Como tínhamos noticiado, no passado dia 2 de fevereiro foi apresentado na livraria Baobá o livro Zoëlógica, da autoria de Patrícia Portela. Trata-se do primeiro livro infantil da autora, com diversas obras já editadas pela Caminho e Fenda, entre outras editoras.

Na verdade, Zoëlógica tem uma coautoria muito especial, desvendada no título. Zoë é a filha da autora, tem 7 anos e tem apetência por contar histórias e fazer desenhos desde os 3 anos de idade. E esta obra é o fruto das conversas – infinitamente inacabadas – entre mãe e filha, onde os pais certamente irão descobrir a imaginação, humor, lógica e nonsense própria da infância, regada com uma cumplicidade maternal.

O livro é constituído por diversos excertos de diálogos, com a quase ubiquidade da utilização do travessão que tal obriga, aparentemente apontados a caneta de feltro num bloco branco (a lombada no extremo superior da obra contribui para essa ilusão), por vezes fazendo uso da página dupla e com ilustrações que variam entre a grande proeminência na página ou a sua ausência total.

Para além das tentativas de Zoë em tentar se compreender melhor a si própria e ao mundo que a rodeia – p.e., a definição de ser vivo, o sistema circulatório, as funções cerebrais, os gansos serem as girafas dos patos, a água que corre dos rios continuar a caber nos lagos e mares e mais uma miríade de questões próprias da idade – , algumas manhas (p.e., de quem quer evitar comer isto ou aquilo) e brincadeiras (estar com pressa vs. estar com muito devagarinho), existe ainda uma série de momentos em que Zoë desafia a lógica do quotidiano, a solicitar que contem histórias inéditas que não possam ser inventadas ou divulguem o que acontecerá no futuro, a crença de que só sonha se estiver acordada, o sempre nem sempre significar sempre ou o uso da lanterna como indicador do caminho na história da maçã pessoa.

Zoë tem a sorte de ter uma mãe atenta ao seu crescimento e desenvolvimento, que lhe alimenta a criatividade narrativa e gráfica. Ao partilhar estes diálogos, Patrícia Portela, na contracapa da obra, apela para que os leitores acrescentem todas as ideias que quiserem, ofereçam cor a todos os riscos e escrevam às autoras a contar o que descobriram para continuar a conversar, como se de um livro-tertúlia se tratasse. Para que, acrescentamos nós, no quotidiano atribulado e cansativo de muitos pais, haja também uma atenção extra a momentos relacionais que, de outra forma, se perdem na memória.

Patrícia Portela é autora de performances e obras literárias, vivendo entre Portugal e Bélgica. Estudou cenografia, cinema, dança e filosofia. Entre 1994 e 2002 trabalhou sobretudo como figurinista ou cenógrafa para teatro independente e cinema em Portugal recebendo o Prémio Revelação 94 da Associação de Críticos de Teatro pelo seu múltiplo trabalho. Criadora de performances e instalações transdisciplinares, itinera com regularidade pela Europa e pelo mundo. Reconhecida nacional e internacionalmente pela peculiaridade da sua obra, recebeu vários prémios (dos quais destaca o Prémio Madalena Azeredo de Perdigão/F.C.G. para Flatland I ou o Prémio Teatro na Década para Wasteband). Autora de vários romances e novelas como Para Cima e não para Norte (2008) ou Banquete (2012, finalista do Grande Prémio de Romance e novela APE), participou no 46º International Writers Program em Iowa City em 2013, foi uma das 5 finalistas do Prémio Media Art Sonae 2015 e a primeira autora a receber uma bolsa literária em Berlim do Instituto Camões em 2016.