Marcelo D’ Salete é um dos convidados do XII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja. Este autor de banda desenhada brasileiro tem editada em Portugal a sua obra Cumbe e é a segunda vez que expõe no nosso país.

Nuno Pereira de Sousa: Foste um dos grandes colaboradores da revista brasileira Front da Via Lettera. Fala-nos um pouco da revista, a sua importância no mercado editorial de então e das BD que publicaste nos números da Front.
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Marcelo D’Salete: A Front foi uma das publicações de quadrinhos mais longevas do Brasil nos últimos anos. Foram 14 edições ao total. A revista começou a partir do número 7, pois havia um mito de que esse tipo de publicação não durava mais que 7 edições. Ela foi responsável por apresentar e difundir o trabalho de muitos quadrinistas da época – Kipper, André Kitagawa, Daniel Bueno, Fernando Mena, Maxx, etc. No meu caso, foi uma verdadeira escola de quadrinhos porque a gestão da revista acontecia a partir de uma organização horizontal dos artistas via on-line. Nós discutíamos, escolhíamos o tema e o que entrava em cada edição.

NPS: Com a BD Cheio de Azul, publicada na Front #10, surgiu a sua publicação espanhola em ConSequencias. Como tal aconteceu?
MD’S: Isso aconteceu a partir de convite do evento ConSequencias para alguns artistas brasileiros. Como estava participando da Front na época, acabei sendo um dos selecionados.

NPS: Que importância teve para ti participar nas publicações eslavas Stripburger?
MD’S: A Stripburger foi outro contato a partir da internet. Na época, creio que foi o Daniel Bueno, ilustrador, quem fez referência à publicação. Enviei algum material para lá e eles aceitaram publicar. Hoje, a internet ajuda muito na divulgação e compartilhamento de trabalhos para publicações.

NPS: A revista especial Super-Interessante da editora Abri dedicada a bandas desenhadas de serial killers Contos Bizarros permitiu uma exposição importante do teu trabalho a outros leitores?
MD’S: A editora Abril é uma empresa com grande distribuição e circulação. Provavelmente, na época, até por ser uma revista de banca, foi um dos meus trabalhos mais conhecidos. No entanto, confesso, tenho certas dificuldades em lidar com prazos para fazer quadrinhos mais comerciais. Meus trabalhos em geral levam um tempo de gestação grande. Faz parte do meu processo.

noiteluzNPS: Noite Luz foi o teu primeiro livro a solo. Fala-nos um pouco do livro.
MD’S: Noite Luz foi a minha primeira experiência solo mais autoral. Surgiu a partir de uma história, Noite Luz, publicada na revista Front. Gostei muito do resultado e comecei a criar um universo de personagens ao redor de uma casa noturna de mesmo nome. O álbum tem diferentes soluções gráficas para cada história. Isso reflete as minhas experimentações para encontrar um traço e estilo próprio.

NPS: Ficaste surpreso pelo interesse em editar o livro na Argentina?
MD’S: Conheci a editora Ex-Abrupto, do Thomas Dassance, a partir de contatos na internet. Enviei algum material para a editora. Ele gostou e publicou algumas HQ na Suda Meryka!. Depois, foi publicado também o livro Noite Luz, em 2008, na Argentina. Um mês antes de sair no Brasil. A conversa com a editora Ex-Abrupto para publicação foi bem rápida. Creio que tudo levou 4 meses, o que me surpreendeu bastante na época. No Brasil, creio que toda negociação e publicação levou quase 1 ano.

capa_encruzihadaNPS: A BD Encruzilhada, inédita em Portugal, teve direito a uma exposição coletiva, Seis esquinas de inquietação, no Amadora BD 2013. Como foi essa experiência?
MD’S: O livro Encruzilhada, de certo modo, é uma continuação do Noite Luz. O ambiente é muito urbano, fechado, claustrofóbico. Foi um momento importante de amadurecimento do traço e da forma de contar histórias. O Pedro Moura, crítico de quadrinhos em Portugal, viu esses dois trabalhos e se interessou em fazer a exposição do Encruzilhada em Portugal. Participar dessa exposição foi incrível.

NPS: Prostituição, toxicodependência, crime… Tiveste de realizar algum esforço consciente em Encruzilhada para não cair nos lugares-comuns?
MD’S: A minha forma de contar histórias, penso, vai além da visão mais comum desses temas. O argumento de cada história surgiu a partir de conversas, matérias de jornal, observação pelas ruas. Enfim, são histórias realizadas a partir de um modo específico, com foco em imagens e nas possibilidades de leituras. Tenho interesse em contar histórias a partir de perspectivas marginais da cidade também.

NPS: A nova edição de Encruzilhada inclui uma segunda BD, Risco, lançada em 2014. Além da urbanidade de ambas, quais as razões temáticas que te levaram a optar por reuni-las num único objeto?
MD’S: Risco é um quadrinho sobre a desigualdade social, discriminação e racismo numa grande cidade. Realizei a primeira versão da história em 2011, logo depois do livro Encruzilhada. Todo o contexto de Risco está de acordo com as histórias do Encruzilhada – o clima urbano, as marcas, desigualdade etc. Além disso, em conjunto, ela acrescenta um ingrediente importante ao livro Encruzilhada, a ideia de resistência está mais direta ali.

NPS: Atendendo à temática, esperarias que Cumbe fosse a tua primeira BD publicada em Portugal?
MD’S: Não. Cumbe surgiu a partir de uma pesquisa e interesse grande sobre a resistência negra da escravidão no Brasil. Apesar de me engajar por vários anos na criação do livro, tinha muitas dúvidas se ele seria bem recebido e compreendido. No início, imprimimos 3 mil exemplares e fiquei muito preocupado. Imaginei que demoraria muitos anos para vender tudo. Para minha surpresa, todos os livros foram vendidos em menos de 2 anos e já estamos fazendo novas impressões no Brasil. Essa boa recepção colaborou no sucesso internacional do livro. Ele já foi publicado em Portugal, Espanha e deve sair na Itália e nos EUA.

