Quando realizei há 11 anos a leitura de Fragile Things, uma antologia de mais de uma trintena de contos e poemas de Neil Gaiman publicada pela HarperCollins, tenho de confessar que Como Falar com Raparigas em Festas não me causou um impacto especialmente diferente das demais obras compiladas naquele volume. Tal como as restantes antologias de Gaiman – ou quaisquer outras – haverá sempre textos que nos apelam mais do que os outros e, embora tenha permanecido na memória, ao longo destes anos, a ideia geral do conto, nada me indicaria na altura que se tornaria tão popular.

Na verdade, apesar do conto ter sido agraciado com um Locus Award em 2007 – prémio da revista mensal norte-americana homónima, dedicada a ficção científica e fantasia – e ter sido nomeado na altura para o norte-americano Hugo Award, aparentemente teve de decorrer uma década para que uma adaptação à banda desenhada o desse a conhecer a mais leitores, antes de cair no domínio mais popular do cinema, com o filme realizado por John Cameron Mitchell (Shortbus) e interpretado por Elle Fanning (a próxima Mary Shelley), Alex Sharp (To the Bone, ainda inédito em Portugal), Nicole Kidman (que em breve também estará no grande ecrã no mais recente filme de Soffia Coppola, The Beguiled), Ruth Wilson (a Jane Eyre de uma década atrás) e o inigualável Matt Lucas (o bebé fraldinha de Shooting Stars). O filme tem a sua primeira exibição agendada para o Festival de Cinema de Cannes, em maio.

Entretanto, a Bertrand publicou este mês a banda desenhada Como Falar com Raparigas em Festas no nosso país. Atendendo à tradução, tornou-se irrelevante realizar a releitura do conto na língua inglesa para me aperceber de como a prosa de Gaiman foi transformada em balões de fala. Na realidade, desconheço qual foi o processo de trabalho dos gémeos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá na adaptação do conto à BD, podendo inclusivamente colocar-se a hipótese de terem utilizado total ou parcialmente a tradução brasileira do mesmo, antes da BD ser reconvertida em inglês para publicação nos EUA, pela Dark Horse.

Há principalmente duas bases nesta narrativa – agora gráfica – com as quais simpatizo particularmente. Em primeiro, os diferentes graus de organização de um grupo de amigos, independentemente do tamanho do mesmo, desde os completamente desleixados aos (quase?) obsessivo-compulsivos. Também é assim com Vic e Enn, o protagonista da história, onde este acaba por admirar como a arte de improviso e pouco planeamento parecem funcionar tão bem para o amigo.

É graças a esta pouca atenção aos detalhes de Vic que se desenrola tudo o que acontece a seguir, com os rapazes a descobrirem, a certa altura, que a festa onde acabam por ir parar não era aquela à qual tinham planeado ir.

Paralelamente, na festa, o Enn vai descobrindo o quão estranho é o sexo oposto. Sem grande interação com raparigas, dado frequentar uma escola só para rapazes, Enn esforça-se por interagir com as raparigas da festa, apesar de não as compreender. E é esta incompreensão, este sentimento de que as raparigas são seres alienígenas tão diferentes dos rapazes, que se torna delicioso quando… isso talvez seja a mais pura das verdades!

A esta divertida narrativa, Moon e Bá emprestam tons tropicais que fundem com as cores londrinas mais sombrias, gerando uma Londres ensolarada e acolhedora, exceto nos momentos em que parece que todo o universo resolveu implicar com os dois amigos. Com um ritmo irrepreensível, os gémeos Moon e Bá conseguem deliciar o nosso olhar, apesar do número relativamente pequeno de páginas da banda desenhada. O que é perfeito para releituras!

nota: agradece-se à editora a oferta do livro.