O nome do brasileiro Laudo Ferreira é certamente conhecido dos nossos visitantes. Não só o Pedro Moura realizou uma entrevista ao autor, a propósito da trilogia de banda desenhada Yeshuah, como o seu nome foi bastantes vezes citado nas emissões do programa radiofónico Bandas e os seus livros individuais ou participações em obras coletivas constam com alguma frequência das listagens mensais de melhores LeR (Leituras e Releituras) da equipa do site Bandas Desenhadas.

No último trimestre de 2016, a brasileira Devir publicou o mais recente livro de Laudo Ferreira, intitulado Cadernos de Viagem: Anotações e Experiências do Psiconauta. O título desta banda desenhada é um trocadilho, a mais do que um nível, com o termo frequentemente utilizado como sinónimo de diário gráfico nalguns contextos.

O próprio termo viagem tem mais do que uma leitura, não só a demanda pelo autoconhecimento com um travo dickensiano num processo catártico, mas também pelo seu significado informal de estado alucinatório provocado pelo consumo de certas drogas.

Curiosamente, a preparação para a viagem literária do leitor, inicia-se no prefácio de André Diniz. Para os que não reconheceram as semelhanças do protagonista da capa com Laudo Ferreira, Diniz sublinha que o livro é uma autobiografia ficcionada. Desta forma, o protagonista Miguel é e simultaneamente não é o autor / a pessoa Laudo. E, portanto, não será só Miguel a ter parecenças físicas com o autor.

A questão do xamanismo brasileiro e a bebida sacramental da Madre Ayahuasca certamente que serão motivos de estranheza, e portanto serão mascarados de exotismo, à maioria dos leitores portugueses que lerem a obra. De qualquer modo, tal é secundário, pois não é a via utilizada para a autodescoberta o cerne da obra, a qual é composta de várias questões, como as relações familiares, a necessidade de heteroaceitação, o modo como a criança lida com a frustração ou a forma como o valor atribuído a algo muda à medida que vamos envelhecendo.

Laudo Ferreira vale-se destas e outras questões para elaborar um tecido narrativo aparentemente simples, apesar das analepses e alegorias arquitetadas. O autor revela deste modo a sua maestria na arte do argumento, planificação e desenho das pranchas de banda desenhada, ao providenciar ao leitor uma obra complexa de uma forma extremamente acessível e de fácil leitura.

A parceria de quase duas décadas com o também autor brasileiro de banda desenhada Omar Viñole repete-se em Cadernos de Viagem, com Viñole a providenciar cores acolhedoras que adoçam a visão.

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nota: agradecemos ao autor a oferta do livro.