NPS: Planeaste Cumbe como uma antologia de 4 contos ou foi algo que surgiu durante o processo? Foi uma herança do processo antológico das 6 histórias de Noite Luz e das 5 histórias de Encruzilhada?
MD’S: Noite Luz e Encruzilhada são livros bem urbanos, falando de experiências negras e periféricas numa grande cidade como São Paulo. Cumbe tem um universo bem diferente, trata da resistência de negros e negras no Brasil colonial do XVII. Esse interesse surgiu em 2006, quando comecei a pesquisar mais sobre história do Brasil e escravidão. Mas somente consegui dar forma a esse universo e histórias bem depois. Em todo caso, os dois primeiros livros têm fortes relações com Cumbe, todos tratam de experiências negras no território brasileiro.

NPS: Como surgiu o teu interesse na temática dos povos banto no Brasil colonial? Trata-se de uma realidade conhecida da maioria dos brasileiros?
MD’S: Falar de escravidão ainda é tabu em muitos ambientes no Brasil. Existem dados sobre esse período, mas poucos registos mais íntimos de como eram os conflitos do período, no dia-a-dia dos escravizados. Quando falamos dos grupos bantos, há ainda mais desconhecimento. Apesar disso, mais de 70% dos africanos vindos para o país eram pertencentes a etnias de origem banto. O livro é uma tentativa de rever a história a partir deste grupo, que é muito rico em símbolos, arte, manifestações, idiomas etc.

Página 1 CumbeNPS: A obra foi realizada no âmbito do Proac. Explica aos portugueses o que é e como funciona o Proac.
MD’S: O Proac é um programa estadual de fomento à arte e cultura. Ele foi responsável pelo lançamento de muitos trabalhos de quadrinhos em São Paulo nos últimos anos. Em 2013, enviei o projeto, que foi aprovado. Cada autor recebe um valor para elaborar, imprimir e lançar o livro. O projeto tem sido algo importante para garantir e trazer profissionais para o meio dos quadrinhos. Devido aos atuais cortes do governo, não é certeza que continue este ano. Aliás, o contexto político atual no Brasil, com as novas – e velhas – correntes de direita atacando, é nefasto e preocupante para a cultura e arte. Os ministérios da cultura, das mulheres, de direitos humanos, de combate ao racismo, entre outros, foram extintos ou reagrupados. É um momento de retrocesso e de perigo para a arte.

NPS: Fala-nos um pouco da tua participação na sessão do Próximo Futuro, programa organizado por António Pinto Ribeiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2015.
MD’S: Em maio de 2015, houve o lançamento do livro Cumbe em Portugal, pela editora Polvo. Neste mesmo mês, participei de um debate sobre quadrinhos com Posy Simmonds e Anton Kannemeyer na Fundação Gulbenkian moderado pelo Pedro Moura. Foi uma experiência muito interessante conhecer os trabalhos desses artistas.

NPS: Como descreverias o estadio em que se encontra a edição de autores brasileiros, incluindo a edição independente, no Brasil?
MD’S: Hoje, o Brasil tem uma produção independente de quadrinhos extraordinária. Há muitos artistas criando histórias. Tanto que, em alguns eventos, como o FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos, eles possuem um espaço grande para exposição e venda dos seus trabalhos. Isso tem feito com que algumas editoras maiores também começassem a publicar quadrinhos.

NPS: De um modo geral, consideras que as temáticas e géneros de bandas desenhadas brasileiras são influenciadas pelo predomínio do consumo das BD norte-americanas?
MD’S: Os comics americanos ainda tem um público forte e fiel no Brasil. Mas penso que o interesse dos artistas brasileiros por outros temas tem aumentado. Isso acaba favorecendo e criando um público à procura de novas histórias também.

Página 15 CumbeNPS: Quais as estratégias dos autores e editores do Brasil para dar a conhecer as BD brasileiras a potenciais interessados? As feiras e convenções têm sido aliados importantes?
MD’S: As feiras têm sido importantes principalmente para as pequenas editoras e para os independentes. Existem muitos autores que atuam principalmente nesses eventos. Fora isso, grande parte da produção brasileira está nas livrarias. Nas bancas, há apenas os comics, mangás e Mauricio de Sousa.

NPS: Para além de autor de BD, és ilustrador e professor. Fala-nos um pouco dessas atividades.
MD’S: Sou professor de artes visuais no ensino básico, lidando com jovens e adolescentes. Trabalhar com arte na educação formal é um grande desafio. Muitas vezes enriquecedor. Já meus trabalhos com ilustração estão menos frequentes devido a falta de tempo. No momento, minha principal atividade é a criação de quadrinhos.

NPS: Um autor brasileiro de BD conseguir viver somente desse trabalho no Brasil é uma utopia?
MD’S: Imagino ser possível viver apenas de ilustração no Brasil. Já quadrinhos, como dependemos da venda de livros, não é uma área com retorno tão certo e rápido. Imagino que sejam pouquíssimos os autores que conseguem essa façanha.

NPS: Quais são as tuas expectativas em relação ao Festival Internacional de BD de Beja?
MD’S: Tenho muito interesse em conhecer novos artistas e o evento em si. Também gostaria de observar como o público português tem visto o quadrinho Cumbe, pois ele dialoga com narrativas relacionadas com Brasil e Portugal.