marcelloMarcello Quintanilha está presente no terceiro fim de semana do Amadora BD, por ocasião do lançamento de mais 2 livros seus em Portugal, Hinário Nacional e Fealdade de Fabiano Gorila. Realizámos uma curta entrevista ao autor.

Nuno Pereira de Sousa: Almas Públicas e Sábado dos meus Amores foram dois livros brasileiros que constaram da listagem mensal das melhores leituras do site Bandas Desenhadas. Apresente essas obras aos leitores portugueses.
Marcello Quintanilha: São obras cujo principal objetivo é o da reconstrução; ou reconstituição, se você prefere; de um universo iconográfico eminentemente brasileiro, referenciado naquilo que conheci em primeira pessoa enquanto criança e adolescente ou através das experiências de pessoas próximas.

NPS: São livros que evidenciavam crónicas visuais sobre quotidianos brasileiros. Tem interesse em mostrar, através da BD, o quotidiano do país onde reside atualmente?
MQ: Até o momento, todas as minha histórias estão construídas em torno ao que vivi e conheci do Brasil, mais especificamente ao conjunto de coisas e valores que me formaram como ser humano ou com os quais tive contato direta ou indiretamente. No momento, ainda não ocorreu trabalhar fora desse contexto.

NPS: Tungsténio, Talco de Vidro e Hinário Nacional. O que há de comum entre as 3 obras editadas em Portugal pela Polvo?
MQ: O que há de comum, não somente no que se refere a essas três histórias, mas a minha obra como um todo, é o fato de elas darem voz a meu interesse de explorar a humanidade dos personagens da maneira mais crua e sincera.

NPS: Na sua opinião e conhecendo o mercado brasileiro e português, porque é que o intercâmbio de BD entre os dois países está aparentemente mais facilitado no que toca à publicação de autores brasileiros em Portugal do que autores portugueses no Brasil?
MQ: São mercados com características diferentes, conquanto se estruturem de forma parecida, com a imensa maioria dos títulos sendo de procedência estrangeira. A diversificação de propostas editoriais no Brasil ainda é uma vertente relativamente nova e a lacuna que existe em relação à publicação de autores portugueses se estende também a autores espanhóis, italianos e até mesmo argentinos. Espero que o panorama mude dentro de algum tempo.

NPS: De que modo residir em Espanha facilitou ou não ser editado no mercado franco-belga?
MQ: Não é um fator preponderante sob nenhum aspecto.

NPS: Dê-nos a sua visão do mercado de BD espanhol em geral e do movimento barcelonês em particular.
MQ: Todos os mercados que se estruturam fora do eixo EUA – França/Bélgica – Japão (à exceção, talvez, de Itália, com a linha Bonelli), têm características similares, ou seja, se estruturam em torno da publicação de títulos estrangeiros; produções nacionais representam uma fatia menor do mercado ou se expressam diretamente em meio independente; têm uma maior rotatividade no surgimento e desaparecimento de editoras pequenas.
O mercado espanhol se estrutra basicamente sob essas premissas e a cena catalã, em particular, tem sua maior representatividade na histórica editora La cúpula.

NPS: Que importância teve receber o Prémio HQ Mix 2016 na categoria de destaque internacional pelas obras editadas em Portugal?
MQ: É sempre importante, porque, inevitavelmente, traz mais luz para o trabalho. Estou ansioso de poder reencontrar o público português, e pisar novamente nesse país, onde sempre me senti muito bem recebido.

NPS: A nomeação de Tungsténio para a Fauve Polar SNCF surpreendeu-o? Na concepção que realizou do livro, acredita que privilegiou esse género?
MQ: Qualquer nomeação é sempre uma surpresa e realmente não parto das construções específicas de gênero para realizar meu trabalho. A história existe por si e realmente acredito na capacidade de deixar que ela caminhe por si só, decidindo a forma como deve ser contada.

NPS: O prémio ganho em Angoulême abriu-lhe novas portas no que toca à ilustração e banda desenhada?
MQ: A consequência mais evidente é a da visibilidade. Creio que é principal derivação de um prêmio como esse.

NPS: Fale-nos da adaptação cinematográfica de Tungsténio.
MQ: Estou empolgado com essa perspectiva. Eu participei do processo de adaptação, trabalhando na primeira versão do roteiro, que, posteriormente, foi revisado por dois outros roteiristas, Marçal Aquino e Bonassi, e estou particularmente satisfeito com o resultado. Chegando neste ponto, a única coisa que nos resta é esperar o resultado final.

NPS: E qual foi a sensação do livro ter sido uma das 15 obras nomeadas para o Grand Prix de la Critique ACBD?
MQ: É sempre maravilhoso quando isso ocorre; Tungstênio teve 4 indicações no que se refere ao mercado francês, recebendo também a indicação para o prêmio Fnac e Quais du Polar, da cidade de Lion. Absolutamente magnífico.

NPS: Na sua opinião, que tendências ou caminhos para o futuro da banda desenhada brasileira estão a ser traçados, quer nas vias mais mainstream, quer nas mais alternativas?
MQ: É difícil falar sobre o futuro, especialmente em um panorama onde novas mídias vão diversificando a forma como os trabalhos vão sendo apresentados ao grande público. Teremos que esperar para ter uma idéia mais clara de qual dessas vertentes vai se consolidando, possivelmente em detrimento de outras.

NPS: E para a BD europeia?
MQ: O mesmo pode ser dito aqui, com o acréscimo de que a ramificação do assim chamado Romance Gráfico, vem ganhando espaço de modo determinante no mercado. Mas, como disse, devemos esperar um pouco para ter uma idéia clara sobre a consolidação das vertentes.

nota 1: respeitaram-se respetivamente as normas europeia e sul-americana da língua portuguesa de entrevistador e entrevistado.
nota 2: imagem gentilmente cedida pelo autor; crédito: Luciana de Oliveira.