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Paco Roca é um dos convidados do XII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja. Abordamos o seu percurso enquanto autor de banda desenhada, desde as suas primeiras publicações nas revistas Kiss e El Víbora até ao presente.

Nuno Pereira de Sousa: Os seus primeiros trabalhos em banda desenhada surgiram nas revistas Kiss e El Víbora. Fale-nos um pouco dessas suas BD e da colaboração com J. M. Aguilera.
Paco Roca: Para mim, significava começar a publicar de uma forma profissional, ao cobrar e a ter uma data de entrega. Atualmente, considero esses trabalhos muito amadores, mas foram-me úteis enquanto aprendizagem e para encontrar o meu caminho. J. M. Aguilera é um escritor de romances de ficção científica e romances históricos e, ao trabalhar com ele, aprendi muito sobre arte da narrativa.

ROADNPS: Qual foi a importância da revista El Víbora no panorama editorial de BD em Espanha?
PR: Foi uma revista de referência na cultura alternativa dos anos oitenta e noventa do século XX. Era uma revista underground com qual se identificava um certo público jovem que gostava de BD, música e diversão… Nela, foram publicados autores de referência como Crumb, Shelton, Liberatore, Max, Gallardo… Foi a últimas revista de BD publicada em Espanha, pelo que nos seus últimos anos foi a revista que publicou todos os autores espanhóis que queriam desenhar, tivessem ou não um espírito underground. O ambiente da redação era estupendo e continuo a ter uma relação muito boa com a editora que publicou a revista, La Cúpula.

gogNPS: GOG foi o seu primeiro livro, novamente em parceria com J. M. Aguilera. Que importância teve para si este primeiro livro?
PR: Fazer a série Road Cartoons tinha sido um inferno. Naquela época, eu pensava que cada vinheta de uma BD devia ser como uma ilustração supertrabalhada. Isso era lento e muitas vezes contraproducente para a narrativa e a história. Então, GOG teve uma abordagem diferente: a preto e branco e sem nenhum volume nem cenários elaborados com programas de desenho 3D. Foi-me útil para melhorar o desenho e poder concentrar-me mais na narrativa.

NPS: Acredita que El Juego Lúgubre marca uma nova fase para as suas bandas desenhadas? Fale-nos um pouco do processo criativo da obra.
PR: Considero-o o meu primeiro trabalho profissional. Eu gostava da aventura e da ficção científica, mas não era o que eu queria continuar a fazer. Eu estava interessado em contar outro tipo de histórias. Queria fazer outro tipo de BD, algo de que eu gostasse mas também que agradasses aos meus amigos que não fossem leitores de banda desenhada. juegolugubreQueria fazer uma história que fosse, de certa forma, como um romance, com o seu início e o seu final. Apesar de já existir o que chamamos de Romance Gráfico, eu não conhecia propriamente esse conceito, nem conhecia o que estava a ser feito nessa altura, no princípio do milénio. Foi o meu primeiro livro em que eu era o argumentista e, para jogar pelo seguro, fiz um jogo entre o romance Drácula e a vida do Salvador Dalí.

NPS: A versão colorida de El Juego Lúgubre obrigou-o a revisitar os trabalhos de Salvador Dalí?
PR: El Juego Lúgubre foi a minha primeira banda desenhada publicada fora da Espanha. Naquela época, ainda existiam editores para quem o preto e branco parecia pouco comercial e tive de colori-la. Isso teve como consequência eu estudar mais as obras de Dalí.

alhambraNPS: A série Les Voyages d’ Alexandre Icare foi elaborada a pensar no mercado francês da BD de aventuras. Porque julga que só teve direito ao primeiro número?
PR: Este álbum foi uma mudança de direção, ou melhor, um passo para trás no trilho temático que tinha procurado com El Juego Lúgubre. Eu quis fazer uma obra ao gosto do público francês. A série consistia em três números e narrava a viagem deste pintor aventureiro entre França e a Palestina. Após o primeiro tomo, tive um problema com o meu editor e a série terminou nesse número.

NPS: El Faro aborda a Guerra Civil Espanhola, regressando a um ritmo mais lento e com menos personagens que Hijos de Alhambra. O que procurava alcançar enquanto autor?
elfaroPR: Regressei ao caminho que eu queria fazer, o das bandas desenhadas semelhantes a romances. Por um lado, estava novamente cansado do trabalho meticuloso de Les Voyages d’Alexandre Icare. Queria mudar. Por outro lado, queria continuar a experimentar a elaboração de histórias de formato de livro, com os personagens simplesmente a falar, com pausas…

NPS: El Faro foi galardoado com o prémio de Melhor Argumento Realista pelo Diario de Avisos de Tenerife. Que importância teve este prémio?
PR: Foi o meu primeiro prémio. Eu tinha tido nomeações para outros prémios com o El Juego Lúgubre, mas nunca tinha ganho nenhum. Foi importante para mim porque me deu confiança em seguir esse caminho. Mas, principalmente, a confiança foi ganha por El Faro ter sido publicado em vários países, sendo uma obra muito mais pessoal do que as anteriores.

rugasNPS: Na sua opinião, a que se deve o sucesso internacional do multipremiado Rugas?
PR: É difícil saber. Imagino que o seu sucesso será o tema e como está contado. O tema é – ou era – incomum no mundo da BD e originou que leitores que não estão habituados a este meio o lessem. Para contar esta história, tentei fugir ao sentimentalismo. Embora o tema seja difícil, tentei encontrar um tom amável e adicionar-lhe humor.

