente para coincidir com o evento, algumas das quais, mas não todas, relacionadas com autores convidados. E se já tinham estado presentes autores nacionais a convite de editoras o ano passado, este ano algumas editoras foram as responsáveis pela presença de alguns autores estrangeiros no evento. O futuro dirá se a oferta de convidados internacionais no evento continuará a ser reforçado com estas iniciativas das editoras nacionais.

Quanto a nós, muito brevemente disponibilizaremos uma extensa fotorreportagem do evento e, no próximo sábado, a emissão radiofónica do programa Bandas contará com a entrevista a Brian Azzarello, cuja audição se recomenda!

Eis os dados da organização relativamente a 2015:
– 53 962 visitas (ao invés das 32500 do ano passado);
– 218 convidados nacionais e internacionais das mais variadas áreas;
– mais de 65 players nacionais e internacionais da indústria da Cultura Pop;
– mais de 107 conteúdos em auditórios.