Arnaldo AntunesA Planeta Tangerina lançou o livro ilustrado Imagem, o qual contem o poema homónimo de Arnaldo Antunes, interpretado pelas ilustrações de Yara Kono.

Se é verdade que grandes nomes brasileiros das mais diferentes formas de expressão artística permanecem desconhecidos no nosso país, tal não é o caso de Arnaldo Antunes. No entanto, à semelhança do que acontece no seu país natal, o conhecimento da sua obra pelo grande público é redutor.

No Brasil, Arnaldo Antunes ficou conhecido por ser um dos integrantes dos Titãs, uma das bandas brasileiras mais importantes, que tem sofrido diferentes mutações quanto ao seu som e elementos que a compõem desde a sua criação, em 1982.

No entanto, apesar da importância de Arnaldo Antunes na banda, com a qual continuou a colaborar após ter deixado de ser um dos elementos da banda, os únicos concertos em que participou com os Titãs no nosso país foram os de abertura dos concertos dos portugueses Xutos & Pontapés em 1988. Os restantes poucos concertos da banda em Portugal – que permanece obscura para a maioria dos portugueses – já são da fase pós-Arnaldo Antunes, seja na tentativa gorada de conquistar Portugal com a sua reformulação acústica no final dos anos 90 – com a participação da banda portuguesa Corvos -, seja no mais recente concerto com os Xutos & Pontapés no Rock in Rio Lisboa 2012.

Na verdade, o nome de Arnaldo Antunes passou a ser conhecido em Portugal principalmente devido a Marisa Monte, cantora brasileira que conquistou os portugueses no início dos anos 90. Inicialmente, a sua presença foi discreta e somente nos créditos. À reinterpretação do tema Comida dos Titãs por Marisa Monte no primeiro álbum, seguiram-se nos álbuns seguintes alguns temas da autoria ou coautoria de Arnaldo Antunes, como Beija Eu, Volte Para o Seu Lar, Alta Noite e dezenas de outros.

Não que Arnaldo Antunes não começasse entretanto a surgir em Portugal nas suas mais variadas vertentes – compôs e gravou a banda sonora, em parceria com Leonardo Aldrovandi, do espetáculo Nº 2 de Tiago Carneiro da Cunha, apresentado na Expo 98; tinha tido poemas incluídos na antologia Festa da Língua Portuguesa 2: Vozes Poéticas da Lusofonia (1999)apresentou concertos dos seus álbuns Um Som em 2000 e Nome em 2001; teve uma instalação na portuense galeria do Labirintho em 2001; e uma performance no Museu de Arte Contemporânea de Serralves no Porto – Capital Europeia da Cultura 2001.

Mas seria em 2002 que Arnaldo Antunes passaria a ser conhecido pela maioria dos portugueses, através do projeto musical Tribalistas, que o reunia a Marisa Monte e Carlinhos Brown. O sucesso do projeto contribuiu para que mais facilmente apresentasse nos anos seguintes em Portugal os seus álbuns seguintes, passando também a ser um colaborador da banda portuguesa Clã. E em 2006, a Quasi publicava uma antologia dedicada à sua poesia.

Deste modo, 20 anos depois da criação dos Titãs, Arnaldo Antunes atingiria em Portugal uma situação similar  – mas não idêntica – àquela que vivencia no Brasil. Um reconhecimento do público pelo seu trabalho enquanto músico, com um menor grupo interessado nas demais vertentes da sua arte, seja a poesia, a ilustração / a caligrafia, as artes gráficas, o vídeo / o digital, as instalações, as performances…

No Brasil, a poesia de Arnaldo Antunes já foi galardoada e, de um modo geral, tem uma boa receção no mundo académico, sendo alvo de diversas análises.

Se existe algum ponto comum em todas as vertentes a que Arnaldo Antunes se dedica é a exploração da linguagem. Muitas das suas obras são criadas e recriadas, consoante os suportes a que se destinam, numa construção e reconstrução multimédia, por vezes com laivos metalinguísticos.