NPS: Ficou contente com a adaptação cinematográfica, na qual colaborou?
PR: Eu julgo que a adaptação cinematográfica foi boa. Não é uma transposição exata da BD mas mantém o seu espírito. Adiciona elementos à história e deixa de fora cenas e personagens que apareciam na banda desenhada. Isso faz com que ambas as obras se complementem. O meu trabalho no filme foi assessorar Ignacio Ferreras, o realizador, e ajudá-lo com o guião, desenhar os personagens e opinar sobre tudo. Trataram-me sempre com muito respeito.

NPS: Fale-nos um pouco de Emotional World Tour.
PR: A BD Rugas surgiu em Espanha na mesma altura que María y yo, uma BD de Miguel Gallardo. Tivemos muitas atividades em conjunto, vicenciámos muitos acontecimentos e a imprensa uniu-nos sob o rótulo de “banda desenhada social”. Planeámos juntar-nos e refletir sobre tudo isso nesse livro.

callesdearenaNPS: Las Calles de Arena foi publicado em 2009. A sociedade em que vivemos é absurda?
PR: Sem dúvida. Basta ver a filosofia da União Europeia em que a prevalece a economia e não as pessoas. Las Calles de Arena foi uma tentativa de fazer uma crítica ao nosso modo de vida através da ficção. Eu adoro romances como O Processo de Kafka e autores como Borges ou Cortázar. Foi muito divertido elaborá-lo depois de desenhar Rugas.

NPS: O livro multipremiado El invierno del dibujante é uma carta de amor à BD. Porquê situá-lo na Espanha franquista?
inviernoPR: É um altura muito interessante e, infelizmente, pouco tratada. Eu não a vivi, tinha cinco anos quando o ditador morreu, mas esse período corresponde à juventude dos meus pais e eu sempre a achei muito evocativa.

NPS: Com El ángel de la retirada volta a trabalhar com um argumentista, Serguei Dounovetz. Como tal sucedeu?
PR: Foi um trabalho encomendado por uma associação de exilados espanhóis em França. Eles queriam falar sobre sua história e, após lerem El Faro, contactaram a editora francesa que o tinha publicado, a qual formou a equipa de desenhador e argumentista.

NPS: Memorias de un hombre en pijama foi originalmente publicado sob a forma de 1 página por domingo no diário “Las Provincias”. Foi um desafio? De que falam estas memórias?
pijamaPR: A imprensa é sempre um desafio. As duas primeiras entregas foram divertidos. Depois disso, eu já não sabia o que contar na semana seguinte. E essa foi a norma durante o seguinte ano e meio. estava sempre aflito para que me ocorresse algo, telefonava aos meus amigos, perguntava-lhes pelas suas vidas, estava atento ao que as pessoas falavam na rua, provocava situações para que me acontecesse alguma coisa… Finalmente, deixei a série exausto. A série falava de tudo e de nada. Das relações de casais, dos costumes …

NPS: Vai ser adaptado à animação em 2017? Qual o seu papel nesse projecto?
PR: Estamos a trabalhar no filme, que se estreará em 2017. O meu papel no filme é de argumentista e realizador.

azarNPS: No livro mutipremiado Los Surcos del Azar regressa ao tema da Guerra. Fale-nos um pouco dessa obra.
PR: Como eu dizia anteriomente, a Guerra Civil Espanhola e Franco são quase tabu na Espanha. Logicamente que não é proibido, mas criou-se um certo sentimento generalizado de que falar sobre essas coisas é obsoleto, chato e que é inútil recordar. Isto também se aplica à História, pouco dada a revisitar determinados temas. Neste amnésia coletiva que vivemos em Espanha, deixámos de fora histórias incríveis como a da La Nueve, os republicanos espanhóis que estiveram presentes na libertação de Paris dos alemães. Com esta história, tentei recuperar uma parte da História bastante desconhecida do meu país. Somente com a memória conseguimos conhecer o presente.

lacasaNPS: La Casa tem um componente autobiográfico? As casas sobrevivem às pessoas que nelas habitam?
PR: Sim, as casas são uma projeção dos seus ocupantes. Conhecendo-as, conhece-los. Há casas que um certo dia ficam à espera que o seu ocupante regresse, mas este jamais regressará. Estas casas guardam as memórias do proprietário e da sua família. Por isso é tão doloroso desfazer-se desses objetos e da memória.

NPS: Em que banda desenhada está a trabalhar atualmente?
PR: Trata-se de um projeco muito diferente, um livro-disco de uma banda de rock espanhola. Mistura relatos de ficção e de conversas sobre os processos criativos.

NPS: Que importância têm atualmente as bandas desenhadas dirigidas a adultos no mercado editorial espanhol?
PR: É um mercado que está a crescer ano após ano. Em números, ainda estamos longe dos grandes bestsellers do mundo dos romances, mas conseguimos que a banda desenhada seja respeitada com um meio capaz de abordar qualquer tema.

NPS: Que leitores lêem Paco Roca em Espanha?
PR: É difícil de saber. Faz-se uma ideia ao ver as sessões de autógrafos ou as apresentações de obras. É um público muito diversificado: homens e mulheres entre quinze e setenta anos. E inteligentes, muito inteligentes (risos).