Chris Claremont é um dos autores convidados da Comic Con Portugal. Os seus trabalhos alcançaram o estatuto de bestseller, ganharam numerosos prémios e foram as responsáveis por algumas das tendências do sector. A RIBDA entrevistou o escritor.

Cresceu a ler a revista Eagle com o Dan Dare e outras personagens britânicas de banda desenhada. Em que é que a Eagle era diferente das histórias e desenhos que eram publicados nas revistas de banda desenhada norte-americanas?
A maior diferença era que Eagle era uma compilação de banda desenhada de frequência semanal que continha não só histórias de banda desenhada mas também artigos em prosa, que eram dirigidos principalmente às crianças do sexo masculino. No interior, encontrávamos geralmente bandas desenhadas de aventura de 1 página, mas as últimas páginas e o par de páginas centrais (pelo menos, daquilo que me lembro, considerando o tempo decorrido) eram inteiramente a cores. As capas eram dedicadas à série de marca da revista, Dan Dare, e as páginas interiores a cores continham biografias de diversas personagens históricas de importância (como Winston Churchill, Marechal-de-campo Visconde Montgomery de El Alamein e, claro, Jesus Cristo.) As diferenças entre a Eagle e as revistas norte-americanos Americanos (pelo menos, tanto quanto me apercebia) eram basicamente diferenças técnicas, tendo a ver com a quantidade de material que era apresentado e a forma como era produzido. Para mim, porém, eram tecnicismos. Enquanto jovem leitor, eu achava que era fixe.

Ao longo de todo o seu trabalho com os personagens X-Men, há alguns números ou sagas dos quais esteja especialmente orgulhoso?
Desculpem, mas eu já não escolho favoritos no que diz respeito aos X-Men. Estou orgulhoso de todo o material. Dito isto, a verdadeira resposta, agora e sempre, é que estou particularmente orgulhoso e desejoso da história que ainda não escrevi.

Actualmente, no que toca aos personagens da Marvel, ainda tem a necessidade de contrabalançar o que desejava escrever com as exigências editoriais e do público?
Enquanto profissional contratualizado pela empresa, uma das minhas principais responsabilidades é ter claro o que a Marvel pretende das séries e das personagens. Isso é algo que o editor faz, ao procurar uma forma de equilibrar as necessidades da empresa com as expectativas do talento criativo.
E, se por um lado se deve estar consciente da opinião pública, temos de ter em mente que os leitores e os autores têm um desfasamento temporal entre eles. operam num diferencial de tempo bastante diferente dos criadores. Idealmente, eu deveria escrever as histórias pelo menos 6 meses antes de serem publicadas, o que significa que a opinião dos leitores manifesta-se sempre com bastante atraso. Se a equipa criativa tiver feito bem o seu trabalho, os leitores gostarão ou adorarão o trabalho e a BD será um sucesso. Se não, temos que reformatá-lo do ponto de vista criativo e tentar de novo. Tudo começa com a melhor das expectativas e das intenções e com os dedos bem cruzados.

Parece-nos que as bandas desenhadas dos Vingadores e dos seus membros se tornaram novamente bastante populares, não gozando os títulos mutantes do mesmo hype de alguns anos atrás. Concorda com esta opinião? Julga estar relacionada com o cinema ou que é parte de um ciclo?
Não estou muito actualizado no que toca à banda desenhada e já não o estou há algum tempo. Não me é possível responder de uma forma precisa quanto à relação entre as diferentes “casas” dentro do panteão de publicações da Marvel.

Qual é a sua opinião sobre os filmes e séries televisivas da Marvel atuais e de outrora? O que pensa da ubiquidade das personagens de BD em diferentes tipos de plataformas de entretenimento?
Eu gostei muito dos filmes e séries televisivas que tive oportunidade de ver e quero ver as próximas produções, sejam elas quais forem. (Especialmente aquelas baseadas em personagens baseadas que co-criei, como o anunciado Legião para o canal FX, que criei com Bill Sienkiewicz.)

Também tem trabalhos dos quais é detentor dos direitos de autor. Fale-nos um pouco deles.
Em termos de trabalho publicado, cada projecto deu-me um prazer único, fosse Marada e o The Black Dragon com John Bolton para a Marvel, Solo com Michael Golden também para a Marvel, Huntsman com Jim Lee e Marc Silvestri para a Image, Wanderers com Phil Brioness para Fusion (Paris) e, claro, Sovereign Seven para a DC. Nesta grupo, temos super-heróis, ficção científica e fantasia sombria. Alguns foram sucessos de crítica, outros sucessos comerciais, alguns um pouco de ambos, outros simplesmente não o foram. Mas todos foram entusiasmantes. O melhor de tudo, por ser detentor dos direitos de autor – ou seja, ser meu – é que todos eles estão nas prateleiras do meu escritório a aguardar que eu regresse às concepções e que seja criativo para ver o que pode acontecer a seguir. Quem sabe, talvez algo inesperadamente excitante aconteça no Porto para revitalizar uma dessas concepções existentes. Ou, talvez, tenha a boa sorte de surgir algo completamente novo. Isso é a (louca) alegria de criar novas histórias e concepções; nunca se sabe exactamente onde o caminho nos leva ou o que uma concepção pode originar. Temos somente de continuar a avançar.

É difícil ver um personagem criado por si para a Marvel ser escrito por outros argumentistas de um modo com o qual não concorda?
A verdade nua e crua é que nenhum dos super-heróis que elaborei para a Marvel são “meus”. Eles pertencem à Marvel, tal como o Super-Homem pertence à DC / Warner Brothers. Os criadores são designados para cada série de BD por decisão dos seus editores e cada um deles traz a sua visão única para o trabalho. O fundamental é criar histórias que deixem os leitores extasiados e que os tragam de volta número após número, a ansiar por ver o que acontece a seguir. Se conseguirmos isso, todos ficam contentes. É esse o objectivo.

É o autor de diversos romances de ficção científica e fantasia. Está interessado em escrever mais romances?
É isso mesmo o que estou a fazer actualmente.

Pode falar-nos acerca dos seus próximos projectos?
Desculpem, mas eu não falo sobre projectos que ainda estejam em desenvolvimento, seja prosa, banda desenhada, cinema ou TV. Quando estiver concluído, ou melhor, quando for vendido, é o momento de comemorar. Antes disso – hey… Porque estragar a surpresa? Isso não é divertido!

Que conselho daria a potenciais escritores?
Coloquem a vossa paixão no vosso trabalho. O momento de falar dele é quando o projecto está concluído e vendido.