hiper42capa

Na Hiper Disney #42, despedem-se as strip stories de Scarpa. A derradeira strip story contém a última aparição de Zenóbia numa história de Romano Scarpa. É certo que posteriormente a personagem realizou um ou outro cameo (cf. “Férias Solitárias”, na Disney Comix 25) ou interpretou outro “papel” (cf. “O Mistério de Burgospetro” em Disney Especial 20: Monstros), mas a Rainha de África criada por Scarpa (cf. Hiper Disney 13), que a utilizou em pleno em 3 bandas desenhadas (cf. “As Rãs Saltadoras” em  Disney BIG 2 e “A Trama dos Bastidores” na Hiper Disney 25), foi apenas coadjuvante em 2 das strip stories com que que Scarpa homenageou Floyd Gottffredson (cf. Hiper Disney 39 e 41). Tal também é o caso de Olá, Minnotchka!, mas é nessa história que Scarpa opta por finalizar o seu destino.

ninotchka_filmeNo entanto, não é pela Zenóbia (cujas histórias em Portugal, anteriormente inéditas, se encontram já totalmente publicadas, com excepção de uma BD com um cameo minor) que a banda desenhada Olá, Minnotchka! ficou conhecida. Trata-se de uma adaptação livre de Scarpa do filme Ninotchka, realizado por Ernst Lubitsch em 1939 e protagonizado por Greta Garbo. Foi a primeira comédia interpretada por Garbo, sendo uma das frases utilizada nos posters e demais marketing Garbo laughs (num evocativo da frase promotora – Garbo talks – do primeiro filme sonoro de Garbo, Anna Christie, 9 anos antes). Trata-se de um dos primeiros filmes norte-americanos que, num contexto de romance leve e satírico, retrata a União Soviética de Estaline como sendo rígida e cinzenta, por comparação com a sociedade parisiense livre e ensolarada dos anos pré-guerra. O filme estreou um mês após o início da II Guerra Mundial, tendo sido um grande sucesso na Europa, ganho 4 Óscares e sendo proibido na União Soviética. Outra fonte de inspiração foi o filme norte-americano menos conhecido Tovarich de 1937, realizado por Anatole Litvak.

A adaptação de Scarpa de 1992 mantém muitos pontos em comum com os dois filmes, em especial com Ninotchka, como o tesouro aristocrático que deve ser confiscado para ser utilizado pelo governo ou a sedução do Ocidente e acomodação ao capitalismo. Quanto à presença de Mickey e os seus amigos em Paris foi explicada pela visita à Disneyland Paris, na altura denominada de Euro Disney, o primeiro parque temático da Disney na Europa, inaugurado poucos meses antes, e que tinha causado bastante polémica na altura em França, com vozes manifestamente contra a instalação do parque no seu país, acusando-o de promover em França a simbologia norte-americana, o imperialismo cultural dos EUA e o consumismo norte-americano. A encenadora e realizadora Ariane Mnouchkine apelidou o parque de “Chernobyl cultural” – o acidente nuclear tinha ocorrido 6 anos antes -, uma frase que ecoou na imprensa e não abandonou a Euro Disney nos primeiros anos. Minnotchka começa também por desdenhar o parque temático (fantasias de crianças, invenções fora da realidade, fanfarronices) para mais tarde se render ao mesmo.

Com a publicação da strip story Olá, Minnotchka!, serializada nos números 1929 a 1932 na revista semanal Topolino, instalou-se a polémica em Itália, com a imprensa a dar grande destaque a essa banda desenhada, resultando em duras críticas dos jornalistas, bem como dos políticos de esquerda. Scarpa ainda gracejou na altura que não havia nenhum anticomunismo na sua BD, quando muito uma ratotroika (topotroika, no original), numa alusão à perestroika de Gorbachev introduzida em 1986 na URSS, que tinha contribuído um ano antes para a Queda da União Soviética. Scarpa salientou que mais do que qualquer oposição ideológica, o Mickey opõe-se a um vulgar vigarista que quer açambarcar para si as receitas do Estado. E, no final, os novos dirigentes mantêm os seus ideais e não abraçam o capitalismo, embora anunciem duas grandes mudanças, as eleições livres e a abertura das fronteiras.

