Apesar da proximidade geográfica e das línguas portuguesa e castelhana, as obras de banda desenhada de autores espanhóis continuam a não ser importadas e distribuídas nas nossas livrarias, onde impera a língua francesa e inglesa.

Mais curioso é o facto da maior proximidade do português e do galego também não originar que as obras de BD editadas em Espanha em galego sejam distribuídas em Portugal. Inclusivamente, da presença das livrarias galegas nas primeiras duas edições da Comic Con Portugal (estiveram ausentes o ano passado), não recordamos também a oferta de muita BD em galego. Recordamos, porém, o cuidado em confirmarem que a versão que vendiam aos portugueses se encontrava em castelhano e não em catalão, por exemplo.

Com o desconhecimento do público dos dois países da quase totalidade de obras e autores do país vizinho, dificilmente este cenário se alterará a curto prazo. E ainda é uma grande incógnita se as recentes edições de autores espanhóis de banda desenhada em Portugal terão a capacidade de originar curiosidade e procura suficiente por obras em castelhano, para que se justifique a importação das mesmas para as nossas livrarias.

Deste modo, pode-se estranhar a distribuição em Portugal do livro História da Língua em Banda Desenhada (edição de aniversário 25 anos), editada pela galega Através Editora.

Na verdade, a Através Editora é a chancela editorial da AGAL – Associaçom Galega da Língua, que publica em galego internacional para os mercados da Galiza e de Portugal, sendo todos os seus livros distribuídos em Portugal através de uma distribuidora portuguesa e a obra supramencionada a única em banda desenhada.

O denominado galego internacional, galego-português, português da Galiza ou portugalego corresponde à visão reintegracionista, um movimento social lusófono galego que pretende a reintegração da língua galega no âmbito linguístico português. O galego internacional respeita a tradição etimológica histórica, utilizando uma norma ortográfica muito semelhante à do português e assume-se como uma variedade desta língua.

Não é esta a visão oficial e adotada pela maioria das entidades galegas, que entende o galego e o português como duas línguas distintas e utiliza, portanto, normas ortográficas distintas do padrão português, semelhantes à do castelhano.

Por tudo isto, não será de estranhar o quão importante é para a AGAL esta banda desenhada publicada originalmente na Galiza em 1992. Funcionou como uma peça catalisadora e aglutinadora de diversas associações e movimentos reintegracionistas que se encontravam a germinar. Com o preço estampado na capa de 300 pesetas / escudos, apresentava nas páginas do interior vários anúncios de comerciantes e outras entidades galegas, tendo sido editada pela Meendinho Ediçons e comercializada pela Coordenadora dos Movimentos Reintegracionistas. A primeira edição teve direito a 3000 exemplares. E quase imediatamente depois, produziram-se mais 2000.

Nesta edição de dezembro de 2016, existem novas páginas, seja em BD, seja sob a forma de textos de contextualização. Até porque a Reforma de 2003, aprovada pela Real Academia Galega, considerou irreversível a castelhanização do galego.

Quanto aos autores da obra, são seis. A saber:
Argumento: Beatriz Arias López, F. Xavier Paz Garça, Jose M. Aldea e coletivo Pestinho
Desenho: coletivo Pestinho – Francisco Paradelo, José R. Moxom e Miguelanxo Carvalho

Eis a sinopse da editora:

De um produto editorial podemos afirmar que tivo êxito por diferentes motivos. As vendas é o que antes aparece na nossa mente. A História da Língua em Banda Desenhada foi impressa 5000 vezes e há tempos que não se pode adquirir numa livraria. Outro forma de medir o sucesso, talvez mais determinante, é quando fragmentos desse produto ficaram na nossa mente. A HLBD reúne centenas de quadrinhos e alguns deles ainda habitam a nossa imaginação, talvez para sempre.

Conseguir habitar as mentes dos leitores requer uma sincronização muita afinada entre as pessoas que têm a ideia, as que a desenvolvem e as que a plasmam gráfica e textualmente. Tudo isto sucedeu com a HLBD.

Some-se a isto que o produto não fazia parte do caminho que desenharam as instituições e elites galegas para a nossa língua, e o efeito criado é ainda mais poderoso. Não era a história de uma língua sem estado, isolada, sem ligações com outras comunidades nacionais. Era e é a história de uma língua que na Galiza não tem Estado, na verdade nem autonomia, mas que em outros espaços é a língua nacional e serve para tudo o que serve uma língua ocidental. A HLBD convida a lutar polo desenvolvimento social da língua na Galiza mas, ao mesmo tempo, convida a desfrutá-la, não apenas na Galiza mas nos outros cantos do mundo onde é falada. E tudo isto foi em 1992.