O poema Imagem foi publicado inicialmente no Brasil no terceiro livro do autor. Tudos foi editado em 1993 pela editora paulista Iluminuras. Nele, está presente o habitual experimentalismo linguístico da obra. No entanto, em Imagem não existem processos de fusão e fragmentação de vocábulos, estando a subversão do signo linguístico focado na inversão da sintaxe.

Imagem seria reutilizado em Nome (1993), projeto que dá nome a diferentes apresentações – um CD musical e a respetiva brochura, um vídeo e um livro. A música audível no CD e o vídeo foram ainda incorporados numa outra manifestação, a performance.

Observe-se a exploração visual no formato vídeo do poema musicado:

Nesta migrações de formato, Arnaldo Antunes contou com Péricles Cavalcanti para o tema musical, a manifestação artística onde é mais evidente a presença da rima ocasional. Já quanto ao vídeo-home Nome, foi realizado por si, Celia Catunda, Kiko Mistrorigo e Zaba Moreau. Se o vídeo explora temas recorrentes na obra de Arnaldo Antunes, como o som/o silêncio e a palavra/a imagem, no mesmo não está preservada a estrutura visual do poema constante da brochura:

brochura_cdnome
Detalhe da brochura do CD “Nome” de Arnaldo Antunes

Atente-se no texto justificado presente na brochura, com a oposição do objeto – transformado em sujeito – ao verbo. Esta disposição gráfica e respetiva construção sintática é ofuscada nas demais apresentações do poema.

Esta disposição está também ausente na nova interpretação gráfica do poema pela brasileira Yara Kono, nesta sua oitava colaboração com a editora Planeta Tangerina. Por vezes, um verso ocupa duas páginas justapostas ou uma página dupla. Outras vezes, um verso ocupa duas páginas duplas sucessivas.

Yara Kono começa o livro com uma referência à própria capa do livro (ou talvez não, pois não é exata), jogando com a representação gráfica das palavras e a analogia com o dilema da causalidade do ovo e da galinha, enquanto inicia o seu próprio universo imagético da obra, com homenagens diversas às artes gráficas e métodos de impressão e reprodução, por vezes recorrendo ao minimalismo.

A importância dos detalhes é hiperbolizada na multidão anónima que assiste ao filme de A Viagem à Lua de Georges Méliès, com a presença de seres não humanos na plateia. Na ilustração seguinte àquelas focadas no cinema, a apropriação do poema pela ilustração é demonstrada.

Mais do que transpor para o papel as imagens de pequenos momentos que a leitura do poema possa evocar, a ilustradora, perante a ausência de uma narrativa major, confere unicidade à obra através da repetição de alguns elementos elementos gráficos ao longo do livro, bem como do estabelecimento da repetição de uma relação gráfica real ou evocativa entre os dois elementos de cada verso.

Tendo por mote o último verso do poema “olho olha”, propõe-se aos leitores realizarem uma releitura da obra quando tiverem chegado ao final.

Clique nas imagens para as visualizar em toda a sua extensão:

Eis a sinopse da editora:

Olhar é o mesmo que ver? Ver é o mesmo que reparar?
Vemos sempre do mesmo modo ou mudamos o nosso olhar de acordo com o que os olhos encontram a cada momento?
No poema Imagem, que serve de fio condutor a este livro, Arnaldo Antunes brinca com a palavra “ver” e desdobra-a, contempla-a, observa-a…
As ilustrações de Yara Kono juntam-se à festa, num livro que celebra o mundo visual e as imagens, sejam elas paisagens, cores, corpos, cenas de um filme ou ilustrações de um livro.

Imagem
Arnaldo Antunes & Yara Kono
40 páginas
Planeta Tangerina
Apresentação: capa dura
Formato: 195 x 220 mm
ISBN: 9789898145734
PVP: 12,50 €