A polémica surgiu em Itália numa altura em que existia um exaltado debate sobre a reforma eleitoral, tendo as acusações do Mickey ser “monárquico” e anticomunista originado que diferentes figuras e posições no debate fossem identificadas com personagens da BD Disney, como o Donald e o Pateta. A repercussão de todo este ruído foi a de que a BD Olá, Minnotchka! jamais fosse republicada em Itália ou qualquer outro país até ao ano 2014, altura em que em Itália se encontrava a ser publicada a série As obras completas de Romano Scarpa.

Portugal é o primeiro país a apresentar esta BD além-fronteiras, 24 anos após o seu lançamento, podendo os leitores saber o destino que Scarpa reservou a Zenóbia, ser detentores da totalidade das strip stories do autor, ler uma curiosa adaptação do cinema à BD Disney e conhecer em primeira mão uma das mais polémicas bandas desenhadas da Disney publicadas em Itália.

Que outras BD podem ser encontradas nesta revista? Rezam as lendas que no clássico Donald e a aurite aguda, Scarpa introduziu a cúpula da caixa-forte do Tio Patinhas pela primeira vez. O divertido argumento é de Rodolfo Cimino. Cimino é também o argumentista da BD Tio Patinhas e os Vampirometralha.

Os leitores que apreciaram ler as histórias de Donald e o Tio Patinhas dedicadas ao Robin dos Bosques na Disney Especial 28: Grandes Heróis, vão gostar de saber que a Hiper contém mais uma história dedicada a Robin Hood, cabendo desta vez a Mickey interpretar tal papel. Com argumento de Fausto Vitaliano, os desenhos são de Lorenzo Pastrovicchio.

Falando em Mickey, estão finalmente de regresso as Crónicas da Fronteira, a série de Giorgio Pezzin, livremente inspirada em Star Wars. Neste número, iniciam-se os episódios da segunda parte da saga. Em Itália, os leitores tiveram de aguardar 2 anos para que fosse publicada a segunda e última parte desta saga. Os leitores portugueses esperaram apenas alguns meses. Estes 5 últimos episódios serão, em princípio, publicados a um ritmo mensal. Em Missão Impossível, começam-se a obter algumas respostas quanto à identidade do misterioso Inimigo e quem é na realidade Seline…

Quem também viaja para o futuro é o Superpato na habitual série PKNA – Paperinik New Adventures. Carpe Diem foi escrita por Alessandro Sisti e desenhada por Alessandro Barbucci e deixa muitos filmes e bandas desenhadas de ou com laivos de ficção científica a anos-luz. Os mesmos autores introduzem ainda a personagem Trip, o filho de Saqueador.

Para além de Trip, outro momento de humor em BD curta é dado pelo duo de autores Tito Faraci e Giuseppe Ferrario com as delirantes histórias a preto e branco a que nos habituaram, onde a liberdade criativa é a palavra de ordem.

Finalmente, registe-se que com esta edição da Hiper Disney, são ainda oferecidos 2 revistas da série Disney Comix.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:
Agarra-te bem ao assento do sofá porque esta edição da Hiper vai prender a tua atenção do início ao fim e vai estar repleta de histórias vertiginosas!!! Como podes ver pela capa, o Donald, tal qual verdadeiro cowboy, já se pôs a caminho com destino à aventura sem limites!!! E poderíamos começar de melhor forma do que na companhia do tio mais famoso de Patópolis?! O Tio Patinhas tenta, uma vez mais, defender o seu património dourado dos amigos do alheio, da melhor forma que sabe! Desta feita, novas ameaças surgem, com os vampirometralha a perigarem a solidez e robustez da fortuna do nosso tio avarento… Força, Patinhas! Para saberes mais sobre esta misteriosa história, só mesmo lendo Tio Patinhas e os vampirometralha!!! A figura Disney mais icónica também está de regresso, uma vez mais, com uma forma “sui generis” de apresentar uma história aos quadradinhos: são as histórias às tiras! O Mickey apresenta-te, em Paris, uma nova e perigosa rival. Para perceberes melhor o que estamos a dizer, só mesmo lendo Mickey em: “Olá, Minnotchka!”. Mas o melhor é mesmo vivermos o dia a dia, sem pensarmos no amanhã. Não é, Superpato?! Pelo menos, é isso que nos diz o título de mais uma nova história do Superpato: Carpe Diem! Depois dos super-heróis, as dimensões paralelas. As crónicas da fronteira voltam, com as suas aventuras espaciais a fazerem inveja às melhores ficções científicas! Missão impossível é o que nos promete o título. Será mesmo assim??? Não percas estas e outras histórias na tua Hiper de sempre!

nota: imagens cedidas pela editora.