Lançada no nosso país no outono do ano passado (imagens do interior da obra aqui), a banda desenhada O Azul é uma Cor Quente de Julie Maroh tinha sido precedida pela estreia da sua adaptação cinematográfica a 23 de novembro de 2013, com o título A Vida de Adèle. Eis o trailer do filme realizado pelo tunisino Abdellatif Kechiche:

Felizmente, (ainda?) não vi o referido filme, o que me permitiu realizar a leitura da BD sem a influência daquele, apesar da capa da edição nacional não o deixar esquecer. Mesmo sem saber detalhes sobre o filme, rapidamente o leitor se vai aperceber que não existe nenhuma Adèle na obra, tendo o realizador optado por substituir o nome da protagonista, Clémentine, pelo da atora que a interpreta, Adèle Exarchopoulos. E se ficaram curiosos com as pequenas letras sob o título do filme, anunciando se tratar do capítulo 1 e 2, posso revelar que existe um terceiro capítulo na BD que não foi transposto para o filme. Como último apontamento no que toca à longa-metragem, registe-se que para além de ter ganho a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013, foi galardoada um pouco por todo o mundo com mais de 35 prémios atribuídos entre 2013 e 2014.

Perante todos estes factos, era impossível não estar curioso quanto à obra original, a qual não só motivou a sua adaptação para o cinema, como deu origem a um filme multipremiado. Não que a BD não tivesse tido também direito a um prémio no Festival de Angoulême em 2011, conferido pelo público. Os restantes 5 prémios foram o Prix Jeune Auteur au Salon de la BD et des Arts Graphiques de Roubaix 2010, o Prix Conseil Régional au festival de Blois 2010, o Diplôme “Isidor” du site altersexualite.com, o Prix BD des lycéens de la Guadeloupe e o Prix du Meilleur album international lors du 4e Festival international de la BD d’Alger en 2011.

Na BD, a adolescente Clèmentine inicia um percurso de autodescoberta, após se sentir atraída por Emma. Através das analepses e prolepses, o leitor rapidamente se apercebe que Emma tem um papel determinante na vida de Clémentine. Este amor colocará novas questões não só no que se refere à sua sexualidade, mas também à sua relação com um mundo com preconceitos relativos à homossexualidade.

Para o leitor adulto que se interessou pela abordagem madura de Alison Bechdel: Uma Tragicomédia Familiar (Leitura Recomendada do site Bandas Desenhadas), que a Contraponto/Bertrand tinha editado entre nós, trata-se de uma leitura bastante mais simples e de intuito imediato, como se a experiência pessoal de Julie Maroh com a temática tivesse necessidade de ser passada para o papel. Afinal, trata-se do primeiro livro da autora, publicado aquando dos seus 25 anos. No entanto, poder-se-á dizer que pouco acrescenta quando comparado com outras obras – literárias, cinematográficas,… – referentes à mesma temática.

Mesmo se limitarmos a evocação da memória a jovens autores, muitos têm abordado a temática com outra linguagem e energia. Se é um facto que, por exemplo, Propaganda de Joana Estrela (Plana Press, 2014) narra um suceder de episódios num determinado período de tempo, não havendo a necessidade de ser criado uma linha narrativa com um início de interrogações nem um desfecho dramático, as narrativas da autora portuguesa surgem mais sinceras e autênticas.

Maroh, com um traço agradável e um incomum domínio da linguagem gráfica para uma primeira obra publicada, que atinge as 150 páginas, consegue documentar algumas das questões, incertezas e angústias porque passam os adolescentes, sem propriamente adotar um estilo de manifesto e fornecendo aos leitores uma obra que poderá inclusivamente ser um ponto de partida para aqueles que não têm nenhum interesse particular por temáticas relacionadas com LGBT. Mas nunca se afasta desta visão de adolescente/jovem adulto, podendo tornar a leitura insossa para os demais, com um final que, para além de correr o risco de se encarar como demasiado lamechas, coloca interrogações deveras críticas quanto ao seu significado.

No entanto, Maroh acabou por conseguir, com a sua banda desenhada, atingir um número considerável de leitores internacionais – encontra-se publicada em mais de uma dezena de países. E isso, per se, ainda é importante. Como escreveu um amigo a propósito da 18.ª edição da Marcha do Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual e Trans (LGBT) de Lisboa, contra a discriminação sexual, realizada este mês: “Infelizmente ainda é preciso sair à rua. Quem não o sabe, vive uma qualquer realidade paralela. Saio à rua, nem que seja pelos meus amigos, irmãos que são mortos ou oprimidos em um qualquer país, por algo tão simples como terem uma orientação sexual diferente da ‘norma’. Para o ano, saiam todos à rua!”