Esad Ribić é um dos artistas convidados da Comic Con Portugal. Nascido na Croácia, actualmente trabalha para a indústria de comics norte-americana. Loki, uma das bandas desenhadas que ilustrou para a Marvel, vai ser republicada pela G. Floy e lançada na Comic Con. A RIBDA entrevistou o artista.

ribic_05Que banda desenhada lia na sua infância e adolescência?
As minhas primeiras leituras foram as edições italianas da Bonelli até que, por volta dos meus 10 anos, comecei a ler mais banda desenhada franco-belga. Muitas destas obras não eram fáceis de obter, pelo que só comecei a ler Moebius quando já tinha 15 anos. Na altura, era grande fã de John Buschema e Frank Frazzetta. Durante algum tempo até pensava que eram a mesma pessoa 🙂

Como é que a sua formação em Design Gráfico influenciou o seu trabalho em banda desenhada?
Com excepção de ter muitos colegas com os mesmos interesses que eu e, dessa forma, ir descobrindo uma série de coisas novas, não tenho a certeza se a minha formação teve muita influência no meu percurso na banda desenhada. Desde muito cedo, apercebi-me que páginas demasiado desenhadas abstraíam-me da história, pelo que comecei a evitar detalhar demasiado os desenhos.

Como foi a sua experiência em animação?
A animação era algo completamente distinto, com as suas próprias singularidades. Como o estúdio para o qual trabalhava produzia principalmente animação artística, não comercial, possibilitava-me experimentar todos os tipos de coisas, como cenários, efeitos especiais, etc. Infelizmente, o estúdio parou de produzir quando eu estava a começar a ser um verdadeiro profissional de animação, pelo que não tive oportunidade de passar algumas das minhas ideias para os filmes.

Fale-nos um pouco sobre os seus trabalhos publicados em revistas croatas e alemãs.
A maioria do que era publicado na Croácia eram edições underground que continham histórias de 1 a 2 páginas. Naquela altura, eu estava a produzir algum material mainstream, mas não existiam revistas, apenas algumas fanzines, pelo que não tinha forma de publicar material com mais páginas de um modo mais profissional. O único trabalho profissional que eu fiz naquela altura foi para uma editora alemã, elaborando histórias de terror de 4 a 6 páginas feita, em conjunto com alguns amigos. Presumo que éramos mais baratos do que os artistas alemães. Foi um desafio, porém, porque a editora exigiu-nos que fizéssemos histórias de terror sem usar o preto!

Pode-nos descrever como é o mercado atual de banda desenhada na Croácia?
Não existe um mercado, apenas um movimento de BD. Se chegares a um nível profissional, tens que procurar trabalho no exterior. Há mais material publicado do que nunca, mas depende de subsídios do Estado e não de vendas, para sobreviver.

Os seus primeiros trabalhos nos EUA foram escritos por Miljenko Horvatic e publicados pela Antarctic Press. O que recorda dessas obras?
Naquela altura, nós estávamos a colaborar com tudo o que pudéssemos e começámos a enviar portefólios para o exterior. A verdade é que jamais conseguiríamos publicar aquele material na Croácia. A Antartic Press foi a primeira que se mostrou interessada em publicar os nossos trabalhos. Honestamente, não estava feliz com o material porque o que eu enviei foi uma tentativa de aproximação ao estilo norte-americano. Mas eles queriam publicá-lo, pelo que concluímos a história e começamos a trabalhar com eles. Foi uma altura muito difícil para a editora pois, naquela altura, estavam praticamente na falência. Mas as revistas de BD foram publicadas e tal deu-me a oportunidade de me direccionar para melhores projectos.

Conte-nos um pouco sobre a sua experiência na Vertigo.
A Vertigo foi o meu seguinte selo editorial. Foi um passo enorme na minha carreira e foi, também, um momento de grande luta. A maior parte dos projectos editoriais versavam a magia e fadas, uma temática que não me agradava muito. Eu gostava de fantasia, mas numa perspectiva totalmente diferente. No entanto, conheci muita gente com quem vim, inclusivamente, a trabalhar mais tarde.

Seguiu-se a Marvel. Houve alguma diferença no trabalho desenvolvido com Robert Rodi inicialmente em “Four Horsemen” na Vertigo e posteriormente em “Loki” na Marvel?
Na verdade, a forma de abordagem não mudou muito. As ferramentas (personagens) eram diferentes e tivemos um ambiente bastante mais propício para produzirmos “Loki” da forma que queríamos.

Como foi a experiência de trabalhar com J. Michael Straczynski em “Silver Surfer: Requiem”
O Straczynski tem uma abordagem diferente. O Rodi tem ligações à literatura e ao teatro. O Straczynski tem as suas raízes nos média e na televisão, pelo que o processo criativo foi diferente. Era uma banda desenhada high-concept, mas não sei se, na altura, muitas pessoas entenderam o conceito.

ribic_06_metabaronNo que toca ao trabalho que desenvolveu em “Secret Wars”, o que mais gostou?
Do terminar, sem dúvida! Eu já tinha trabalhado com o Jonathan Hickman e penso que fazemos uma boa parelha, mas com prazos apertados, o tamanho e a situação do evento em torno da mini-série, fez com que eu corresse como um louco durante quase um ano inteiro para conseguir terminá-lo. Estava exausto quando terminámos. Alguma das razões foram eu querer evitar fill-ins, termos começado tarde e terem sido adicionadas páginas suficientes para 3 revistas de BD. Ou seja, durante a criação de “Secret Wars”, eu apenas trabalhava e dormia. Ainda assim, espero vir a trabalhar com Jonathan Hickman novamente, com melhores prazos, de preferência.

Em que projectos está actualmente a trabalhar?
Actualmente, estou a trabalhar num livro chamado “VS” com o Ivan Brandon para a Image e num volume de “Metabarons” para a Humanoïds no mercado europeu. Concluí também um livro de ilustração para a Louis Vuitton, um projecto bastante revigorante, por ser algo totalmente diferente do meu trabalho regular.