Na Comic Con Portugal 2015, mais concretamente no Artists’ Alley, estava disponível a publicação The Square World de Nuno Lourenço Rodrigues, editada pela El Pep.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Nuno Lourenço Rodrigues tem vindo a ser publicado este ano nalgumas antologias, como Casulo (Kingpin, 2015) e Portugal 2055 (Museu Nacional de História Natural e da Ciência/Associação Tentáculo, 2015), além dos webzines TLS WebMag #8, #9 e #10. É precisamente no TLS WebMag #9, mais especificamente na capa, e, em menor grau, no #10 que se encontra o paralelo (no pun intended) com The Square World, apesar deste olhar analógico não ser passível de ser realizado por quem se ficar pela capa e/ou contracapa da publicação da El Pep.

Mas se a analogia pudesse, ao invés de publicações, utilizar a memória, certamente que a sua exposição Monstros, realizada em Beja, em 2013, seria o melhor ponto de partida, uma vez que, inclusivamente, alguns dos personagens desta banda desenhada marcaram a sua presença em terras alentejanas.

A banda desenhada desenrola-se no mundo quadrado a que se refere o título. Ou talvez não. Desde o início que o leitor se apercebe dos retângulos e, quando o volume se instala, os paralelogramos são rapidamente subvertidos e se torna inclusivamente óbvio que muitas das linhas da caneta se rebelam contra a utilização da régua. Indícios do que surgiria na narrativa ou simplesmente a impaciência do autor perante aquele mundo de labor, pouco imaginativo e que somente não é cinzento porque não foi essa a decisão utilizada para a sua cor?

Quando o plano se afasta do solo e se observam os seus habitantes num ângulo picado quase que se conseguem imaginar linhas e movimentos ondulados. Quando a vista panorâmica da cidade se instala, reconhecemo-la como qualquer grande metrópole do planeta Terra, uma constatação com impacto semelhante à de O Planeta dos Macacos, no momento em que nos apercebemos que aquele planeta alienígena é de facto a Terra. Neste caso, nada nos garante tal, mas a semelhança é o suficiente para a interrogação e a incerteza inquietante. Somos nós aqueles seres semelhantes a autómatos?

É então que a restante palete de cores surge das estrelas. Num registo mais solto, a lápis, surge então o monstro supramencionado, verde como ditam as regras da ficção científica, mas trazendo também com ele os tons quentes de uma natureza que, anarquicamente, se espalha através da sua fauna e flora. No entanto, a mensagem alienígena é a de paz e harmonia, tornando não só aquele mundo menos quadrado mas mostrando-nos que nem todas as linhas dos seres daquele mundo são retas e que são agora capazes de sorrir e gargalhar.

Este primeiro registo a solo do autor é facilmente apreendido pelo leitor – ainda mais louvável ao se constatar que, para além do seu contexto alegórico, se trata de uma banda desenhada muda -, com direito a uma resolução evidente e feliz. Ficamos agora a aguardar pela próxima obra de Nuno Lourenço Rodrigues, indagando-nos se prosseguirá novamente com uma das temáticas que mais lhe interessa – os monstros – ou se se aventurá pelos mundos oníricos que também explora.

Por fim, uma breve nota para aqueles que se dedicam ao estudo da intersecção de linguagens estéticas entre a banda desenhada, o livro ilustrado e outras apresentações narrativas – a nossa interpretação de The Square World enquanto uma obra de banda desenhada sem recurso à palavra encontra eco nas considerações que realizámos sumariamente aqui e evocámos aqui.

Os interessados na obra, limitada a 200 exemplares, podem obtê-la na El Pep Store & Gallery ou via autor através do e-mail:
nunorodriguesart@hotmail.com

THE SQUARE WORLD
Nuno Lourenço Rodrigues
32 páginas a cores
Depósito legal n.º 401842/15
PVP: 5€ (+ portes)

NUNO LOURENÇO RODRIGUES é licenciado em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Tem um bacharelato em Design Gráfico pela University of East London e mestrado em Ilustração e Animação pela Kingston University London.

nota: imagens gentilmente cedidas pelo autor.