Fotografia: Catarina DominguesPinheiro Bravo (título provisório) de Tiago Baptista foi a banda desenhada vencedora do 4.º concurso Toma lá 500 paus e faz uma BD

Pelo 4.º ano consecutivo, a Associação Chili Com Carne, com o apoio do IPDJ – Instituto Português de Desporto e Juventude promoveu o concurso Toma Lá 500 Paus e Faz uma BD. O vencedor é Pinheiro-Bravo (título provisório) de autoria de Tiago Baptista, futuro livro de 50 páginas a publicar no final do ano na Colecção CCC, que trata da Greve Geral de 18 de Janeiro de 1934.

Eis uma antevisão da obra:

Uma sinopse possível segundo as palavras do autor:
Cresci numa aldeia perto de Leiria e quando era criança para irmos à praia passávamos geralmente pela Marinha Grande. O meu pai costumava contar, quando parávamos nos semáforos, que ali naquelas ruas tinha sido a primeira vez que tinha visto mulheres a conduzir bicicletas, ou pelo menos várias ao mesmo tempo. 

Eu era uma criança sem noção de que a Marinha Grande era um forte centro da Esquerda em Portugal devido ao grande número de operários naquela zona, sobretudo da industria vidreira. Só mais tarde me apercebi disso e a partir daí vejo a cidade com outros olhos, com respeito, talvez. Bem, as mulheres que o meu pai via, iam para as fábricas trabalhar. Eu imaginava-as vigorosas, cheias de energia, decididas. Emancipadas. Sei eu agora que era isso que pensava, mas não conhecia a palavra nem o seu significado. 

Esta imagem ficou marcada na minha cabeça! Há poucos anos tropecei, por acaso, num livro sobre uma Greve Geral que houve, ou que foi convocada em Portugal, durante o Estado Novo, a 18 de Janeiro de 1934. Em 1933 há uma “salarização” dos sindicatos que passam para o domínio do estado, face a isto é convocada uma Greve Geral. Essa Greve foi um fracasso, a maior parte dos dirigentes sindicais, anarquistas e comunistas são presos e alguns deles vão inclusive estrear o Campo de Concentração para presos políticos no Tarrafal em Cabo Verde. 

 A partir daqui tento desenvolver, uma estória do que aconteceu na Marinha Grande, contando com alguns documentos e teses do que se passou. Não se assegura a realidade dos facto. Este não será um documento válido para estudo catedrático. É uma pequena homenagem.

O Júri da 4.ª edição foi composto pelo vencedor da edição passada e alguns associados – André Coelho, Filipe Felizardo, Hetamoé, Marcos Farrajota e Ondina Pires. Segundo o Júri, a maioria do Júri inclinou-se para o trabalho de Baptista por tantas razões que tornaria este acto de oficialização do vencedor deste concurso num ensaio! Invés dos argumentos fúteis (forte documentação e pesquisa, percurso do autor e a sua qualidade gráfica e narrativa, obra inédita e tema político) preferimos dois aspectos que são mais sólidos como a abordagem poética do autor sobre um tipo de trabalho que normalmente se insere na categoria de “BD Histórica” e pela ousadia do autor em querer reavivar episódios revolucionários nacionais que vão sendo saneados com as ideias tolas de que as revoluções em Portugal devem ser pacíficas ou feitas nas redes sociais.

Tiago Baptista (1986, Leiria) licenciou-se em 2008 em Artes Plásticas na ESAD nas Caldas da Rainha onde começou a publicar fanzines em 2005. Em 2006 fundou a editora Façam Fanzines e Cuspam Martelos onde publica trabalhos seus no fanzine Cleópatra, e na forma de colectivo no fanzine Preto no Branco. Vencedor do Prémio Aquisição Amadeo de Souza-Cardoso 2015 e do Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores em 2009. Das suas exposições destacam-se em 2016 Obscuro ver, Edifício do Banco de Portugal, Leiria e Questionamentos, Palácio Vila Flor em Guimarães e na Sala de Arte Joven em Madrid; em 2015 A pequena realidade, Galeria 3+1, Lisboa; em 2013 Prémio EDP Novos Artistas, Fundação EDP e Casa da Música, Porto, Under the influence of, João Cocteau, Berlim; em 2012 Tem calma, o teu país está a desaparecer, Galeria Zé dos Bois, Lisboa; em 2011 Guimarães Arte Contemporânea 2011, Palácio Vila Flor e Laboratório das Artes, Guimarães; em 2010 A culpa não é minha – Obras da Colecção António Cachola, Museu Colecção Berardo. Em 2013 participou na residência artística da Culturia em Berlim e desde 2010 está em residência artística na Galeria Zé Dos Bois. Em 2012 a publicação Fábricas, baldios, fé e pedras tiradas à lama co-editada pela Oficina do Cego e pelo colectivo a9)))) ganhou o Prémio de Melhor fanzine do Festival Amadora BD, que compilava bandas desenhadas suas feitas entre 2008 e 2012. Participou na antologia Zona de Desconforto da Chili Com Carne.
BIBLIOGRAFIA:
Fábricas, baldios, fé e pedras tiradas à lama (Oficina do Cego + a9)))); 2012)
Stalker (col. O Filme da Minha Vida, Ao Norte; 2015)
Imagem Viagem (col. Toupeira, Bedeteca de Beja; 2016)
colectivos:
Zona de Desconforto (Chili com Carne; 2014)
Maga (entrevista, Chili Com Carne + Clube do Inferno + Thisco; 2015)

A Chili Com Carne sublinha ainda que este ano participaram a concurso dezasseis propostas, sendo a maior participação de sempre desde que aquela Associação começou a promover este concurso em 2013. A CCC comunicou ainda que o nível médio da qualidade das propostas foi bastante aceitável.

Relembra-se que em outubro de 2015 foi publicada a primeira obra vencedora (do primeiro concurso, em 2013), The Care of Birds / O Cuidado dos Pássaros de Francisco Sousa Lobo, que terá uma edição espanhola em 2017. O último resultado deste concurso foi publicado no dia 6 de outubro de 2016, o romance gráfico Acedia de André Coelho, obra vencedora do concurso do ano passado.

Outras obras participantes não vencedoras conheceram também edição. Foi o caso de  Askar o General de Dileydi Florez e O Subtraído à vista de Filipe Felizardo.

nota: fotografia por Catarina Domingues.