Na obra A Leoa, um retrato gráfico de Karen Blixen (cf. previews aqui), a G. Floy regressa à publicação de bandas desenhadas de caráter biográfico, curiosamente (ou não) com o mesmo duo de autores d’ O Astrágalo, Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg.

São 2 obras curiosas, aparentemente desirmanadas do restante catálogo da editora. É verdade que em ambos os casos há uma correlação com a transposição de media, mas jamais seria o cinema ou as obras literárias em que se alicerçam que motivariam a edição nacional.

No caso d’ O Astrágalo, a BD foi publicada originalmente em 2013, antecedendo em 2 anos a segunda adaptação cinematográfica homónima, desta feita com realização de Brigitte Sy. Estreada nas salas portuguesas a 9 de julho, foi a estreia dessa semana com direito a menor número de espectadores (menos de 200), somente atingindo o 29.º lugar na lista de filmes visualizados nessa semana. Isso não impediu, obviamente, a Antígona de publicar meses depois o romance semiautobiográfico homónimo de Albertine Sarrazin (1937-1967), 50 anos após a publicação original.

Se Sarrazin permanece um nome obscuro para os portugueses, Karen Blixen (1885 – 1962) também não gozará de popularidade, com uma exceção – se se realizar a evocação do filme África Minha, realizado por Sidney Pollack, com Karen a ser interpretada por Meryl Streep. Tendo tido direito, entre outros prémios, a 7 Óscares e mais 4 nomeações, a verdade é que, estreada em 1986, esta referência popular não foi poupada à entropia, turvando a recordação dos mais velhos (atrevemo-nos a prever que, para a maioria, permanecem na memória apenas alguns temas musicais de John Barry e somente uma ou outra cena mais marcante) e não constando da memória coletiva das gerações mais novas. Quantos portugueses com menos de 30 anos terão visualizado o filme em suas casas?

Podíamos, inversamente, evocar obras escritas por Karen Blixen adaptadas ao cinema, desde o popular A Festa de Babette de Gabriel Axel ao obscuro Ehrengard de Emidio Greco (que teve de aguardar 20 anos para ser distribuído nos cinemas), mas obteríamos resultados similares.

Cremos, portanto, que a maioria dos leitores d’ A Leoa, tal como tinha acontecido n’ O Astrágalo, desconhecem em todo ou na maioria as biografias narradas, o que poderá ser uma vantagem, permitindo desfrutar de uma leitura das obras propostas sem confrontos.

No caso d’ A Leoa, a obra é anunciada como uma biografia”reinterpretada”. Tendo como bibliografia 25 obras de Karen Blixen e outros autores, bem como outras 18 obras citadas ao longo do livro, os autores reinventam a personagem, não se esquivando de evocar elementos do género fantástico para a construção da sua narrativa.

Pandolfo continua a demonstrar o quão bem consegue realizar estas adaptações, criando uma história coerente, para ser lida e apreciada, não correndo no frequente erro de acumular um desfilar de datas e factos de que tanto padecem as biografias adaptadas a BD. Pelo contrário, a leitura é fluída e o leitor é continuamente motivado a se interessar pela narrativa e a protagonista que há tão pouco tempo nada lhe dizia.

A autora explora ainda que papel poderia ter no mundo uma mulher europeia no final do século XIX e início do século XX, nada e criada na Dinamarca no seio de uma família religiosa de ideias pequeno-burguesas. O aprisionamento que Karen sentia no seu país contrasta com a liberdade que pressentira que o pai tivera nos EUA com o contacto com povos nativos e que Karen vem a experimentar no Quénia britânico.

Após 4 álbuns a preto e branco, este é o primeiro álbum a cores de Terkel Risbjerg. Se o facto das composições a preto e branco n’ O Astrágalo permitirem a Risbjerg encontrar interessantes soluções na planificação e desenho, após a leitura d’ A Leoa, é difícil imaginar a obra num registo semelhante. As cores providenciam ora atmosferas suaves ora sombrias, tornando-se um elemento frequentemente discreto mas extremamente importante à narrativa.

Como nota de rodapé, registe-se que os autores estiveram presentes este ano no XIII Festival internacional de Banda Desenhada de Beja, com direito a uma exposição.

Com uma boa tradução e revisão, congratula-se ainda a editora pela opção da obra em capa dura e manter o generoso formato original.

Trata-se do exemplo perfeito dos livros cuja leitura se inicia sem grandes expectativas e rapidamente nos capta a atenção para não pousarmos a obra enquanto a primeira leitura não estiver concluída.

nota: agradece-se à editora a oferta do livro.